16 Abril 2018
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Kalapalo, animação produzida em 2015 (Imagem: Reprodução)

Como abordar a história e a cultura indígena livrando-se de estereótipos, de olhares preconceituosos e de um calendário de efemérides? Esse ainda parece ser um grande desafio para muitos professores, mas algumas iniciativas mostram que há caminhos possíveis. Daniele Rodrigues, coordenadora pedagógica do Ciep Poeta Cruz e Sousa, em Realengo (8ª CRE), desenvolve um projeto que dá luz ao tema e voz aos indígenas, desassociando esses povos de uma ideia de passado e valorizando sua diversidade. 

Desde 2012, ela produziu junto com os alunos seis animações retratando os costumes de diferentes etnias, a partir de pesquisas de campo que colocaram os estudantes em contato direto com grupos indígenas.

“Apesar de existir uma legislação que torna obrigatória a abordagem desses conteúdos, ainda há carência de debate nas escolas e muitos professores não sabem como trabalhar o tema. A proposta da escola é eurocêntrica – ignoramos nossa construção social”, comenta Daniele, referindo-se à Lei Nº 11.645, de 2008, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade de conteúdos relacionados à história e à cultura de povos indígenas brasileiros, além da afro-brasileira (já prevista na Lei Nº 10.639, de 2003). A coordenadora pedagógica, inclusive, esteve envolvida em debates e encontros sobre a formulação da Lei Nº 11.645.

Em 2012, participou da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). A programação incluiu o Simpósio Séculos Indígenas no Brasil, ministrado por palestrantes de diferentes etnias, como Ailton Krenak, ambientalista e escritor, considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro e cuja fala provocou a professora.

“Em sua palestra, Ailton falou que a carência de representantes indígenas em reuniões e eventos se dava não apenas porque eles eram poucos, mas pela dificuldade, muitas vezes, de deslocamento e acesso a espaços urbanos. Então, comecei a pensar em como multiplicar a voz desses povos e atingir mais pessoas. Vi na pesquisa de campo e na animação formas de dar voz aos indígenas por meio das crianças da rede pública”, conta Daniele, que, no ano anterior, havia concluído um curso oferecido em parceria com o Anima Escola.

A professora também participou das mobilizações em defesa da Aldeia Maracanã e, em 2015, passou uma temporada no Parque Indígena do Xingu. Há quatro anos estuda a língua guarani, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Hoje, orgulha-se de, ao longo da vida, ter conquistado amigos de 36 etnias.

“Mesmo oprimidos, os indígenas são sobreviventes e têm um modo de vida de resistência. Passei temporadas em aldeias e aprendi que existe uma ciência paralela riquíssima: medicina, organização social, astronomia. Poderíamos aproveitar esse conhecimento, mas, em geral, os brasileiros não têm interesse. É mais comum que pesquisadores de fora invistam nisso. E, aí, os indígenas são criticados por ‘só falarem com estrangeiros’”, analisa.

Animações são exibidas em festivais no exterior

Desde o início do projeto na escola, as animações produzidas pelo Ciep Poeta Cruz e Sousa, onde Daniele atua há 16 anos, abordam a temática indígena. A cada ano, uma etnia é retratada, com o objetivo de destacar a diversidade desses povos. 

Asurini, de 2016 (Imagem: Reprodução)

“Certa vez, um professor me perguntou quando eu abordaria a temática afro-brasileira nas animações. Mas, segundo o IBGE, existem 305 povos indígenas no país. Então, vai demorar, né?”, brinca Daniele.

Os vídeos Tukano (2012), Apurinã (2013), Guarani M´byá (2014), Kalapalo (2015) e Asurini (2016) podem ser acessados no canal AnimeNativo, criado por Daniele. Pataxó, filme de 2017, ainda não foi disponibilizado, por estar sendo exibido em festivais.

As produções integram o acervo do Museu do Índio e já foram exibidas em diversos festivais, inclusive no exterior, em países como Chile, Croácia, Nepal e Estados Unidos.

Como é desenvolvido o projeto 

Exposição montada pela professora na escola reúne objetos e livros relacionados à cultura indígena (Foto: Alberto Jacob Filho)

A cada ano, um grupo de cinco a dez alunos participa da produção das animações, cuja primeira etapa é uma pesquisa de campo, em que eles têm contato com representantes indígenas. Os grupos já fizeram visitas a uma aldeia Guarani em Maricá; a contêineres instalados em uma área verde da região de Jacarepaguá, onde estão alojados, de maneira improvisada, alguns indígenas; e a outros lugares adaptados para receber as crianças, como um no Parque Lage (no bairro Jardim Botânico) que reproduz uma habitação indígena. Nesses locais, foram realizadas ambientações com dança, comidas, objetos e outros elementos da história e da cultura indígena.

 A participação e o apoio dos familiares dos alunos impressiona a professora. “Ao longo dos anos, trabalhei com 35 famílias. E há sempre um resgate de identidade muito bonito. Eles vêm contar, entusiasmados, sobre antepassados de origem indígena”, orgulha-se.

Em seguida, os alunos montam o roteiro e iniciam o processo de animação, auxiliados por Daniele. Depois de o filme finalizado, são treinados pela professora para ministrar palestras às 15 turmas da escola (da Educação Infantil ao 5º ano). Na ocasião, não apenas apresentam a produção, mas falam sobre os povos pesquisados, contextualizando o momento dos indígenas. “A abordagem é a mesma para todos os anos de escolaridade. E é encantadora a participação da Educação Infantil!”, diz Daniele.

“Dia do Índio”, preconceito e resistência na abordagem da cultura indígena

As apresentações dos alunos costumam ser realizadas entre março e abril do ano seguinte à produção da animação, em vista da proximidade das comemorações questionáveis, mas ainda frequentes, do “Dia do Índio”

A professora Daniele Rodrigues com o grupo de alunos responsável pela animação mais recente, Pataxó: Matheus Maciel, Thayane de Lima, Victória Mendes, Rosa Henriques, Sofhia Vieira e Lohaine de Lima (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Eu levaria esse conteúdo aos alunos durante todo o ano, mas cada professor tem seu planejamento e nem todos veem esse tema como algo tão importante. Então, a época em que costumam me pedir ajuda e sugestões de atividades é abril”, explica Daniele, ressaltando que ainda há resistência em abordar o tema nas escolas.
“Esse projeto mesmo não foi abraçado de início aqui. Tive dificuldades. Só quando houve reconhecimento de fora passaram a valorizar. Já ouvi dizerem que sou ‘a índia branca’, que ‘trato de coisa atrasada’...”. 

A pedagoga ainda destaca a influência dos meios de comunicação nessa abordagem. “A mídia fala como se os indígenas não existissem. Ninguém toca nesse assunto e é proposital. Muitos donos das mídias são donos de terras. E os meios de comunicação, sobretudo a televisão, exercem uma grande influência nas pessoas. Ou seja, para elas, eu estou trazendo à escola o que não existe”, diz, enfatizando que o meio acadêmico também não insere a temática como primordial.

Na visão da coordenadora pedagógica, para abordar a história e a cultura indígena é essencial que os professores tenham interesse em pesquisar o tema. Além disso, ela reforça a necessidade de cursos de formação na área. “Eu me inscrevi para participar da Cúpula dos Povos por meio da SME-Rio. Acho que a Secretaria poderia oferecer cursos e promover encontros. As falas dos indígenas, em 2012, mudaram a minha vida.”

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