Processo Seletivo DAF 2021 12


26 Agosto 2014
 

logo ensaiosA questão da violência atravessa todos os segmentos da sociedade. Nas escolas do município do Rio de Janeiro, especificamente, inspira reflexões acerca das convivências e conflitos existentes. Considerando a impossibilidade de esgotar as discussões sobre o tema, muitas análises apostam na convicção de que o diálogo, a reflexão e o compromisso com a proteção à infância e à adolescência sustentam e mobilizam argumentos para novos modos de debater e de atuar nas situações que envolvem violência e escola.

Neste contexto, percebe-se que a definição de violência não é unívoca. Ao contrário, conduz a uma multiplicidade de sentidos, como alertam Debarbieux e Blaya (Violência nas Escolas: Dez Abordagens Europeias, 2002), em texto produzido para comparar pesquisas em países europeus, de forte tradição iluminista:

“Não pode haver conhecimento total sobre a violência – sobre a violência social na escola – porque tudo o que nos é possível é obter representações parciais dela, e temos que aceitar esse fato ou tornarmo-nos prisioneiros da fantasia de onisciência, que é tudo menos científica. Podemos aqui perceber uma primeira oportunidade de ir além das cisões e das divergências, mostrando que as diferenças de pontos de vista oferecem uma pluralidade de conhecimento e de representações.(p.20)”

Essa advertência provoca a necessidade de reconhecer um sentido plural de violência, ou mesmo de utilizar o termo violências como compreensão do fenômeno a partir de diferentes enfoques e perspectivas. Assim, ao se buscar suporte em diferentes textos, pesquisas e especialistas, depara-se com um universo variado de ideias e conceitos que aponta para múltiplas vias, motivando a reflexão, a elaboração de projetos, apresentação de propostas, avaliação e análise de casos, bem como a compreensão e o reconhecimento de que novas posturas precisam ser assumidas. (M. Abramovay, A.L. Cunha e P.P. Calaf, Revelando Tramas, Descobrindo Segredos: Violências e Convivência nas Escolas, 2009)

Desse modo, violências não podem ser entendidas, meramente, como causas ou efeitos, mas como questões, problemas, fatos contextualizados e circunstanciados na realidade individual e coletiva das sociedades.

As violências atravessam as relações sociais e são respostas oriundas de várias instâncias, sendo difícil determinar “de” e “para” onde são dirigidas. Por isso, afastar a noção de algoz e vítima é uma atitude prudente, uma vez que:

“Esses protagonistas são retirados do contexto, e nem o contexto socioeconômico nem o contexto da instituição escolar são levados em consideração. O perigo aí contido é que podemos ser induzidos à teoria de que o comportamento é determinado apenas por fatores individuais, sobre os quais a pessoa não exerce qualquer controle. A solução para o problema seria, portanto, fácil: isolar dos demais os elementos causadores de perturbação. Muitas vezes, o risco de patologizar os comportamentos desordeiros encontra-se presente, inocentando as instituições sociais da geração de violência.” (Debarbieux e Blaya, 2002: p.26)

Embora o uso dessa atribuição dos papéis de vítima/algoz seja muito frequente no acompanhamento das questões sobre as violências, certamente não é o mais adequado quando o espaço em questão é a escola. As narrativas dos profissionais que lidam diretamente com as violências na escola são um convite à reflexão-ação sobre modos perversos, intimidadores, ameaçadores de se constituir relações entre pessoas que circulam no cotidiano dessa instituição. Essas narrativas também alertam para a análise sobre atos repetitivos e a preocupação com a convivência e os conflitos comuns ao dia a dia da escola, bem como com a perigosa maneira silenciosa e passiva de lidar com a propagação da violência nesse espaço.

Desse modo, o debate sobre violências e escola impõe aos profissionais a formulação de análises criteriosas sobre as convivências e conflitos, e revela a presença de culturas, valores e conceitos que constroem um campo de forças em intensa interação e que não podem ser ignorados.

Reconhecemos, portanto, que é necessário discutir sobre o que é presente nas narrativas que circulam nas escolas, oferecendo novas possibilidades de reflexão e problematização sobre a intolerância com a diferença e sobre o preconceito, presentes nas relações sociais que cotidianamente se encontram no ambiente escolar.

Provocados por essa realidade, professores, assistentes sociais e psicólogos do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap) apostam na construção de um debate sobre convivências e conflitos na escola, o que, em parceria com a MultiRio, viabilizou a proposta da série de TV Ensaios sobre a Não Violência

*Katia Regina de Oliveira Rios Pereira Santos é Assistente II do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap)

 

Ensaios sobre a Não Violência é uma nova série, produzida pela MultiRio, que estreia no dia 4 de setembro. São cinco programas de 26 minutos. Tem consultoria do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares, roteiro de Ivan Kasahara e Ernesto Piccolo, e direção de Miguel Przewodowsky.

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