20 Julho 2018
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A gestão escolar impacta, de forma relevante, a aprendizagem dos alunos. Foto Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio

Desde a expansão do acesso à educação no Brasil, nos anos 1960, fatores extraescolares, como as precárias condições de vida das famílias do alunado, têm sido evocados para explicar o baixo rendimento de escolas públicas no país. Tais argumentos lembram o pensamento da Sociologia da Educação naquela década, marcada pela influência do Relatório Coleman, publicado em julho de 1966 nos EUA, que afirmava que a escola não fazia diferença, porque o futuro acadêmico de seus alunos era pré-determinado pela origem social.

Outras teorias, como a de que a escola seria só um mero aparelho de reprodução das relações sociais e de produção, vieram no decorrer das décadas seguintes. Mas, no fim do século XX, pesquisadores como Peter Mortmore, Michael Rutter e Douglas Willms levantaram novas perspectivas, a partir da constatação de que diferentes escolas de atendimento às populações menos privilegiadas apresentavam resultados acadêmicos distintos e discrepantes.

Isso significa que os efeitos das supostas circunstâncias externas na relação ensino-aprendizagem eram anulados em benefício da melhoria da educação, quando a escola conseguia estabelecer uma dinâmica que favorecia o bom clima acadêmico. Essa perspectiva teórica interessa à Educação Pública. Na Rede de Ensino do município do Rio de Janeiro, por exemplo, várias escolas localizadas em áreas conflagradas, que atendem alunos com famílias vivendo em situação de risco, apresentam resultados acadêmicos excelentes, enquanto outras com as mesmas características socioeconômicas e culturais revelam rendimento insatisfatório.

Liderança e clima acadêmico

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Ana Cristina Prado de Oliveira, professora da Unirio. Facebook

Diante dessas constatações, uma pergunta se torna inevitável: se os fatores extraescolares não se mostram determinantes, quais aspectos internos da escola impactam a qualidade do ensino? Para Ana Cristina Prado de Oliveira, atual professora adjunta do Departamento de Fundamentos da Educação da Unirio, a resposta é “a gestão escolar” (formada pela direção, direção adjunta e coordenação pedagógica).

Segundo a professora da Unirio, entre essas funções da equipe de gestão, a primeira tem o papel mais relevante. E não só pela complexidade das múltiplas frentes de trabalho que tem que responder, mas por seu papel de liderança. “Quando elegemos ou nomeamos alguém para diretor, é porque o reconhecemos como líder”, diz. Além disso, pesquisas nacionais e internacionais vêm apontando que a gestão/liderança e o clima acadêmico estabelecido na escola são fatores importantíssimos para a eficácia escolar.

Entre as pesquisas internacionais citadas por Ana Cristina, em sua tese de doutorado, defendida em 2015, está a do professor Kenneth Leithwood, do Ontario Institute for Studies in Education, no Canadá. Em artigo publicado na revista School Improvement, ele afirma que, quando controladas as variáveis de origem dos alunos, a liderança da direção da escola representa um quarto da variante de aprendizagem. De acordo com ele, tal liderança está relacionada à capacidade de mobilizar e influenciar a comunidade escolar para alcançar as metas, ou seja, estabelecer um ambiente favorável ao ensino.

Entre os pesquisadores nacionais, o professor José Francisco Soares, do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação da UFMG e atual membro do Conselho Nacional de Educação, diz que, além do ensino propriamente dito, o fator intraescolar que mais impacta o desempenho dos alunos é a gestão escolar. Em artigo publicado em Cadernos de Pesquisa (v. 37), ele explica o motivo: porque, além dos aspectos físicos e financeiros, cabe à direção o papel de administrar o projeto pedagógico e as relações com a comunidade escolar.

Pesquisa na Rede e resultados

Para verificar o impacto da gestão no rendimento escolar, Ana Cristina Prado de Oliveira aplicou, durante sua tese de doutorado, questionários em 42 unidades da Rede Municipal do Rio, que atendem os dois segmentos do Ensino Fundamental. A pesquisa obedeceu a critérios estatísticos relacionados ao nível socioeconômico, ao número de professores por escola e ao resultado das notas da prova de Matemática no Ideb. “Optei por não considerar os resultados em Língua Portuguesa porque as variantes socioculturais das famílias têm menos impacto em Matemática”, explicou.

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A tese de doutorado, com a pesquisa na Rede Municipal do Rio de Janeiro, foi transformada em livro. Divulgação.

As respostas dos questionários foram transformadas em quatro índices: o de reconhecimento do trabalho da direção, o de percepção do ambiente escolar, o de intervenção pedagógica do diretor e o de satisfação no trabalho. E a análise estatística dos dados confirmou que a gestão escolar e o ensino (relacionado ao trabalho dos professores) impactam, de forma relevante, o desempenho dos alunos.

Entre os índices criados, o mais marcante foi o de percepção do ambiente escolar. Isso significa que a pesquisa constatou que os alunos de mesmo nível socioeconômico tiveram melhor proficiência em Matemática nas escolas onde havia a clareza da existência de um bom clima relacional e acadêmico. “Isso indica que a construção de um ambiente apropriado à aprendizagem deve estar entre as prioridades do diretor”, diz Ana Cristina.

Outro índice, o de intervenção pedagógica do diretor, teve impacto negativo no quesito satisfação no trabalho, que se mostrou um fator também bastante relevante para a aprendizagem dos alunos. Mas o curioso é que, embora tenha surtido efeito negativo por um lado, teve, por outro, impacto positivo no resultado acadêmico.

Uma das hipóteses para explicar a insatisfação dos docentes com as intervenções pedagógicas do gestor é a de que eles podem se sentir meros executores de uma proposta educativa elaborada por outros. “Mas o reconhecimento de estar trabalhando em um ambiente adequado para o trabalho surte efeito positivo na vontade de continuar atuando naquela escola”, afirma a professora da Unirio, para quem os fatores intraescolares fazem diferença, sim.

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