24 Janeiro 2017
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*O texto abaixo é uma versão resumida do capítulo sobre Tom Jobim que integra o livro Pequenos Notáveis - Parte 2. Para ler a versão na íntegra, clique aqui. Assista também ao episódio da série Pequenos Notáveis sobre Tom Jobim.

 

Foi em 25 de janeiro de 1927 que nasceu, na Tijuca, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, primeiro filho de Nilza Brasileiro de Almeida e Jorge de Oliveira Jobim.

O menino ainda não tinha 1 ano quando a família, envolvida em dificuldades financeiras, teve que trocar a Tijuca por Ipanema, naquela época um imenso areal totalmente desvalorizado. A casa nova ficava em uma rua de terra, a Barão da Torre. Dois anos depois, uma nova mudança, dessa vez para a Travessa Trianon, transversal à Rua Siqueira Campos, em Copacabana. Foram morar lá: Jorge, Nilza, sua mãe, Mimi, o pai, Azor, os irmãos Marcello e Yolanda e o pequeno Antônio Carlos.

Helena Isaura, a segunda filha de Nilza, nasceu em 1931. Ainda criança, chamava o irmão de Tom-Tom, sem imaginar que anos depois ele seria Tom Jobim, compositor e músico brasileiro de maior sucesso no exterior, um dos maiores nomes da música popular da segunda metade do século XX.

Em 1935, Tom entrou para o Colégio Mallet Soares, em Copacabana, onde, segundo a professora Fabíola Araújo Bittencourt, “aprendeu a ler e a escrever em apenas três meses”. O interesse pela leitura começou com o livro Juca e Chico, de Wilhelm Busch, traduzido por Olavo Bilac. Ele também gostava da poesia de Bilac e dos livros de Monteiro Lobato.

Nilza se casou novamente, agora com o matemático Celso da Frota Pessoa, e todos voltaram para Ipanema, na Rua Almirante Saddock de Sá. Desse tempo, Tom se lembrava especialmente da praia com sua areia fina, “que cantava no pé e fazia cuim, cuim, cuim”, e do mar límpido, azul, transparente, cheio de peixes. Ele se divertia também com os amigos “pegando jacaré” nas ondas, jogando bola de gude na areia e travando batalhas nas quais a munição eram os frutos que caíam das amendoeiras e pitangueiras da orla e da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Em 1938, Nilza fundou em casa um jardim de infância: a Escola Brasileira, que, em 1946, com a inclusão do curso ginasial, viria a se chamar Colégio Brasileiro de Almeida. Como parte do equipamento adquirido para a escolinha, ela alugou um piano Bechstein, contando que o instrumento inspiraria Helena a se tornar pianista. Tom preferia mesmo o futebol e o vôlei de praia.

 

Piano e Thereza

O interesse pelo piano começou aos 13 anos, quando, ao voltar da praia, “comia aquele arroz com feijão e, para a digestão perfeita, deitava no cimento frio da garagem”, onde estava o piano.

Assim, ele se familiarizou com as teclas e arriscou os primeiros acordes. Logo, passou a ter aulas com um professor contratado por sua mãe para a Escola Brasileira.
As aulas duraram pouco mais de um ano, mas o aluno nunca mais deixou o piano. Dois anos depois, ele conheceu o futuro parceiro Newton Mendonça, que tocava piano, violino e gaita. Entre pescarias, jacarés nas ondas, futebol, vôlei e peteca, Tom era visto pelas ruas de Ipanema soprando sua gaitinha também.

 

Curso de Arquitetura

Decidido a ganhar seu próprio dinheiro para se casar, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, no curso de Arquitetura. Mas não foi muito longe na faculdade.
Voltou, então, a estudar piano, passando por vários professores e se aproximando das obras de Chopin, Ravel, Debussy, Rachmaninoff, Prokofiev, Stravinsky e Villa-Lobos.

Em 1949, casou-se com Thereza Otero Hermanny, que foi morar na casa de sua família. Depois, se mudaram para o Bairro Peixoto, em Copacabana. O apartamento era tão minúsculo que na sala só cabiam um piano quarto de cauda e um sofazinho. Thereza começou a trabalhar, e o casal foi para um imóvel maior, mas ainda contando com a ajuda do padrasto de Tom para o aluguel e o sustento.

 

Nos bares da vida

Um ano depois, nasceu o primeiro filho do casal: Paulo Hermanny Jobim. Tom começou a trabalhar como pianista na noite carioca, passando por várias casas noturnas. Primeiro, só tocava piano; mais adiante, passou a cantar também: “Para desafinar, desafino eu”, dizia, referindo-se às cantoras de talento duvidoso que volta e meia tinha que acompanhar em sambas-canção, rumbas, boleros, foxes, tangos, canções francesas ou americanas.

Em 1952, conseguiu, também, um emprego como músico da orquestra da Rádio Clube (depois Rádio Mundial). Mas logo se transferiu para a gravadora Continental Discos, onde tinha como chefe o compositor João de Barro, o Braguinha.

A grande lembrança do tempo da Continental foi ter conhecido um ídolo e mestre: o maestro Radamés Gnattali, arranjador oficial da casa. E foi com o salário de lá que ele pôde dispensar a ajuda do padrasto e até alugar um apartamento maior, na Rua Francisco Otaviano, em Copacabana.

 

Um maestro de fato

Tom estava com 28 anos quando foi convidado por Radamés Gnattali a participar do programa Quando os Maestros se Encontram, da Rádio Nacional. Ele apresentou sua peça sinfônica Lenda, regendo a orquestra com auxílio de Radamés (sentado ao piano). Mais adiante, entre as décadas de 1950/60, ganharia o título de “maestro”, tantos foram os arranjos e as orquestrações que fez.

Outra mudança de casa: em 1955, Tom, Thereza e o filho Paulo voltaram a morar em Ipanema, na Rua Nascimento Silva, 107. O novo endereço virou letra de música, em 1974, assinada por Vinicius de Moraes e Toquinho, com o título Carta ao Tom. Nesse mesmo endereço, Tom musicou as letras de Vinicius para a peça Orfeu da Conceição, que estreou em 1956.

Tom e Vinicius
Tom ao piano. Atrás, Baden Powell, Vinicius de Moraes e Lucia Proença (Fonte: Instituto Antônio Carlos Jobim)

Estava inaugurada uma parceria que promoveria uma verdadeira transformação na música popular brasileira.

Entre tantas canções de sucesso, nos anos 1950, foram lançadas: Desafinado (parceria com Newton Mendonça), Outra Vez, Dindi (com Aloysio de Oliveira) e Só em Teus Braços (com Vinicius).

É da mesma época o primeiro sucesso dele: Tereza da Praia, em parceria com Billy Blanco. O samba era uma encomenda de Dick Farney, que queria uma música sob medida para ser gravada em dueto com o suposto inimigo Lúcio Alves. A gravação dos dois supercantores, acompanhados por Tom e conjunto, mereceu elogios da crítica e caiu no gosto popular.

 

A Garota de Ipanema

A década de 1960 começou com a mudança de Nilza e Celso para Poço Fundo, um lugarejo localizado entre Petrópolis e Teresópolis. A casa, sem eletricidade, era cercada de montanhas, árvores, bichos e “um grande rio piscoso”, como descreveu Helena Jobim.

Tom ia assiduamente para lá, onde ficava em contato direto com a natureza, uma de suas paixões, e onde escreveu Águas de Março, apontada pelo crítico inglês Leonard Feather como “uma das dez músicas mais bonitas do século”.

Em 1962, ano marcado pelo lançamento da composição Garota de Ipanema, aconteceu o show Encontro, com Tom, Vinicius, João Gilberto e Os Cariocas, na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana.

Por muito tempo, acreditou-se que Garota de Ipanema tinha sido feita no Bar Veloso (hoje Garota de Ipanema), na esquina das ruas Prudente de Moraes e Montenegro (hoje Vinicius de Moraes). A verdade é que Tom compôs a melodia em casa, para um musical que acabou não acontecendo. Vinicius também escreveu a letra em casa, que, além de se chamar Menina Que Passa, tinha a seguinte primeira parte: Vinha cansado de tudo/ De tantos caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo do amor/ Quando na tarde vazia / Tão linda no espaço/ Eu vi a menina/ Que vinha num passo/ Cheia de balanço/ Caminho do mar.

A menina em questão era Heloísa Eneida Pinheiro Menezes Paes Pinto, ou Helô Pinheiro, que tinha 19 anos e ia diariamente ao Veloso comprar cigarros para a mãe. Com a nova letra, em dois anos, Garota de Ipanema chegou a ter 40 regravações por diferentes intérpretes, entre eles, Nat King Cole.

Ainda em 1962, Tom embarcou para participar do histórico show da bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York. Ficou na cidade até meados do ano seguinte, fazendo diversas apresentações, inclusive com o saxofonista Gerry Mulligan. Ao mesmo tempo, trabalhou com letristas americanos na versão de suas músicas. Ele voltaria aos EUA em 1964, para uma longa temporada na Costa Oeste, tendo como base, dessa vez, a cidade de Los Angeles.

 

O amigo Sinatra

Corria o ano de 1966. Tom e Helena conversavam no bar, e ela contou: “No Veloso, de tardinha, o telefone toca. Chamam Tom. Avisam que é um homem falando inglês. Tom vai ao telefone. É Frank Sinatra. Explica que tinha telefonado para sua casa e de lá haviam lhe dado esse número. Convida Tom para gravar um disco, se tivesse agora disponibilidade de tempo”.

Tom e Sinatra
Ao violão, com o amigo Frank Sinatra (Fonte: Acervo MIS/RJ)

O encontro rendeu o LP Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim e um especial de TV: Tom no violão e em dueto com Sinatra. O programa venceu o Prêmio Emmy, entregue aos melhores da televisão americana.

Um novo casamento

Tom separou-se de Thereza em 1977 e, no ano seguinte, estava namorando a fotógrafa Ana Beatriz Lontra, com quem voou para Nova York. Na volta, foram morar em uma casa na Rua Peri. Vivendo tão perto do Jardim Botânico, ia sempre ao parque, onde gostava de caminhar, observando os pássaros e a riquíssima flora local.

Em 1982, ele ganhou o Prêmio Shell de Música Popular, um dos muitos recebidos entre as décadas de 1970 e 1990, entre eles o Prêmio Sharp de melhor disco e melhor música (Passarim, 1988), a Ordem do Rio Branco, a entrada no Hall da Fama de Compositores da Academia Nacional de Música dos EUA (ambos em 1990) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nova de Lisboa.

Chegou o ano de 1984, e Tom mudou-se com Ana e João Francisco (o filho, que nasceu em 1979) para uma casa na Rua Sara Villela, no alto Jardim Botânico, planejada por ele próprio e projetada por Paulo Jobim e Maria Elisa Costa (filha de Lucio Costa).

Ciente da marcação dos pontos cardeais em sua propriedade, Tom orientou os arquitetos para que fizessem os banheiros a oeste (evitando a umidade), os quartos voltados para leste (onde nasce o sol) e para que a casa tivesse o pé-direito alto: “Pé-direito bom é aquele em que você entra montado a cavalo e dá vivas à república tirando da cabeça o chapéu mexicano”.

Com vista para a Praia de Ipanema, a Lagoa, o Corcovado e o Pão de Açúcar, o novo endereço era privilegiado, rodeado de bichos como: paca, tatu, mico, gavião, inhambu, urutau, capoeira, saracura, preguiça, periquito e papagaio maracanã.

 

De volta a Nova York

Em 1987, nasceu Maria Luiza Helena, a caçula dele e de Ana Lontra. No ano seguinte, o casal foi para o apartamento de Nova York com os filhos João Francisco e Maria Luiza. Lá, viveram por três anos.

A família já estava de volta ao Brasil quando, em 1992, ele foi homenageado pela Estação Primeira de Mangueira, com o enredo Se Todos Fossem Iguais a Você. Em retribuição, compôs o belíssimo samba Piano na Mangueira, sua última parceria com Chico Buarque.

Mas, tirando a alegria no carnaval, o ano não começava com boas notícias: Tom foi diagnosticado com um câncer na bexiga. Após apresentações no Carnegie Hall (abril) e em Jerusalém (maio), ele se internou no Hospital Mount Sinai, onde extirpou o tumor.

Estava se recuperando quando os problemas respiratórios de que já sofria agravaram o quadro. Após duas paradas cardíacas, faleceu, em dezembro de 1994, aos 67 anos, nosso Antônio Brasileiro, que, ao se referir a seu país, costumava dizer que o Brasil deveria se orgulhar do fato de ser “o único país do mundo com nome de árvore”.

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