18 Agosto 2015
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artigo homeNo século VI a.C, o filósofo grego Heráclito de Éfeso já dizia que “não existe nada permanente no mundo, exceto a mudança”. Mas, em muitos aspectos, a sensação é de que vivemos em um tempo no qual as mudanças acontecem em uma velocidade vertiginosa. Seja pela rapidez com que as informações circulam ou pelas constantes atualizações tecnológicas, o momento atual parece ter acelerado o ritmo das transformações. Tudo à nossa volta parece acontecer cada vez mais rápido.

“Tudo. Ao mesmo tempo. Agora!”

Em um planeta cada vez mais conectado, interligado em tempo real, as fronteiras que separam nações, pessoas e saberes tornaram-se tênues. Em nossa aldeia global, as informações podem ser acessadas na velocidade da luz, os conhecimentos tradicionais são questionados pelas novas descobertas científicas, e os papéis sociais, antes estáveis, são desafiados por novas possibilidades de interação pessoal ou novas formas de organização familiar, comunitária e social.

Por intermédio da tecnologia, o ser humano supera os limites do próprio corpo. Sua visão se estende até os confins do Universo ou alcança o íntimo dos átomos. Sua voz cruza oceanos, percorre continentes. Sua imagem, reproduzida na aura azulada das telas de cristal líquido, se multiplica nos onipresentes dispositivos móveis. Seu pensamento, traduzido em gestos, imagens, sons ou palavras, é transmitido, repassado e partilhado com seus pares, inspirando, influenciando, estimulando, contaminando.

O choque entre o próximo e o distante, o local e o global, o individual e o coletivo, vem criando uma existência cada vez mais fragmentada, múltipla e multifacetada, na qual os sujeitos se constituem e se relacionam em rede, estabelecendo conexões as mais variadas muitas vezes marcadas por uma extrema fluidez.

E se na Grécia Antiga, séculos antes da invenção da internet, filósofos como Heráclito já percebiam essa instabilidade, lá também havia quem se preocupasse com as formas como a comunicação humana ocorria.

Transmissão do conhecimento

Sócrates, um dos pilares da filosofia ocidental, não deixou nenhum registro escrito de seu pensamento e talvez essa tenha sido uma vontade deliberada do homem que dizia “só saber que nada sabia”. Em Fedro, texto de seu discípulo Platão, um dos principais responsáveis por todo o conhecimento que se tem sobre sua vida e obra, Sócrates expõe a desconfiança que tinha em relação à eficiência da escrita como forma de transmissão de saber.

Seu temor era de que, uma vez escrito, o texto e as ideias nele contidas saíssem do controle de seu autor, que não saberia quem o leria e como o leria. As palavras, por si só, não têm a capacidade de transmitir o conteúdo desejado pelo autor e não podem dialogar com seus leitores, que as interpretam de maneiras diferentes. O conhecimento só poderia ser efetivamente transmitido por quem o tivesse inscrito na alma, por meio do discurso e da retórica.

A escrita acabou se tornando mais importante para a construção do saber do que Sócrates poderia supor, mas a posição do filósofo é pertinente em pelo menos dois aspectos: a preocupação com os efeitos que a mediação (no caso, a escrita) causa na comunicação humana e o reconhecimento de que um mesmo texto pode ser interpretado de diferentes maneiras por diferentes leitores.

Mais de dois mil anos depois, em um mundo já sob a influência das transmissões em larga escala de rádio e de televisão, o primeiro desses aspectos estaria presente desde cedo nos estudos sobre os meios de comunicação de massa. O segundo, no entanto, levaria algum tempo para ser considerado. A Teoria Hipodérmica, vigente no início do século XX e uma das primeiras a tentar compreender o impacto dos meios de comunicação nas sociedades, acreditava que as informações transmitidas pelas mídias atingiam de maneira idêntica todos os seus receptores. Dessa forma, elas seriam máquinas de propaganda com a capacidade de influenciar uniformemente toda uma população. De fato, governos totalitários da época tentaram utilizá-las como tal.

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Potencializado pelo sistema de broadcasting, que conferia a um número reduzido de emissores o acesso a um grande público, essa teoria considerava que o fluxo de informações percorria uma via de mão única, por meio da qual o emissor ativo conseguiria impor suas ideias ao receptor passivo, fosse ele telespectador, ouvinte ou leitor. Essa visão logo recebeu críticas porque focava no conteúdo das mensagens transmitidas e não levava muito em conta a diversidade e os anseios dos receptores, bem como desconsiderava suas reflexões sobre as mensagens recebidas.

Ao longo do século XX, novas teorias surgiram e lançaram luz em outros componentes da comunicação midiatizada, como a atuação dos emissores na seleção das informações, o processo de construção das mensagens, as especificidades de cada mídia, os diferentes fatores sociais e ambientais que afetam a transmissão e, principalmente, a participação dos receptores. A visão de Sócrates, de que a mesma informação podia ser entendida de diferentes maneiras por diferentes pessoas, voltava a emergir.

O reconhecimento do papel ativo do público no caminho percorrido pela informação, seus diferentes perfis, sua capacidade de influenciar outros receptores e os próprios emissores com suas inúmeras formas de reagir às mensagens recebidas transformaram o entendimento da comunicação. Para que um emissor transmitisse de forma eficiente sua mensagem, ele teria que conhecer muito bem seu destinatário. A publicidade e o desenvolvimento de sua linguagem, baseados em extensas pesquisas de opinião e em minuciosos segmentos de mercado, ilustram bem a importância disso.

Os produtores de conteúdo passaram a querer saber o que seus públicos desejavam e como reagiam às mensagens. Com isso, a participação interativa da audiência se ampliou. Mas, ainda assim, o modelo do broadcasting, de um para muitos, continuava a impor condições desiguais na relação entre indivíduos e meios de comunicação de massa.

A Rede

Há 20 anos, muitos dos avanços tecnológicos que hoje conectam os indivíduos e permitem a rápida circulação da informação ainda não estavam consolidados. Os computadores eram utilizados mais como ferramentas de trabalho do que como entretenimento. O acesso à internet ainda era restrito a instituições de ensino e pesquisa. Telefones celulares eram artigos de luxo. E a possibilidade de fazê-los navegar na Rede em aparelhos tão comuns atualmente, como os smartphones, era algo imaginado apenas por algumas poucas mentes visionárias. No Brasil, até mesmo a TV por assinatura ainda engatinhava. Era o tempo em que se zapeava por todo o espectro de canais com menos de dez toques no controle remoto.

De lá para cá, ocorreram evoluções e revoluções que transformaram a comunicação e, como não poderia deixar de ser, o mundo. A popularização da internet e dos celulares, a digitalização da informação e a convergência das mídias fizeram mais do que facilitar a comunicação e o fluxo de informações. Essas inovações criaram formas verdadeiramente novas de interação e de criação de conhecimento e provocaram mudanças profundas na relação entre produtores de mídia e seus consumidores.

A internet possibilitou aos indivíduos ter um papel ativo na comunicação, interagindo com o emissor e a mensagem em tempo real, reelaborando conteúdos e criando novos significados. Mais do que isso, com a multiplicação das câmeras, a simplificação das ferramentas de edição e o acesso a canais alternativos de veiculação, atualmente todas as pessoas são potenciais produtores e distribuidores de mídia. Diferentemente do que pensava Sócrates, as novas leituras e interpretações da mensagem original nem sempre devem ser temidas. Ao contrário, elas podem gerar novos conhecimentos.

O broadcasting, embora ainda relevante, passou a conviver com outro modelo de fluxo de informações, de muitos para muitos. Não há mais a necessidade de um grande conglomerado midiático veicular uma informação para que ela seja acessada por milhões de pessoas ou ganhe credibilidade. Cada novo meme¹ de sucesso espontâneo e inesperado comprova isso, bem como cada cobertura alternativa de acontecimentos, que revela fatos ignorados pelas mídias tradicionais.

aparelhos artigoInscrever o conhecimento na alma

Interconectados, hipertextuais, multitarefa... autênticos nativos digitais, as crianças e jovens de hoje, quando lhes dadas as oportunidades, transitam com desenvoltura por entre linguagens e meios, utilizando com facilidade os dispositivos e as tecnologias que desafiam os adultos, “imigrantes” recém chegados à Era da Informação. Essa dimensão digital do gap geracional configura novas dinâmicas tanto para as relações familiares quanto para o ambiente escolar

Se por um lado todas as possibilidades oferecidas pela internet, de produção, circulação e armazenamento da informação contribuem para a criatividade e a comunicação, principalmente das gerações mais novas, por outro resultam em um volume tal de dados que vai muito além da capacidade humana de absorvê-los e interpretá-los. Nessa biblioteca universal, em que informações relevantes estão ao lado de outras apócrifas, falsas ou, simplesmente, inúteis, o pensamento de Sócrates volta a valer: a transmissão do verdadeiro conhecimento requer a presença de quem o tem inscrito na alma.

Pais, responsáveis, professores e gestores precisam se adaptar ao fato de não serem mais os únicos protagonistas na formação de crianças e jovens, mas devem estar cientes de que continuam imprescindíveis nesse processo, como guias e parceiros de diálogo e reflexão. O excesso de informações promovido pela internet faz com que seja ainda mais importante sua ajuda na tarefa de selecionar e interpretar essas informações corretamente. Essa é uma etapa fundamental para a constituição de um conhecimento básico sólido, sobre cujos alicerces a inventividade de cada um estará livre para criar e recriar.

A quebra da linearidade

Por trás dessa nova configuração da transmissão do conhecimento, há uma profunda mudança na percepção do Universo pela humanidade. Como já dito, as primeiras teorias sobre os efeitos dos meios de comunicação de massa nas sociedades afirmavam que as informações seguiam um fluxo único, do emissor para o receptor. Para os tempos atuais, essa visão pode parecer ultrapassada e ingênua, mas reflete uma característica da cognição humana que prevaleceu durante séculos: a lógica linear.

Fruto, talvez, da própria percepção que os seres humanos têm do tempo cronológico e sua inescapável sequência passado-presente-futuro, a linearidade influencia a organização do raciocínio e é possível notar seus ecos nas mais distintas áreas: na relação causa-efeito, no método científico, na linha de produção do sistema industrial, na elaboração de um projeto de vida. Todos esses conceitos envolvem a noção de que fatos, ideias, objetos e experiências se sucedem e se acumulam como se ordenados em uma linha reta, de sentido único, que evolui para um objetivo.

Como não poderia deixar de ser, a linearidade também está presente na maneira como a humanidade concebe e transmite histórias. Durante muito tempo, as narrativas contadas, quaisquer que fossem seus conteúdos – desde os mitos de criação do mundo até um relato simples, e suas formas, oral, escrita, visual ou audiovisual – estiveram submetidas à lógica linear.

A partir do século XIX e, principalmente, durante o século XX, diferentes inovações permitiram a quebra dessa prevalência. No campo das artes, a técnica literária do fluxo de consciência e o movimento surrealista são exemplos de tentativas de expressar a forma por vezes aleatória e caótica com a qual se dá o pensamento. No campo científico, a rigidez do tempo cronológico foi colocada em xeque pela Teoria da Relatividade, de Einstein, e o estudo dos sonhos e do inconsciente, a linguística e a neurociência mostraram que a mente humana percorre muitos caminhos não lineares. Em paralelo ao surgimento desses novos saberes, a tecnologia fez com que a comunicação avançasse a ponto de transpor barreiras de tempo e de espaço antes tidas como insuperáveis.

A visão linear, que continua válida em muitas situações, passou a conviver com outra forma de organização das ideias, uma organização em rede, sistêmica, na qual saberes e experiências de diferentes áreas se cruzam constantemente, traçando possibilidades diversas de caminhos para um mesmo conhecimento e desbravando trilhas que levam a novas descobertas. Essa organização em rede é muito bem ilustrada pelos trilhões de conexões neuronais do cérebro humano.

Das narrativas lineares à transmídia

Aproveitando-se dessas inovações, alguns setores, como os de mídia e entretenimento, vêm explorando com cada vez mais intensidade recursos tecnológicos que lhes permitem oferecer, a seus públicos, novas experiências. Uma delas é a narrativa transmídia. Termo cunhado pelo pesquisador de mídia norte-americano Henry Jenkins, a narrativa transmídia é definida por ele como um processo no qual elementos de uma ficção são sistematicamente espalhados por diferentes canais de distribuição com o objetivo de criar uma experiência de entretenimento coordenada e unificada.

Star Wars, Matrix e Lost são exemplos de narrativas transmídias bem-sucedidas, já que utilizam cinema, livros, televisão, desenhos animados, histórias em quadrinho, vídeo games e internet para criar um universo ficcional muito mais amplo do que seria possível com o uso de apenas uma dessas mídias.

Apesar da estratégia já existir antes mesmo do advento das novas tecnologias de comunicação (a primeira trilogia de Star Wars, por exemplo, resultou em livros, no início da década de 1990, que davam sequência à história contada nos filmes) e de não haver dúvida de que ela seja utilizada pelas empresas com o objetivo de ampliar o público consumidor, o importante é analisar como e por que, atualmente, uma narrativa transmídia consegue despertar um interesse tão mais intenso sobre seus seguidores do que uma história em formato tradicional.

Em harmonia com o novo modelo de pensamento em rede e sistêmico, a narrativa transmidiática rompe com o antigo paradigma da linearidade em diversos aspectos e as novas mídias digitais contribuem muito para isso. Como seu próprio nome diz, essa narrativa não se limita a apenas um meio. Um livro não precisa ser apenas um livro, um filme não precisa ser apenas um filme. O universo criado se expande por diferentes mídias e cada uma delas é suporte para histórias independentes, ainda que relacionadas. E, embora possa haver um canal original ou outro que se torne mais popular, não é necessário existir uma hierarquia entre eles. As informações contidas em um curta-metragem divulgado na internet podem ser tão importantes para aquele universo quanto aquelas transmitidas em um filme campeão de bilheteria.

Essa multiplicidade de meios permite a quebra da linearidade temporal tanto dentro da ficção, na qual uma mídia pode contar eventos prévios, posteriores ou simultâneos àqueles mostrados em outra, quanto no mundo real. Isso acontece porque a imersão do usuário no universo ficcional pode se estender indefinidamente para além da duração do filme, do tempo de leitura da história em quadrinho ou das horas dedicadas à navegação em um site.

alunos artigoPor último, mas não menos importante, uma narrativa transmídia relativiza a relação linear entre autor e obra ao possibilitar que o público influencie seu desenvolvimento e contribua para seu enriquecimento de forma tão intensa a ponto de ele poder ser considerado um coautor da ficção. Já não são poucos os casos de produtos de entretenimento que foram retomados, mantidos, expandidos ou alterados por conta da mobilização do público e de desdobramentos criados exclusivamente por fãs, como as fan fictions – histórias escritas por aficionados de alguma produção. Alguns sites dedicados ao universo de Harry Potter, por exemplo, reúnem dezenas de milhares de fan fictions.

E é justamente a rede de fãs, dispersa geograficamente, mas conectada virtualmente, que, em grande parte, impulsiona e alimenta a narrativa transmídia. A troca de conhecimentos e as diferentes interpretações entre os seguidores geram um volume tão grande e tão fragmentado de informações que se torna impossível para qualquer um dominar todos os assuntos referentes àquela narrativa. Essa impossibilidade não gera frustração nos fãs. Ao contrário, estimula-os a se organizarem de maneira colaborativa para coletar e reunir o conhecimento disperso pelas mídias e pelas pessoas, a fim de entenderem melhor o universo ficcional.

Por uma educação transmidiática?

A construção bem-sucedida desse tipo de narrativa não é tarefa fácil, fato constatado pelas próprias empresas de mídia. Além disso, a educação e o entretenimento, embora possam e devam estar articulados, têm objetivos distintos, para os quais é preciso estar atento. Mas, implementar estratégias transmidiáticas no ambiente escolar com o objetivo de promover transformações tão grandes na área da educação quanto as que vêm sendo observadas na comunicação e no entretenimento, tem se mostrando um dos caminhos mais promissores para romper com a lógica linear e instalar uma visão sistêmica do conhecimento nas escolas.

Métodos que assumam e incentivem conceitos como múltiplas inteligências, colaborativismo e organização em rede, permeados pelo uso das mídias digitais, podem despertar nos alunos o mesmo ímpeto criativo e participativo demonstrado pelos fãs de narrativas transmídia. Com a diferença de que, em vez de estarem contribuindo para uma ficção, eles estarão protagonizando seus próprios processos de aprendizagem.

Um novo cenário de diálogo e descentralização do saber também beneficiará os professores, que encontrarão mais flexibilidade para empregar estratégias criativas e inovadoras no acompanhamento da trajetória de formação de seus alunos. Atuando assim, estarão recuperando até mesmo o sentido original da palavra educar. Do latim, ex ducere: guiar, conduzir para fora. Para fora de si mesmo, para fora de caminhos já conhecidos, para o mundo lá fora.

É nisso que a MultiRio acredita e é isso que a Empresa tenta promover ao fortalecer o vínculo entre cidade, educação e cultura, ao oferecer a alunos conteúdos curriculares em diferentes formatos e linguagens, ao capacitar professores para o uso de novas mídias e ao divulgar produções das escolas municipais do Rio, que conseguem aliar, com sucesso, ensino e mídias.
Incorporar iniciativas transmidiáticas a essas ações, a fim de despertar em crianças e adolescentes a sede pelo saber, é um desafio que a MultiRio se impõe de bom grado para os próximos anos. Tudo isso para, como acreditava Sócrates, inscrever o conhecimento em suas almas.

1. Ideia ou ação, sob a forma de frase, vídeo, foto ou link, que se espalha rapidamente pela internet via redes sociais, blogs e e-mails.

Ivan Kasahara é Jornalista. Assistente de Mídia e Educação da MultiRio.
Luiz Eduardo Ricon é Mestre em Educação pela PUC-Rio. Assessor de Mídia e Educação da MultiRio.

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