17 Abril 2017
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Um pai presente faz enorme diferença (Fonte: Progama P)

À semelhança de um bebê que dá seus primeiros passos, ainda trôpegos, uma revolução silenciosa está tomando forma há, pelo menos, duas gerações. São homens que, embora meio atrapalhados, se descobrem mais felizes diante da perspectiva de participar do cuidado diário dos filhos. A quebra do paradigma de provedor do lar reforça a emancipação masculina, que vai atuando no nível dos sentimentos e apresentando novos padrões, pouco a pouco internalizados. Na atualidade, por meio das redes sociais, relatos permitem aos marinheiros de primeira viagem compartilhar as descobertas e emoções de sua montanha-russa cotidiana.
Mas, em 2015, o lançamento de um relatório pela Campanha Internacional de Paternidade MenCare, presente em mais de 40 países, sinalizou que esse movimento vem acontecendo realmente em escala global. O Brasil participou das pesquisas que geraram A Situação da Paternidade no Mundo: Resumo e Recomendações (State of the World’s Fathers, ou SOWF), graças à contribuição do Instituto Promundo, que, em agosto de 2016, publicou um segundo documento chamado A Situação da Paternidade e Cuidado no Brasil. De acordo com os especialistas, o exercício da paternidade cuidadora permite tratar, indiretamente, de problemas sociais mais graves, como a violência doméstica ou o trabalho infantil.

Novas masculinidades

Uma sociedade reconhecida pela vanguarda é a sueca, que já nos anos 1970 discutia o assunto. “Há relatos de homens de lá que dizem: ‘meu pai teve licença paternidade. Mas só hoje, aposentado, ele foi aprender a trocar a fralda do meu filho’”, conta Milena do Carmo, coordenadora da Área de Paternidade e Cuidado do Promundo. Enquanto na Suécia o governo considera que o pai precisa ficar em casa durante os três primeiros meses da vida do bebê, no Brasil, por enquanto, a lei autoriza apenas cinco dias. “A partir do Marco Legal Pela Primeira Infância, esse tempo pode se estender por até 20 dias, caso o empregador seja cadastrado no Programa Empresa Cidadã, do Ministério da Fazenda”, explica Milena.

programap250A socióloga considera muito importante ouvir o que pensam esses “atores” – pais blogueiros ou que têm um canal no YouTube – e o que contam sobre seu desempenho, antes, durante e depois da licença. Multimídia, amor de pai na web pode virar foto, texto, vídeo e até desenho: depois do nascimento dos filhos, quase na mesma época, os cartunistas Victor Farat e Rodrigo Bueno produziram tamanha quantidade de material que decidiram transformar tudo no livro Bebegrafia. “Acredito que a gente precisa de exemplos. Começamos a perceber que os homens também querem estar envolvidos. No nível macro, acaba se formando uma rede. No Rio de Janeiro, desde 2002 existe uma iniciativa que começou com uma semana e que, posteriormente, se transformou em Mês da Valorização da Paternidade, promovido em toda rede pública de saúde”, diz Milena, fazendo referência ao evento instituído pelo Comitê Vida, um grupo de trabalho intersetorial que integra diversas instituições.

Por meio dessas iniciativas, aumenta o cuidado com os filhos, com a família e, também, o autocuidado. Paternidade significa tanto para a vida masculina que se tornou um dos cinco eixos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). Estatisticamente, em algum momento de suas vidas, 80% dos homens no mundo serão pais biológicos. No entanto, quando se fala de paternidade, pai pode ser também um padrasto ou qualquer outro parente do sexo masculino que tenha um papel significante na vida da criança. De acordo com a campanha MenCare, é preciso despertar a atenção para o assunto, divulgando toda a informação acumulada até então. Por isso, lançou, em 2014, o Programa P: Manual Para o Exercício da Paternidade e do Cuidado, um trabalho conjunto que teve, também, o apoio do Instituto Promundo, da Cultura Salud/EME, da REDMAS e do Instituo Noos. Originalmente em inglês e espanhol, no ano seguinte o guia já estava disponível para download na versão em português.

Uma nova vida e seus pequenos milagres

Os avanços científicos têm contribuído muito para alargar a compreensão sobre a paternidade cuidadora. Diz o relatório SOWF: “Pesquisas recentes demonstram que os corpos dos homens também respondem com mudanças hormonais ao contato físico com seus filhos e filhas. (...) Quando eles seguram seus/suas bebês no colo, os níveis de oxitocina e prolactina aumentam, assim como os de testosterona diminuem, dependendo da duração e intensidade do contato. Esses hormônios são análogos aos liberados pelas mulheres quando amamentam. (...) Essas alterações hormonais ocorrem minutos após os pais segurarem seus filhos ou filhas no colo depois do nascimento. Outras pesquisas revelam que as mudanças na atividade do córtex cerebral pré-frontal nos pais de primeira viagem são virtualmente idênticas às das mães.” Assim, não é exagero dizer que tanto homens quanto mulheres são biologicamente propensos para cuidar de criança. “Eles relatam que são mais felizes e que as uniões duram mais. Além de uma transformação biológica, o nascimento afeta a cultura. Mudando o padrão social de gênero, você torna normal que os homens também sejam cuidadores”, lembra Milena.

O primeiro mês é especialmente marcante, como muito bem ilustrado no livro Bebegrafia

Quanto ao bebê, existem evidências de que o cuidado paterno favorece o desenvolvimento cognitivo e emocional. Já se sabe, inclusive, que a figura paterna tem importância distinta para meninos e meninas. Homens que se envolvem na divisão de tarefas domésticas e no cuidado com as crianças contribuem para que os meninos sejam mais equitativos quanto à questão de gênero e para que repitam esse tipo de comportamento na vida adulta. Por outro lado, aqueles que testemunham violência doméstica contra a mulher apresentam disposição para reproduzir o padrão na vida adulta. No caso das meninas, o contato próximo com o pai assegura um sentido maior de autonomia e de autoestima. Em outras palavras, o envolvimento paterno pode prevenir problemas de comportamento nos meninos e problemas psicológicos nas meninas.

Quando o pai está envolvido ou demonstra interesse na vida escolar, as crianças apresentam, comprovadamente, melhor desempenho e são mais propensas a completar os estudos. Não apenas na primeira infância, mas também na adolescência e na vida adulta, a presença paterna é fundamental. Quanto mais cedo ela começar, de preferência antes do nascimento, melhor. “Uma boa forma de prevenção do abandono paterno é envolver o homem desde o início. Durante o pré-natal, perguntar: cadê o pai? Dizer que ele é bem-vindo ali. Por isso, é preciso sensibilizar os profissionais que trabalham com a gestante neste sentido”, lembra Milena. “O zelo do pai é uma forma de cuidado distinta da materna, que deixa a pessoa mais preparada para a sociedade lá fora. Os dados do relatório apontam que todo mundo sai ganhando: a mulher se sente melhor no puerpério, consegue aumentar o tempo de amamentação e tem ajuda para construir sua nova rotina. Após a licença paternidade, aumenta a produtividade do homem no retorno à atividade laboral e diminui o número de demissões, havendo um ganho geral também para a empresa”.

Nasce um novo homem

As consequências para os filhos de pais ausentes – tanto os que não vivem com suas crianças quanto os que moram na mesma casa mas têm outros interesses – são desastrosas. “A criança vai formando a personalidade pelo contato com a televisão, com o Facebook, com quem cuida na escola, e muitas vezes é socializada num ambiente de violência e de desatenção. É grande a probabilidade de que venha a se tornar um adulto inseguro, com menos autoestima e autoaceitação”, garante a socióloga. Contrariando aquilo em que a maioria das pessoas acredita, a quantidade de tempo que pais e filhos passam juntos conta bastante. “Criança não quer qualidade, ela quer quantidade. Ela quer pai e mãe perto o tempo inteiro, para poder contar como foi o dia na escola, mas isso acaba recaindo mais sobre a mãe. Até os bilhetes da escola ainda são dirigidos à mãe, o que demonstra que o cuidado com os filhos, assim como a faxina, ainda é visto como uma tarefa da mulher. Para permitir uma revisão desses papeis sociais, o material didático tem uma contribuição fundamental”, ressalta Milena.

Mas, como incentivar a paternidade cuidadora, se a licença paternidade, determinada pela Constituição de 1988, espera há mais de 25 anos pela sua regulamentação? Se a Lei do Acompanhante, que garante a presença do pai na hora do parto, há uma década vem sendo desrespeitada? Na mesma perspectiva de descaso, a guarda compartilhada entre os pais de filhos menores de idade, embora contemplada na Lei do Divórcio, há 40 anos, só passou a ser regra recentemente – a partir da Lei no. 13.058 de 2014. Ainda bem que, no âmbito jurídico, outros modestos avanços têm surgido. O artigo 37 do Marco Legal, por exemplo, que foi aprovado pela Presidência da República no ano passado, depois de dois anos de discussão no Congresso Nacional, confere ao pai o direito de ter até dois dias livres para acompanhar consultas médicas e exames complementares durante a gravidez da esposa ou companheira, e um dia por ano para levar seu filho de até seis anos a uma consulta médica. Então, o mundo muda porque o homem muda – ou seria o contrário?

“Cuidar de uma criança afeta a forma com que o homem se relaciona com o mundo. Ele melhora a habilidade de escuta, a capacidade de dar atenção, e passa por um abrandamento, se tornando menos hostil e impaciente. Passa até a dirigir com mais cuidado!”, brinca Milena. Ela ainda cita dois entusiastas do novo modelo de paternidade: Thiago Queiróz, pai do Dante e do Gael, que mantém no YouTube o canal Paizinho, Vírgula!, e Fabricio Escandiuzzi, pai da Luísa, e autor do blog Diário do Papai. Nem precisa navegar muito nessas páginas para se convencer de que já é hora de atualizar o poema Ser Mãe, do imortal Coelho Neto, lembrando que não só as mães padecem no paraíso. Pais também...

Fontes:

Entrevista com Milena do Carmo, do Instituto Promundo

A Situação da Paternidade no Mundo: Resumo e Recomendações. MenCare, 2015.

A Situação da Paternidade e Cuidado no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Promundo, 2016.

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