27 Abril 2018
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Que lugar ocupam, ou podem ocupar, a dança e a imitação na educação infantil? Arte-educadora e pesquisadora, Fernanda de Souza Almeida dedicou-se a esse tema no artigo Siga o mestre: reflexões sobre dança, imitação e Educação Infantil. O estudo aponta que, nessa fase, a imitação é adequada, principalmente se vinculada ao faz de conta; entretanto, é necessário que ela não impeça a reelaboração das experiências.

A pesquisadora é autora dos livros Que dança é essa - Uma proposta para a Educação Infantil, fruto da dissertação de mestrado defendida em 2013 na Universidade Estadual Paulista – Unesp; e Dança e educação: 30 experiências lúdicas com crianças, que reúne práticas desenvolvidas no projeto de extensão Dançarelando, coordenado por Fernanda na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde é professora do curso de licenciatura em Dança.

O projeto, atualmente na terceira edição, oferece vivências em dança a crianças matriculadas em instituições públicas da cidade de Goiânia e arredores. As experiências relatadas no segundo livro, de acordo com a autora, visam contribuir com a formação de professores, ofertando uma proposta de arte-educação sensível, criativa e de qualidade.

Confira a entrevista que Fernanda de Souza Almeida concedeu à MultiRio: 

Fernanda de Souza Almeida é autora de dois livros sobre dança e Educação Infantil (Foto: Arquivo pessoal da entrevistada)

Portal MultiRio – Como você avalia, em geral, o uso da dança na Educação Infantil?

Fernanda Almeida – Em nossas (an)danças por instituições de Educação Infantil, seja como professoras ou como pesquisadoras, temos observado que a dança está presente nessa etapa da vida. Contudo, na maioria dos casos, como: um meio para atingir conteúdos pedagógicos; como produto artístico, com a elaboração de coreografias para as festividades e/ou atividades de musicalização, nas quais as crianças são incentivadas a transpor em gestos as letras das músicas.

Tais iniciativas não podem ser desvalorizadas e revelam a abrangência de uma área. Entretanto, a dança como arte, com seus elementos e saberes próprios, metodologias e processos de criação, ainda está pouco presente nos universos educacionais formais, em relação à demanda brasileira com a infância. Inclusive, a palavra dança é citada em muitos documentos municipais brasileiros como uma das linguagens a ser abordada com as crianças. Todavia, sem mencionar seus conteúdos e possibilidades com a infância.

E foi exatamente a percepção da ênfase dada à imitação no processo de abordagem da dança com os pequenos, tanto da cópia das palavras da música, quanto do passo “correto” elaborado pelo adulto, que me motivou a escrever o artigo Siga o mestre: reflexões sobre dança, imitação e Educação Infantil.

PM – Qual deve ser o lugar da imitação na Educação Infantil? Que cuidados devem ser tomados para que essa prática não acabe por inibir o potencial criativo das crianças?

FA – A imitação é um procedimento interessante, principalmente se vinculada ao faz de conta, com o qual as crianças muito se identificam. Mas deve ser um ponto de partida para novas descobertas, explorações, imaginações, criações e a consciência do corpo, do espaço e do tempo.

Devemos tomar o cuidado para que o imitar não seja uma ação reprodutiva sem sentido, que impeça os pequenos de reelaborar suas experiências como uma manifestação pessoal. Um exemplo de como favorecer a imitação e a reelaboração dos movimentos é a utilização de DVDs de espetáculos de dança. A criança aprecia, reconhece os signos desta linguagem artística, imita os artistas e depois reorganiza os movimentos à sua maneira, surgindo uma nova composição.

Outra possibilidade seria a imitação do movimento de uma lagarta, cada aluno a seu jeito; depois, tentando inventar outras maneiras de rastejar (para frente, para trás, com a barriga no chão, as costas, só com o bumbum...); e, a partir dessa investigação, criar uma dança utilizando tais movimentos, na ordem que cada um quiser.

Este deveria ser o lugar da imitação na Educação Infantil, de uma referência para expansão das potencialidades infantis, e não como um modelo do “ideal”, padronizado e recheado do estigma do “bonitinho e engraçadinho” a ser apresentado aos pais.

PM – De que maneira a dança pode ser usada para valorizar e incentivar a autonomia e o protagonismo infantil?

FA – Em primeiro lugar, o professor precisa entender as crianças como sujeitos de direitos, capazes de opinar e decidir. Mas não só decidir se querem ver o DVD da Galinha pintadinha ou de Frozen no horário livre; e sim, partilhar as escolhas de forma que seus interesses sejam valorizados de fato.

A partir disso, a dança deixa de ser uma decisão do adulto para tornar-se um ambiente de investigação e produção artística, no qual a criança também é autora. Para isso, é necessário que as metodologias de oferta dessa linguagem artística baseiem-se na improvisação e exploração das várias possibilidades do movimento no tempo e no espaço; na ampliação das perspectivas sobre si, o outro e o meio; na educação dos sentidos para uma percepção mais apurada e sensível do mundo; no diálogo com diversas linguagens para a compreensão do conhecimento como um todo (e não fragmentado) e no lúdico.

PM – Como você avalia a formação de professores, especialmente nas áreas de linguagens artísticas e do movimento? Acredita que isso reflita no modo como a dança é usada, de maneira geral, em sala de aula?

FA – O cenário da formação de professores na área da arte e do movimento, especialmente com a infância, é vasto e muito diversificado. Oficialmente, é o pedagogo quem trabalha esse conhecimento no cotidiano educacional infantil. Contudo, existe a presença de profissionais de Educação Física, educadores artísticos e licenciados em dança ou teatro abordando tais conhecimentos em algumas escolas.

Cada uma dessas formações concebe o corpo, o movimento, a arte e sua relação com a educação de uma maneira diferente, e isso, com certeza, repercute na maneira com a qual a dança aparece na escola; seja como atividade física, lazer, cultura, apresentação em festas de final de ano, catarse, criação ou meio para atingir conteúdos pedagógicos.

Infelizmente, a formação em Pedagogia não abrange, com a profundidade necessária, os saberes da dança para que os professores se sintam seguros na condução de projetos nessa linguagem artística. Muitos revelam que não trabalham com a dança pois não sabem dançar. A partir disso, podemos refletir sobre o que é saber dançar e quais concepções de dança, corpo e movimento estão arraigadas em nossa sociedade que fazem com que o professor pense dessa maneira. Nesse sentido, os cursos de formação continuada precisariam investir nessas lacunas.

O mesmo vale para a formação em Educação Física, que não reflete sobre os aspectos da arte, estética, processo de criação, improvisação e composição, por exemplo.

A formação de licenciados em Dança é relativamente recente no Brasil. Ainda há pouca informação sobre o curso, apesar de haver um progressivo crescimento na expansão de universidades que oferecem tal formação. 

Somado a isso, existe uma discussão sobre o papel do generalista (pedagogo) versus o especialista na Educação Infantil, transformando o conhecimento em disciplinas ou conduzindo-o de forma integrada a um projeto pedagógico mais amplo. Ou seja, é um terreno conflituoso, que precisa ser debatido e pensado em prol da educação da criança, e não da reserva de mercado de trabalho.

PM – Que possibilidades e caminhos você apontaria aos professores dispostos a repensar suas práticas e fazer um melhor uso da dança e da imitação?

FA – Dançar. Essa seria minha primeira sugestão. Deixe a dança invadir o corpo, permita-se deitar no chão, rolar, brincar, cutucar e ser cutucado. Não digo entrar em uma companhia de dança e ser o primeiro-bailarino profissional; mas, sim, in-corporar (colocar para dentro do corpo) a criação, a pesquisa de movimento, a sensação, a consciência, o ritmo, para que possa se apropriar desse saber.

Em segundo lugar, há cursos de formação continuada, entre eles, oficinas, workshops, especializações, que podem contribuir com uma reflexão acerca da práxis pedagógica, evitando dicotomizar teoria e prática.

Por fim, experimentar com as crianças. Não ter medo de arriscar, de inovar, colocando-se em uma posição de eterno aprendiz, inclusive das crianças. Ouça o que elas têm a dizer.

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