01 Novembro 2017
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Acervo do Museu da Imagem e do Som

O violão é o instrumento que acompanhou o surgimento da música popular brasileira por excelência. Foi dedilhando suas cordas, nas rodas de choro, que os bambas cariocas compuseram as primeiras canções de uma música urbana tipicamente nossa, ainda na segunda metade do século XIX. Seguindo a tradição, um dos melhores violonistas de todos os tempos, no mundo, chama-se Baden Powell, que faria 80 anos em 2017.

Apesar do nome de origem inglesa (seu pai era fã do fundador do escotismo), Baden Powell nasceu em Varre-Sai, no norte do estado do Rio de Janeiro, mas, ainda bebê, veio com a família para a capital e foi criado no bairro de São Cristóvão. O pai, sapateiro, amava tocar violino. A casa era com frequência palco de rodas de choro, frequentadas por Pixinguinha e Donga. Mas a herança musical de Baden ia além: seu avô paterno foi maestro fundador da Orchestra Negra, formada por escravos, que chegou a se apresentar no Theatro Municipal, na capital fluminense.

O menino ganhou seu primeiro violão aos 8 anos e, depois das primeiras lições com Tic, apelido de seu pai, foi aluno do músico Meira por cinco anos. Violonista consagrado, Meira tocava com artistas como Noel Rosa e Carmen Miranda. Baden estudou também na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro, onde conheceu a obra de compositores eruditos como Bach, Paganini, Chopin, além de aprender teoria musical e harmonia. Aos 15 anos, começou a trabalhar em casas noturnas na Lapa e, no ano seguinte, na Zona Sul.

Em 1960, aos 23 anos, conheceu o poeta Vinicius de Moraes, talvez o parceiro com quem tenha composto mais intensamente. Juntos, eles criaram os afrosambas, verdadeiras joias da música. São canções como Berimbau (Quem é homem de bem não trai / O amor que lhe quer seu bem / Quem diz muito que vai não vai / Assim como não vai, não vem) e Canto de Ossanha (O homem que diz "dou" não dá / Porque quem dá mesmo não diz / O homem que diz "vou" não vai / Porque quando foi já não quis / O homem que diz "sou" não é / Porque quem é mesmo é "não sou" / O homem que diz "estou" não está / Porque ninguém está quando quer), que sintetizam lírica e sofisticadamente heranças africanas do povo brasileiro.

Roberto Antunes, coordenador de História da SME, diz que “a capoeira, um dos maiores símbolos de resistência e afirmação da identidade do povo negro no Brasil, foi tema de afrosambas da dupla Baden-Vinicius, assim como o candomblé, o berimbau e os orixás. Vinicius se dizia o branco mais preto do Brasil e isso dava prestígio à cultura afro em uma determinada parte da elite com ranços profundamente racistas. Essas manifestações e tradições culturais mantêm viva a força da história e da cultura africana”.

Vinicius de Moraes – que, entre tantas outras especializações, estudou poesia em Oxford, na Inglaterra – ficou impressionado com o talento de Baden. O crítico Tárik de Souza descreveu Baden como “o maior violão do planeta”, no livro 300 discos importantes da música brasileira. Já Ruy Castro, que escreveu sobre o violonista para a Coleção Folha 50 Anos de Bossa Nova, disse que ele era “capaz de jogar Bach, Chopin e Debussy no samba e produzir uma terceira força que até então ninguém explorara”.

Seu talento foi reconhecido por muita gente, dentro e fora do Brasil. A atriz alemã Marlene Dietrich fez questão que ele a acompanhasse no palco do Copacabana Palace, em 1960, e o pianista norte-americano Thelonius Monk viajou em turnê com o brasileiro pelo Japão, em 1970. Baden gravou diversos discos e vendeu muito bem em países europeus, como a França e a Alemanha, locais em que morou.

Ao longo de seus 63 anos de vida e 62 discos, casou-se cinco vezes. Com Sílvia Eugênia de Souza, teve dois filhos: Phillippe Baden Powell e Louis-Marcel Powell.

Ouça os afrosambas

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