02 Janeiro 2018
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Bernardete Gatti, uma vida dedicada à pesquisa sobre a formação docente (Fonte: Arquivo CEE-SP)

A Educação é um dos principais instrumentos para a promoção da justiça social. Além disso, quanto melhor a educação dos brasileiros, mais capacitada a força de trabalho nacional e maior a competitividade econômica do país no mundo globalizado. Embora haja unanimidade sobre a importância da figura do professor no nível dos discursos, na prática não são muitas pessoas que conhecem a fundo o panorama da nossa formação docente. Uma exceção à regra é Bernardete Gatti, pesquisadora-consultora da Fundação Carlos Chagas, que desde os anos 1960 mergulhou nos estudos da área e conversou sobre o assunto com o Portal MultiRio.

 

Portal MultiRio – Por que é tão grande a distância entre o que se estuda na universidade e a realidade do profissional, quando ele chega ao ambiente escolar?

Bernardete Gatti – Nós temos no Brasil uma tradição cultural muito bacharelesca. Isso vem com a nossa história, e leva a um distanciamento do que há no mundo do trabalho. As licenciaturas pensam mais no bacharel do que no professor. O distanciamento entre a universidade e a escola se tornou grande. A forma como as universidades selecionam seus professores também não leva em consideração sua vivência em sala de aula, o que conta é a vida de pesquisador, o mestrado e o doutorado. Muitos desses professores não tiveram experiência na escola. No caso de história ou de filosofia da Educação, realmente os professores vão por outros caminhos. Mas em didática ou metodologia seria necessário que a experiência fosse computada para a seleção de docentes. Nossos currículos raramente foram discutidos. Na verdade, não vi nenhuma discussão nesses últimos 25 anos. O que se repete sempre são discussões genéricas, pouquíssimas com aproximação do objeto ‘sala de aula’. A partir de 2011, no entanto, esta questão foi posta pelo MEC (Ministério da Educação). No Conselho Nacional de Educação se aprovou, em 1º de julho de 2015, a Resolução nº 2, que entra em vigor a partir de julho de 2018. Nela se estabelece uma base nacional comum para a formação de professores, e que a preocupação com a escola deve ocupar 20% do curso de formação, com disciplinas voltadas para didática, prática de ensino e metodologia. Também traz a recomendação para que a formação de professores esteja intrinsicamente ligada ao trabalho das escolas. Pensar a escola, agora, vai ser sinônimo de ‘atuação nas escolas’. O mais incrível é que não tenha sido sempre assim...

PM – Os cursos de formação de professores são assim tão díspares entre si – das universidades públicas para as particulares, ou do ensino presencial para a Educação a Distância (EaD)?

BG – Existem, sim, algumas diferenças. A universidade pública dá um curso em quatro anos, enquanto a particular, em dois anos e meio ou três, com uma formação mais genérica, portanto. Deveria haver mais equilíbrio, em lugar do foco único na formação do conhecimento na área. Quanto à diferença entre ensino presencial e EaD, não vejo muita, porque, até agora, a EaD tem mimetizado a sala de aula. Ela merecia uma atenção maior, porque ainda não se criou uma metodologia realmente alternativa, com ferramentas de maior inovação.

PM – Existem políticas públicas realmente eficazes de incentivo à carreira de professor?

BG – Com a publicação da Lei do Piso Salarial, houve um esforço do Governo Federal no sentido de orientar estados e municípios em relação à progressão de mérito. Só que a implantação depende de financiamento, porque, sem contar a crise econômica dos últimos quatro anos, a legislação fiscal por si já prejudica os municípios. O que pesa é que a carreira, da forma como está estruturada, não é atraente para o desenvolvimento profissional, nem ligada a uma formação continuada coerente. O grande problema está na questão da hora-aula. Muitos professores têm poucas aulas e, com isso, o salário deles, necessariamente, será baixo. É bem diferente a situação de um professor de Sociologia e a de um professor de Língua Portuguesa, que tem horário pleno. Não dá para discutir essa questão independentemente de como o professor está alocado na escola. A educação integral, no entanto, permite o melhor aproveitamento do professor na escola, em projetos conjuntos. Há bons exemplos nos estados de São Paulo e de Pernambuco, em que o professor passa mais tempo na escola, levando a uma equalização do salário. Mas é preciso fazer essa discussão dentro dos parâmetros reais.

PM – Como a senhora avalia a proposta de implantação da chamada residência pedagógica?

BG – Ainda não vi as propostas – existem cinco ou seis projetos no Senado. Também não sei o que virá do MEC. A ideia é boa. Mas ainda não há consenso sobre como será feito – tem gente que entende que durante o curso, tem gente que entende que depois do curso. É preciso esclarecer. Na Unifesp Guarulhos (Universidade Federal de São Paulo) já existe a residência pedagógica durante o curso. O aluno de graduação passa um mês em uma escola. A atividade é discutida entre dois professores – um da universidade e outro da escola. É uma proposta que se aproxima do Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

PM – O que não pode faltar a um bom professor?

BG – Ele precisa conhecer a matéria dele e saber aliar esse conhecimento ao conhecimento pedagógico adequado ao aluno, processo que leva em consideração tanto a idade quanto a realidade social. A forma como ele faz essa relação pedagógica é o principal, sabendo criar situações de aprendizagem.

PM – Por que, na configuração brasileira, a escola é menos autônoma para se autodeterminar e decidir seus rumos, se comparada, por exemplo, ao modelo finlandês?

BG – Há alguns lugares no Brasil onde já existe essa flexibilidade. Mas, em geral, os diretores e coordenadores têm dificuldade de assumir a autonomia quando ela é dada, o que, por sinal, é muito raro. Nós não preparamos os professores e os gestores para assumir essa autodeterminação porque temos essa herança centralizadora e autoritária. Fomos colônia, império, república de generais e marechais, passamos pela ditadura Vargas e, depois de um período curto de democracia, veio uma ditadura militar. Embora um sistema público de Educação necessite de um certo grau de centralização, a escola pública deveria ter mais autonomia, o que faz parte do espírito democrático. Precisamos sair da mera falação para ter ações verdadeiramente democráticas. Hoje a escola precisa recorrer a uma autoridade central até para trocar uma lâmpada.

PM – Faz sentido insistir no conteudismo em plena sociedade da informação, quando as tendências apostam, cada vez mais, no desenvolvimento de habilidades e competências?

BG – Acho isso tudo uma bobagem. Não existe habilidade nem competência sem conteúdo, sem conhecimentos. O professor é aquele que mostra de que forma o conhecimento abstrato se transforma na capacidade de resolver questões. A formação docente tem que mudar, permitindo que o professor trabalhe em relação à realidade sempre que possível, sabendo mostrar ao aluno que, por mais abstrato que pareça, aquele conhecimento tem um sentido para a vida social e um significado para a vida humana.

PM – A senhora faria alguma ressalva ao modelo atual de admissão de professores por concurso público?

BG – O concurso público é obrigatório por lei no Brasil. Sou favorável como uma primeira etapa. O Estado tem o direito de saber, minimamente, se o candidato domina alguns conhecimentos necessários. Além disso, existe o estágio probatório, que deveria ser utilizado para implantar um modelo de formação continuada com avaliação. O concurso seria, apenas, o ponto de partida. O ideal seria haver uma comissão que pudesse fazer uma segunda avaliação sobre o trabalho do docente. Em São Paulo, para o cargo de diretor, já há legislação sobre isso. É oferecido um curso semipresencial de três anos durante o período probatório, isso foi proposto pelo Sindicato dos Diretores. Assim, é possível adquirir conhecimento e prática. Creio que o método poderia ser aplicado também aos professores.

PM – O que pode ser feito para reforçar a noção de que o trabalho do professor não é isolado, mas coletivo?

BG – É um problema da formação dos gestores e dos coordenadores pedagógicos, a quem cabe esta tarefa. A Lei do Piso Salarial determina que um terço das horas de trabalho do professor deve ser usado para formação – em discussões, trabalhos e projetos coletivos. Se isso fosse respeitado, teríamos maiores possibilidades de criar um espírito de corpo. Mas falta liderança. O professor que tem pouca carga horária naturalmente se divide entre duas ou três escolas, se tornando mais difícil de integrar. É preciso que haja coordenadores pedagógicos mais bem formados e com condição de fazer esse trabalho. Por outro lado, estamos assistindo esse processo acontecer no Brasil inteiro, justamente nas escolas de ensino integral, em que os professores têm tempo para participar de reuniões e fazer atendimento aos alunos, além de ensinar.

PM – Saberia dizer qual o déficit numérico de professores no Ensino Fundamental da rede pública de ensino?

BG – Esse é um cálculo bem variável. Há estudos para os quais não faltam licenciados em Pedagogia. No entanto, sabemos que temos falta de professores de Língua Portuguesa e de Matemática, por exemplo. Há estimativas que falam em demanda de 400 mil professores num curto prazo, principalmente por causa de futuras aposentadorias, enquanto outras falam de 210 mil. Tem também a questão dos alfabetizadores. 

PM – Dá para ser otimista a respeito da formação de professores no Brasil de hoje?

BG – Dá sim. De seis ou sete anos para cá isso vem mudando. Até então, vínhamos caminhando numa repetição. Mas, até 2020, teremos muitas mudanças positivas, eu acredito.

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