09 Janeiro 2018
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Pierre Verger, Autorretrato (detalhe), Salvador, anos 1940

O fotógrafo francês Pierre Verger viajou por cinco continentes até se fixar, em 1946, no Brasil, na cidade de Salvador: “um dos poucos lugares do mundo onde há a possibilidade de se viver sobre o mesmo plano amistoso, com pessoas de origem étnica diferente", segundo ele. Aos 51 anos, tornou-se babalaô (iniciado no Ifá, culto de adivinhação da religião iorubá) em Daomé, na África e, aos 64 anos, recebeu o título de doutor pela Universidade Sorbonne, em Paris, por sua tese sobre o tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia, entre os séculos XVII e XIX. Atualmente, a fundação que leva seu nome conserva e divulga sua obra: 62 mil fotos, biblioteca e arquivo pessoal.

 Angela Lühning, diretora-secretária da Fundação Pierre Verger, em Salvador, diz que “o fato de ele ter tratado de temas que se mantêm importantes, como cultura afro-brasileira em geral, diversidade cultural brasileira, culturas populares e do interior, diversidade religiosa e relações entre Brasil e África, com extensos estudos na área de História, contribui para sua relevância hoje, também entre pessoas mais novas. Além disso, podemos observar valores humanos em seus escritos e na condução de sua vida e obra”.

Pierre Verger nasceu em 1902, em uma rica família parisiense. Nunca aceitou os padrões impostos pelo pai e, para afastar-se da influência familiar, começou a viajar. Em entrevista a Véronique Mortaigne, do jornal francês Le Monde, disse: “Aos domingos, eu podia chamar meus colegas de Liceu que pertenciam às famílias abastadas, mas não os que pertenciam às mais modestas, o que me desagradava, porque achava os primeiros pretensiosos e os segundos mais simples e simpáticos”.

Verger admirava a Revolução Russa e viajou para a Rússia em 1932, aos 30 anos. Passou os 14 anos seguintes viajando ao redor do mundo, mantendo-se financeiramente com as fotos que fazia, com sua Rolleiflex, para jornais, revistas, agências e centros de pesquisa. Ele próprio fundou uma agência fotográfica – a Alliance Photo, que junto com outras, como a Magnum, difundiu um novo jeito de retratar o homem em seu contexto, minimizando a interferência do fotógrafo na cena. Paris era uma base, para onde voltava a fim de rever amigos e fazer contatos visando suas novas viagens.

Em Salvador

O fotógrafo chegou à Bahia em 1946. Logo conseguiu um contrato com a revista O Cruzeiro. Além disso, obteve uma bolsa de estudos do Instituto Francês da África Negra (Ifan) para pesquisar a origem dos cultos africanos trazidos ao Brasil com os escravos. Devido a essa bolsa de estudos, começou a escrever, além de fotografar, pois era uma exigência da instituição.

 

Xangô, Ifanhin, Benin, Anos 1950

Em 1954, publicou o livro Dieux d´Afrique, com fotografias dos deuses incorporados e descrições sobre cada orixá, seu ritual e suas atribuições. Nos anos seguintes, lançou dezenas de livros e artigos sobre o fluxo e o refluxo da cultura negra entre a África e o Brasil.

Lecionou na UFBA em 1973, ajudando a fundar o Museu Afro-Brasileiro (atualmente, com página na internet e no Facebook), e também na Universidade de Ifé, na Nigéria, em 1977.

Na década de 1980, seu trabalho tornou-se mais conhecido com exposições no Masp e no Museu de Arte da Bahia e em 1992, foi homenageado ao completar 90 anos, com a mostra Brasil África Brasil, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Pierre Verger por ele mesmo

Verger concedeu muitas entrevistas a pesquisadores e jornalistas, especialmente no fim da vida. Em uma delas, para Véronique Mortaigne, do Le Monde, falou sobre a importância da fotografia em sua vida: “Ela me seduz por sua capacidade de fixar o que é fugidio; de tornar perceptível e permanente o que desapareceria”.

Já Maria José Quadros, de O Globo, perguntou se a Bahia o tratava mal, porque apesar de seu trabalho ser reconhecido internacionalmente, ele vivia em “pobreza quase absoluta”. O fotógrafo respondeu: “Não vejo isso; pelo contrário. Não acho que viva mal. Tenho liberdade para fazer o que quero, comida, roupa e uma cama para dormir. Querer possuir mais do que isso é estupidez”.

 

Capoeira, Salvador, Brasil, 1946 - 1948

Para uma jornalista francesa, esclareceu por que morava em Salvador e não em uma cidade africana: “Na África, eu me sinto um branco vivendo entre negros, mesmo com os sentimentos recíprocos de amizade e estima. No Brasil, e na Bahia, em particular, a questão racial não é desse modo. Há uma mistura de raças, gradativa e progressiva, que torna difícil determinar quem é branco e quem é negro. Não existe um bairro somente de negros na Bahia.”

Sala de aula

Professores podem se perguntar como usar o legado de Pierre Verger com seus alunos.

Angela Lühning conta que “Fotografando Verger (Cia. das Letrinhas, 2011) pode ser um ponto de partida. Tentamos pensar em uma aproximação entre Verger e o público infantojuvenil, usando uma linguagem específica. Neste livro contamos sua trajetória, ressaltando seu espírito livre, sua independência e busca pelo novo, uma visão não preconcebida do mundo, aberta para o diferente, sem medo de descobri-lo, mensagens importantes em um mundo sempre mais xenófobo, ultranacionalista e inclinado a cultivar preconceitos em vez de valores de cordialidade, colaboração e amizade.

Assim, conhecer Verger e sua obra a partir dessas perspectivas é algo importante e possível. Há outros livros com fotos dele, organizados por terceiros, que podem ser usados como base para uma discussão sobre esses temas, inspirada tanto em sua trajetória pessoal quanto em suas fotografias. Nós também produzimos publicações com alunos do Espaço Cultural Pierre Verger que dialogam com assuntos específicos abordados por ele, tais como a capoeira ou tradições afro-brasileiras em geral. Logo, escolas, em geral, podem debruçar-se sobre esses mesmos temas, usando fotos ou outros materiais referentes à trajetória de Verger. A instituição sempre está aberta a diálogos nesse sentido”.

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