21 Novembro 2016
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O vintém, moeda de cobre de menor valor naquela época, foi a protagonista, no dia 1º de janeiro de 1880, do movimento popular contrário ao aumento da passagem dos bondes. Tal episódio ficou conhecido, como a Revolta do Vintém.

Considerações

Uma solicitação de audiência – cena 1

Portal Moedas do Brasil

Não por acaso, os fatos iniciados em dezembro de 1879, que adiante deixariam muitos feridos e alguns mortos, dariam seus primeiros passos bem em frente ao palácio onde residia D. Pedro II. O monarca conduziria o Brasil por quase meio século. Como era repetido, enquanto possuia extrema representatividade na sociedade brasileira, “ele governava”.

O imperador, avesso às festas e mesuras vinculadas à realeza, praticava uma política marcada por “ambiguidades” que apenas suavizavam os rituais, segundo ensina a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Naquele mesmo ano, por exemplo, havia renunciado ao título de soberano (porque a soberania era do povo). Anteriormente, em 1871, depois de sua primeira viagem ao continente europeu, deixou de lado o costume português do beija-mão. Por outro lado, manteve a liberdade de imprensa e rejeitou títulos e estátuas.

Joaquim Insley Pacheco/BN Digital

Logo após os festejos natalinos, a cidade do Rio de Janeiro, capital imperial, presenciaria, no dia 28 de dezembro de 1879, uma manifestação pacífica acontecida no campo de São Cristóvão. Segundo Schwarcz “uma multidão ajuntou-se em frente ao palácio (...) para solicitar ao imperador a revogação da lei” que instituía o aumento das passagens dos bondes em vinte réis ou um vintém. O imperador retrucou informando que atenderia a um grupo, o que não foi aprovado pelos que solicitavam o encontro.

As próximas cenas, acredita-se, sem planejamento prévio, aconteceriam no centro do Rio, no dia 1º de janeiro de 1880. E não seriam nada pacíficas.

No cenário imperial, atores e espectadores

Os conflitos que eclodiriam em janeiro de 1880 foram deflagrados a partir de um aumento proposto pelo governo imperial que atingiria a população como um todo: cobrar uma mesma taxa na passagem dos bondes puxados, à época por tração animal, que circulavam pelo Rio de Janeiro percorrendo e interligando as diversas freguesias cariocas.

A cidade foi a primeira da América do Sul a receber um serviço de transporte desse tipo sobre trilhos de ferro. Para estudiosos, como o geógrafo Maurício Abreu, a história do Rio pode ser dividida antes e depois da “revolução dos transportes coletivos”. As diversas companhias de carris que receberam concessões do governo imperial ampliaram a malha urbana, facilitando o acesso à região central da capital imperial por onde circulavam setores sociais. O Centro reunia lojas, bancos, depósitos, oficinas, armazéns, prédios públicos, trapiches, casas térreas, sobrados e casarões muitas vezes transformados em “casas de cômodos”, ocupados pelas populações mais carentes.

Não por acaso, os fatos aconteceriam na capital imperial e nos derradeiros anos do regime monárquico no Brasil. O movimento marcou a vida política da cidade e do Império, dominados por uma “elite socialmente coesa e essencialmente segura de si mesma, embora geograficamente dispersa”, segundo a historiadora Sandra Lauderdale Graham. A autora considera que a vida política “consistia exclusivamente na ocupação de homens poderosos agindo em nome daquilo que eles, sem hesitação, classificariam como o interesse comum”. Tais atores até poderiam discordar entre si em reuniões parlamentares; porém tinham claro que os temas políticos seriam conduzidos e limitados por regras que eles estabeleciam. A população “podia surgir como espectador ou comentarista, mas não como um participante ativo”.

A certeza da incerteza: ideais e sonhos onde foram parar?

O bonde, concessão inicialmente atribuída pelo governo imperial à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boa Vista, na Tijuca, era tido como o meio coletivo de transporte mais importante para os deslocamentos pela capital imperial. A introdução desse veículo gerou um sensível aumento do número de passageiros conduzidos, dando a dimensão do que hoje chamaríamos de transporte de massa. O Jornal do Commércio, publicando sobre o tema, informava que essa forma de condução “satisfaria completamente os incrédulos (...), porque a todos deu a esperança de gozar, por meio de transporte rápido e barato, o ar puro e o aspecto magnifico da pitoresca Tijuca”.

A partir da linha inaugurada por D. Pedro II em 1859, as viagens passaram a acontecer, embora ainda precariamente, durante a manhã e à tarde. Segundo historiadores, apenas pelos idos de 1868, com a Companhia Botanical Garden, seriam efetivamente iniciados os serviços desse transporte urbano. Aos poucos, outras concessões foram dadas pelo governo imperial. As demais empresas que surgiram, dividiram operações pelas regiões da cidade. Funcionando com regularidade, articularam regiões da capital imperial onde, anteriormente, somente seriam alcançadas a pé ou por veículo como a carruagem. Segundo palavras da pesquisadora Elisabeth Von der Weid, a partir dessa época as “linhas de bonde interligadas cobriam absolutamente toda a zona urbana do Rio e seus subúrbios mais próximos”.

Contudo, a entrada em funcionamento desse transporte não foi tão serena e nem repleta de sucessos. Muitos se assustavam com a velocidade, até então desconhecida. Inicialmente os acidentes que inquietavam a população seriam frequentes. Algumas vezes, colidiam com outros meios de transportes mais lentos e com horários irregulares, como as diligências. Em outras, atingiam cavaleiros que, ignorando o perigo, ocupavam o intervalo dos trilhos, não dando atenção aos repetidos apitos executados pelos condutores ou ao som dos guizos que os animais, empregados na tração desses veículos, traziam presos aos pescoços.

O movimento é entendido, por alguns historiadores, como o maior distúrbio urbano acontecido no país. Levou às ruas da capital do Império aproximadamente quatro mil pessoas, de acordo com números citados pelo Jornal do Commércio. Essa publicação, como outras, “atacara o projeto de lei”, segundo palavras do historiador Gustavo Barroso.

Derramou-se pela malha urbana carioca, desestabilizando mais ainda o regime político de um Estado imperial que vivenciava tempos incertos. A famosa Rua do Ouvidor funcionava dia e noite ecoando opiniões e debates. A popularidade da realeza já não se sustentava. Muitos, perplexos e confusos, se perguntavam: onde tinham ido parar os ideais e os sonhos da monarquia tropical?

Quem conta um conto aumenta um ponto?

A imprensa da cidade desempenharia um papel importante, divulgando as notícias que iam desde os discursos dos parlamentares passando pelo panorama parisiense e alcançando questões como a do imposto do vintém. Mesmo que na capital imperial, nos anos 1870, o número de letrados fosse pequeno se comparado ao total de habitantes (aproximadamente 2% em uma população de 1,1 milhão de habitantes), as novidades se multiplicavam, circulando de boca em boca, por meio da leitura realizada nos locais onde as publicações eram comercializadas.

Jornais e revistas levantavam questões argumentando contra a cobrança do vintém. Alegações insistiam que o tributo pesaria, indiscriminadamente, sobre toda a população com rendimentos desiguais. Argumentos sinalizavam que a taxação não observava a diversidade financeira dos usuários dos bondes. Havia indivíduos abastados que moravam em confortáveis chácaras em Botafogo, por exemplo. Também existiam outros, mais humildes, que habitavam alguma casinhola na região chamada de Cidade Nova – área de mangue que, a partir de meados do século XIX, seria aterrada e ocupada “por uma população segregada”, segundo palavras do geógrafo Arthur Alves Pinheiro Filho.

Gazeta da Noite/BN Digital

A Gazeta de Notícias, por José Ferreira de Souza Araújo, fundada em 1874, segundo o historiador Nélson Werneck Sodré, e de linha liberal, chegou a ser um dos principais jornais da capital federal durante a chamada Primeira República e registrava os acontecimentos. No dia 27 de novembro de 1879, publicaria na primeira página um artigo acusando o governo de buscar um acordo com as companhias que operavam as linhas dos bondes. Insinuando concessão de vantagem, o acerto seria uma forma de arrecadar eficientemente o imposto do vintém.

Os jornais contribuíam para a formação de opinião de muitos. Até daqueles que o escritor José do Patrocínio nomeava como “Zé Povinho”. Segundo a historiadora Ana Paula Silveira de Andrade, essas camadas pobres, “quase sempre formadas de ex-escravos, instituíram uma cidade própria e alternativa com práticas políticas próprias, devido ao longo período de luta contra a escravidão. E mesmo impedidos de participarem dos pleitos oficiais, já que não tinham renda, procuravam outros caminhos para as negociações políticas na tentativa de assegurarem direitos”.

Uma corte de cenários heterogêneos

Pelas ruas, vielas e pelos becos da cidade do Rio de Janeiro, nos anos de 1870, o trabalho escravo, necessário às atividades braçais nas casas, nos sobrados e nas chácaras dos senhores, permanecia. Numerosos cativos circulavam pela capital imperial. Nenhuma mudança acontecera nesse sentido.

Na “corte de cenários”, outros segmentos estavam presentes, quer oriundos da escravidão agora libertos ou recém-libertos, quer da crescente imigração estrangeira. Muitos indivíduos que compunham as esferas sociais mais pobres da população carioca atuavam em áreas como transportes, comércio e iluminação pública. Esse desenho do mosaico social traria questões interligadas à organização e à disposição da malha urbana na capital imperial.

Se por um lado o Império, que pretendia ser moderno e civilizado, caminhava buscando transformações significativas traduzidas em melhorias materiais, especialmente no Rio de Janeiro, por outro a parcela dos desfavorecidos permanecia excluída e desconsiderada. Nada de novo no horizonte.

Na cidade, capital imperial, o clima político paulatinamente ficava mais agitado. Inúmeras questões intranquilizavam setores da população ao constatarem que o Estado imperial não aparentava a solidez do passado. Os problemas se acumulavam. Entre eles, estavam o final da Guerra do Paraguai, em 1870, a grave seca do Nordeste brasileiro de 1877, a monarquia fragilizada, as crises dos gabinetes ministeriais, o “bando de ideias novas” oriundas da Europa ocidental que alcançavam os letrados no Brasil, a campanha abolicionista e a onda republicana.

Nesse cenário, a crise marcava presença e mostrava a face sem a menor cerimônia.

Afinal: o que estava em pauta?

Em meio a discordâncias políticas internas, o então ministro da Fazenda, Afonso Celso de Assis Figueiredo (futuro Visconde de Ouro Preto), pretendendo equilibrar o orçamento, propôs um projeto de lei, que a Câmara aprovaria, aumentando alguns impostos e propondo novos. Entre eles, estava a lei de 31 de outubro de 1879: “imposto de trânsito sobre passageiros de ferro-carris e vias férreas do Estado”, regulamentada a 13 de dezembro e que entraria em vigor a partir de 1º de janeiro de 1880. O polêmico imposto, amplamente debatido na imprensa da época, isentava outros estados brasileiros da cobrança que seria feita apenas sobre os habitantes da cidade do Rio de Janeiro.

Porém, na esteira dos acontecimentos, os fatos que levaram ao movimento ocorrido em 1º janeiro de 1880 não teriam como pauta apenas, a contestação contra impostos. Também não devem ser examinados, unicamente, como um movimento favorável à república, nem mesmo interligados ao surgimento da classe operária. Merecem uma análise à luz dos descontentamentos, “sobre o modo e a forma como a relação do Estado com a população se transformava”, conforme registra a historiadora Sandra Lauderdale Graham.

A Revolta do Vintém incorpora-se ao contexto de mudanças estruturais e, portanto, não é um fato exclusivamente relacionado ao aumento de passagens. Correspondeu à estratégia de um coletivo que pretendeu encontrar saídas para enredos que afligiam a sociedade urbana imperial, incluindo os menos assistidos.

Era a pauta dos pobres, desempregados e dos subempregados, dos ex-escravos e dos ainda escravos – camadas da sociedade excluídas de participação no sistema político vigente. Especificamente, quando falamos da Revolta do Vintém, é relevante caracterizar que diante das dificuldades financeiras vivenciadas pelos indivíduos desvalidos, muitas vezes desempregados, o aumento do imposto criaria uma sobrecarga nos seus orçamentos já bastante combalidos.

Mesmo observando que alguns utilizavam o transporte com menor frequência que outros, é necessário ponderar que a cobrança, somada a novos encargos, alcançaria indiscriminadamente, segundo o historiador José Murilo de Carvalho, todos os usuários dos bondes: “proprietários de escravos, aspirantes a títulos nobiliárquicos, fumantes, amantes do vinho, comerciantes e simples cidadãos”.

Os bondes atendiam a passageiros heterogêneos, com realidades sociais diametralmente opostas. Nos versos de O Cocheiro do Bond, composta em 1883 por Arthur Azevedo e Antônio Cardoso de Menezes, citados pela historiadora Silvia Cristina Martins de Souza, observa-se a variedade de indivíduos que cotidianamente utilizavam esse meio de transporte: “Tim! Um passageiro! Quem é? É o senhor Visconde de Parati Mirim? Tim! Uma passageira! Quem é? A senhora Baronesa de Caiapó!... Não é como na linha do Engenho Novo...Tim! Quem é? É o senhor Almeida da rua do Rosário! Tim! É o seu aquele, empregado na pagadoria das tropas...ah”!

Tons antimonárquicos pairavam no ar

Raphael Bordallo/In: Apontamentos sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Brasil pela Europa

Os acontecimentos interligados ao movimento conhecido como a Revolta do Vintém abalaram profundamente D. Pedro II, nessa época com a saúde bastante fragilizada. Muitos acreditavam que a sua debilidade física esmaecia o papel de elemento estabilizador das disputas, quer por seu prestígio pessoal, quer pelo Poder Moderador que exercia. O imperador, diante do episódio, confidenciaria aos mais próximos as boas relações que sempre mantivera com a população. Não compreendia a razão de tanta violência acontecendo nas ruas de um Rio de Janeiro tão tumultuado

Contudo, pairavam no ar outras importantes questões que ultrapassavam aquelas que o pensamento do ilustre imperador considerava. A monarquia brasileira, além das etiquetas nem sempre seguidas à risca, vivia tempos sombrios. Segundo a historiadora Maria Teresa Chaves de Mello, nessa época a opinião pública do país, quase que totalmente, havia perdido a confiança no trono. Oradores como Antonio da Silva Jardim, advogado e jornalista de grande atuação no movimento republicano, especialmente no Rio de Janeiro, proferia conferências como a que intitulou de “A Pátria em Perigo”.

As diversas publicações, apoiando ou contestando, conspirando ou não, repercutiam em letra de forma o burburinho que circulava pelas ruas, cenário perfeito para discussões populares. Espaços vistos pelas camadas dominantes como locais perigosos e promíscuos, por onde circulavam boêmios, vendedores ambulantes, desempregados, capoeiras e libertos que, entendiam, colocavam em risco a ordem estabelecida.

Na imprensa, que desde os anos 1850 possuía grande liberdade, D. Pedro II era objeto de incontáveis caricaturas, sendo tratado como “Pedro Banana”. Resultado, como registra Lilia Moritz Schwarcz, sobretudo “da indiferença com que o monarca encarava os negócios de Estado, ou da atitude oscilante que começava a ostentar publicamente” nos últimos tempos. Comentava-se que o imperador era um expectador do palco político cada vez mais esvaziado.

Na década de 1870, uma série de denúncias ocupam o espaço nas páginas das diversas publicações que circulavam, por exemplo, no Rio de Janeiro. Artigos criticavam as despesas da Corte interligando-a com as dificuldades financeiras do país. Cobravam transparência na prestação de contas referentes aos gastos da monarquia. Gabinetes ministeriais eram substituídos na tentativa de solucionar as crises agravadas por situações como as que envolveram os bispos católicos ou a querela com os militares.

Praticamente os anos finais do Estado imperial foram assinalados pela supressão da escravidão, pelo aparecimento dos militares, como atores na cena política e pelo aumento do movimento republicano. O historiador Sidney Chalhoub considera que a revolta era dirigida, especificamente, contra o ministério conduzido pelo Visconde de Sinimbu, mas que “a presença de agitadores republicanos conferira ao movimento tons antimonárquicos”.

Portanto, nos últimos dias de 1879 e no alvorecer de 1880, existia uma situação política bem diversa, se comparada ao gracejo atribuído a D. Pedro II quando se desequilibrou logo na entrada do derradeiro baile real ocorrido na Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889: “A monarquia tropeça, mas não cai”.

Não foi o que aconteceu, exatamente, seis dias depois.

O protagonismo de “pessoas comuns”

Charge Folha Illustrada 1880/BN Digital

O contexto histórico de alterações na estrutura política, econômica e social, vivida pela sociedade brasileira nas décadas finais do século XIX, seria o pano de fundo a compor o cenário onde o movimento de contestação chamado de Revolta do Vintém aconteceria.

O imposto propriamente consistia na cobrança da taxa de um vintém, ou vinte réis, sobre o valor das passagens dos bondes que circulavam na cidade do Rio de Janeiro. Temendo a impopularidade da medida, segundo o historiador Ronaldo Pereira de Jesus, “a companhia Botanical Garden chegou a sugerir que o imposto fosse cobrado junto às empresas de transporte, pela estimativa do movimento de passageiros, sendo posteriormente repassado para as passagens. Porém, as outras companhias de bondes alegavam a impossibilidade de efetuar o pagamento por estimativa”. O governo, conduzido pelo gabinete liberal do Visconde de Sinimbu (João Lins Vieira Cansação de Sinimbu), contando com o apoio da maioria do Parlamento, decidiu então que a cobrança do tributo incidiria diretamente nos usuários.

Pessoas comuns serão protagonistas do movimento, contrariando o que a historiografia tradicional considera. Para ela, as “massas” seriam motivadas exclusivamente por questões econômicas em movimentos conduzidos por indivíduos incapazes ou ignorantes. O tratamento dado aos conflitos sociais como sendo ações inconsequentes reflete o olhar das autoridades. Tal versão desqualificava extremamente as posições tomadas pelos participantes dos movimentos populares. Nesse entendimento, existiria uma espécie de conformismo interligado ao controle social exercido pela camada social mais privilegiada que mantinha as populações carentes aprisionadas em uma espécie de “cegueira social”, no dizer de estudiosos.

Para a historiadora Sandra Lauderdale Graham, o movimento contrário ao aumento das passagens dos bondes conduziria a uma “mudança decisiva não só na maneira pela qual a ação política podia ser, pública e diretamente, realizada e compreendida, mas também quanto aos setores envolvidos. Ela significa a transformação da cultura política”.

O movimento reuniu, em protesto, setores heterogêneos da sociedade imperial. Entre eles, estavam os moradores mais pobres da cidade do Rio de Janeiro que viviam excluídos da oportunidade de dialogar com o governo. Entendendo que o imposto era injusto, defendiam os seus direitos, que consideravam instituídos.

“Um remédio amargo, mas necessário”

Em meio às críticas e às tensões, aproximou-se a data em que começaria a vigorar a cobrança do imposto sobre as passagens dos bondes a ser recolhido mensalmente ao Tesouro. A arrecadação seria reponsabilidade da administração das companhias de transporte em nome do governo imperial. Segundo as regras, os usuários receberiam do cobrador um recibo que comprovava o pagamento. As companhias contariam com a presença das forças policiais se fosse necessário utilizá-las.

O governo, que nomeara o imposto como “remédio amargo, mas necessário”, disponibilizara um aparato de agentes em evidente coação à população, imaginando distúrbios e tumultos. Logo após o Natal de 1879, uma nota oficial proibira as reuniões públicas pelos espaços da capital imperial. As discussões e os debates ganham as ruas, vielas e praças, e o descontentamento se alastra.

Determinados jornais incentivavam as manifestações recomendando, contudo, que não houvesse enfrentamento direto com as forças policiais. A Gazeta de Notícias, em coluna assinada pelo médico e jornalista Lopes Trovão, considerava, citado pela historiadora Maria Tereza Chaves de Mello, que apenas “por meio de uma revolução o povo conseguirá chamar o poder ao cumprimento dos seus deveres”. Porém, no dia 1º de janeiro, com a revolta já desenhada, espantado com a violência dos protestos, Lopes Trovão apelaria para que a ordem fosse mantida, recomendando que a população retornasse às suas moradias.

Em tintas fortes, o movimento, entretanto, seguiu o seu curso em palavras e ações.

Um movimento espontâneo ou premeditado?

Panfletos circularam na cidade do Rio de Janeiro, de mão em mão, prevendo um segundo encontro para o dia 1º de janeiro, data do início da cobrança. Se o começo da Revolta do Vintém foi pacífico, quando a população tentou entregar a D. Pedro II um pedido contra a taxação, o mesmo não pode ser dito do seu desdobramento. O que aconteceu, antes, no dia 28 de dezembro, como um pedido ao imperador para que fosse revogado o imposto, tornou-se um desafio à legislação, com a população conclamando ao não pagamento.

Nas horas iniciais do primeiro dia de 1880, a cidade rotineiramente seguia a vida; os bondes circulavam sem nenhum protesto grave. Em torno do meio-dia, quatro mil pessoas manifestaram-se agudamente. Caminhando a partir do Largo do Paço (atual Praça Quinze de Novembro), seguiram em direção ao Largo de São Francisco, onde existia o terminal dos bondes que saíam do centro da cidade.

Na esquina das ruas Uruguaiana com Ouvidor os manifestantes se dividiram e se dispersaram. Se nesse exato momento agiram espontaneamente ou premeditadamente, os historiadores prosseguem sem resposta definitiva. A rua era o espaço de visibilidade política. A partir de então, a possibilidade de diálogo foi substituída pelo uso da força bruta.

O centro da cidade do Rio de Janeiro transformou-se em local de guerra, onde manifestantes e forças militares se enfrentaram. Barricadas foram montadas. Inicialmente, a desordem alcançou o Campo de São Cristóvão, espalhando-se posteriormente pelo Largo de São Francisco e pelas ruas Uruguaiana e Ouvidor, segundo publicações da época. O conflito não ocorria em toda a cidade, mas o estado de sítio foi decretado.

Segundo registros da 1ª Delegacia de Polícia da Corte, bondes foram virados e depredados, trilhos arrancados, pessoas e animais atingidos, tiros disparados e condutores espancados. A polícia, objetivando conter a multidão, agiu, contando com a participação do Exército e da Marinha. Contudo, a ordem não foi restabelecida imediatamente. Durante aproximadamente quatro dias, a fúria e a violência, parte a parte, marcaram o movimento. Depois, continuaram a acontecer tumultos isolados e em menor escala. Em 5 de janeiro, de acordo com a historiadora Sandra Graham, “a polícia já podia relatar que não se deu ocorrência alguma para perturbar-se a ordem e sossego público”.

Documentos oficiais, com o claro objetivo de desqualificar os manifestantes, referem-se aos descontentes como a “escória da sociedade” composta por “estrangeiros, vagabundos, embriagados, empregados de cocheira, moradores de cortiços, carpinteiros, mulheres vadias, pretos livres e escravos”, segundo registra a historiadora Ana Paula Silveira de Andrade.

O rescaldo do enfrentamento inicial, além da destruição material, resultaria entre 15 e 20 feridos e, segundo números oficiais, três mortos na Rua da Uruguaiana. José Murilo de Carvalho sugere de três a dez mortos. Segundo dados oficiais emitidos pela Casa de Detenção, entre os dias 1º e 3 de janeiro foram efetuadas 222 prisões.

Afinal, a população não seguira no rumo de uma “revolução pacífica”. Não acompanhara as palavras dos oradores nos palanques improvisados que ecoavam pela região central do Rio de Janeiro. O interesse dessas “pessoas comuns” era a emergente vontade de aumentar a participação na vida política ocupando uma posição não mais silenciosa.

Charge Folha Illustrada 1880/BN Digital

Conclusões

Cai o pano: “O povo pessoalmente o revogara”

Movidos pelo aumento do vintém, quando os envolvidos se reúnem em frente ao palácio imperial, em São Cristóvão, no dia 28 de dezembro de 1879; e mesmo depois, no Campo de Santana, em 1º de janeiro de 1880, não há intenção de derrubar o sistema político vigente. Também não eram indivíduos desinformados que aprovavam os discursos republicanos, descontentes com o governo imperial. O objetivo era fazer valer os direitos, que entendiam como já instituídos.

Contudo, não significa dizer que a manifestação foi apolítica. Existia, sim, uma defesa dos interesses e das vontades dessas “pessoas comuns” – nem indefesas, nem desesperançadas. Almejavam exercer um protagonismo, conscientes dos direitos que concebiam legítimos. A reação tomada pelos manifestantes, levando a política para as ruas e desafiando as leis vigentes, mesmo que dramaticamente, tornou o movimento “singular”.

A ebulição que se espalhou pela cidade, até o dia 4 de janeiro, impeliu as autoridades imperiais ao controle das ruas com a presença ostensiva das forças militares. A companhia de bondes do Jardim Botânico, diante do caos, chegou a propor que pagaria, ela mesma, o valor dos vinténs a serem depositados no Tesouro, pretendendo evitar que “seus passageiros passassem pelo vexame da cobrança”.

A partir da Revolta do Vintém, a cobrança da taxa passou a ser, segundo José Murilo de Carvalho “quase aleatória”. As companhias de bondes solicitaram seu cancelamento ao governo. O Ministério de João Luis Vieria Cansação de Sinimbu não resistiu ao movimento popular, e, a 20 de março, apresentou às Câmaras o pedido de demissão coletiva. D. Pedro II formou o novo ministério com o Conselheiro José Antonio Saraiva, que, nas primeiras declarações no Congresso, se posicionou contra o imposto.

Em 5 de setembro, o Parlamento acabou por revogá-lo. Quando isso aconteceu, ninguém mais o pagava e também ninguém mais o cobrava. Segundo palavras do historiador Gustavo Barroso, “o povo pessoalmente o revogara”.

Reflexões

Um movimento singular

Mas, afinal, todos os indivíduos que reagiram daquela maneira, dramaticamente nova, o que conseguiram? Exprimiram seus anseios e inquietações de forma clara e enfática? Levaram a política para as ruas da capital imperial, distribuíram panfletos, se concentraram diante das redações das publicações demandando apoio necessário. Enfrentaram as forças militares constituídas, o imperador. Desafiaram as leis promulgadas mesmo por meio de um conflito breve e debelado rapidamente.

A Revolta do Vintém, nos primeiros dias do ano de 1880, em pleno verão carioca, transformaria a ordem vigente trazendo reflexões sobre a existência de uma nova cultura política. Movimento singular redefiniria atores, plateia e a própria cena política. A antiga prática, entregue a alguns que agiam em círculos restritos, limitando as decisões e a participação, teve suas ações e regras contestadas. Mesmo que a reação viesse da forma como veio e por um dinheiro chamado de “xenxém”- referência à moeda colonial de 20 réis representada em algarismos romanos por XX.

No cenário político avultou um ator no espaço da arena política oficial: a população urbana. A letra do lundu, citado pelo historiador Gustavo Barroso, colhido e publicado por Monteiro de Azevedo, contextualiza a questão, sinalizando que a população não se comportou apenas como espectadora do episódio, mas reagindo quando o limite aceitável da interferência do Estado nas suas vidas fosse ultrapassado.

“Se o povo se levantou/Fez o povo muito bem, / Se depois se acovardou,/ Foi por causa do Vintém.

(...) Foi tudo de cabo a rabo/ Por um dinheiro xenxém,/ Se o povo fez o diabo,/ Foi por causa do vintém.

(...) Adeus, amigo Xingu,/Requiescat in pace, amen,/ Se escrevi este lundu,/Foi por causa do vintém”.

Mesmo de pouca duração, enquanto enfrentamento, o movimento teve longa duração na vida política do Rio de Janeiro e do Império brasileiro.

A década de 1880, iniciada com agitações urbanas, terminaria com incertezas durante todo o dia 15 do mês de novembro do ano de 1889, com a queda da monarquia e as tropas militares desfilando pela cidade. E com o imperador D. Pedro II, citado pelo historiador Sidney Chalhoub, que havia confidenciado à condessa de Barral: “seria mais feliz como presidente da República do que como imperador constitucional” – papel que cumpriria até o final.

Jeanne Abi-Ramia é professora de História e consultora da série de TV O Mochileiro do Futuro.

Bibliografia:

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