15 Fevereiro 2019
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Crédito: Divulgação/ G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro

O enredo de 2018 da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro – Senhoras do Ventre do Mundo – foi o ponto de partida do projeto desenvolvido pela professora Luciana Guimarães Nascimento com uma turma de 5º ano da E.M. José Enrique Rodó, em Vila Valqueire (7ª CRE). No enredo, a escola apresenta heroínas famosas e anônimas, de diferentes épocas, que “carregam no gênero e na cor, suas conquistas”, como a Rainha de Sabá, a deusa Ísis, Teresa do Quariterê, Maria Felipa e Luiza Mahin. Assim, partindo do teaser lançado pela escola, da sinopse do enredo e da letra do samba, a professora levou para a sala de aula a história da mulher negra. 

“Tenho como proposta didática exaltar o samba como fonte de conhecimento, contextualizando as letras das músicas com os conteúdos apresentados e valorizando esse elemento cultural negro na escola – que é um espaço ainda estruturado a partir de práticas eurocêntricas. Em outros anos, com outras turmas, já utilizei sambas de diferentes escolas para debater temas sociais, sobretudo relacionados a gênero e à raça, para aproximar o currículo das práticas culturais desenvolvidas no cotidiano dos alunos. Para eles, trabalhar com um enredo é novidade e a temática de carnaval deixa tudo mais lúdico”, explica Luciana, mestre em Educação e especialista em Educação das relações étnico-raciais (Cefet/RJ).

O trabalho desenvolvido por ela dialogou com o projeto político pedagógico da escola, desenhado em sintonia com a filosofia africana Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”, que trata da importância das alianças e do relacionamento entre as pessoas.

“O racismo institucional ainda é muito forte. A escola é fundamentada a partir de políticas e ideologias de branqueamento. O currículo é sexista, patriarcal. Temos que tentar reverter isso para não reproduzir o mesmo, o que impossibilitou o reconhecimento da força da população negra na História do Brasil. Procuramos brechas, caminhos e possibilidades pra colocar isso em evidência.”

Como abordar a história da mulher negra em sala de aula 

Alunos confeccionaram cartazes, que foram expostos na escola (Foto: Arquivo pessoal da professora)

A proposta desenvolveu-se ao longo do ano, sobretudo nas disciplinas de Língua Portuguesa e História, partindo da análise de textos, com foco nos conteúdos históricos. 

“No caso do samba, a estrutura favorece, é poesia, praticamente. Então, fomos trabalhando as estrofes aos poucos. Passei aos alunos a responsabilidade de pesquisar e exploramos bastante o gênero biográfico”, conta a professora.

Assim, Luciana abordou com a turma a construção da importância da mulher negra desde a pré-história: interpretou e desenvolveu conceitos associando os elementos da escola de samba, falou sobre mitologia africana e passou pela biografia de mulheres negras abolicionistas.

Ao tratar da abolição da escravatura, que completara 130 anos em 2018, a professora usou os sambas da Estação Primeira de Mangueira de 1988 – Cem anos de liberdade – e da Paraíso do Tuiuti de 2018 – Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?.

Além disso, Luciana trabalhou com os livros Um Rio de Mulheres: a participação das fluminenses na história do estado Rio de Janeiro (REDEH), de Maria Aparecida Schumaher e Erico Vital Brazil; e Heroínas negras brasileiras, de Jarid Arraes. 

A professora Luciana Guimarães Nascimento com parte da turma, exibindo alguns dos cartazes elaborados (Foto: Arquivo pessoal da professora)

Em suas aulas, também analisou expressões como “magia negra”, com apoio do poema homônimo de Sérgio Vaz; e buscou o reconhecimento e o fortalecimento da identidade negra ao enaltecer as diferentes tonalidades de pele encontradas no Brasil, usando o livro Por que somos de cores diferentes?, de Carmen Gil, e o giz de cera elaborado pela Uniafro (da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com diferentes tonalidades de cor de pele. 

“A proposta é fortalecer elementos culturais afro-brasileiros na escola, engrandecer a imagem da população negra, sobretudo das mulheres negras na sociedade brasileira, e desconstruir pilares que sustentam o racismo hoje – preconceito, estigmas e estereótipos –, a partir de práticas pedagógicas antirracistas”, reforçou.

Príncipe africano na escola: representatividade e autoestima

No Dia Internacional da África (25 de maio), cada turma apresentou conhecimentos construídos sobre um país africano. Na ocasião, a escola recebeu o príncipe de Benin, Aboubakar Traore, que realizou uma roda de conversa com as crianças apresentando características culturais de seu país. 

Aboubakar Traore, príncipe de Benin, em visita à escola (Foto: Arquivo pessoal da professora)

“Os alunos ficaram impressionados. Um príncipe negro foge de todos os estereótipos apresentados a eles. Logo, sentiram uma identificação, já que a maioria das crianças na escola é negra. Perceberam que o príncipe se parecia com elas. Esse tipo de trabalho mexe muito com a autoestima, de um estudante cabisbaixo, que tenha mais dificuldades de aprendizagem, se ache incapaz ou não se reconheça como bonito, por exemplo. Mas acontece uma espécie de empoderamento: ele percebe que tem importância e pode alçar lugares socialmente reconhecidos”, afirma a professora. 

Inspiração pedagógica: enredos do carnaval 2019 

O enredo é a criação e apresentação artística do tema ou conceito escolhido por uma escola de samba. A partir dele, é definido como a história vai ser contada na Passarela do Samba. Neste ano, Luciana Nascimento pretende trabalhar com o enredo da Estação Primeira de Mangueira, História para ninar gente grande, que conta o lado não oficial de personagens e da História do Brasil. 

Alunas pesquisam sobre mulheres negras importantes na História (Foto: Arquivo pessoal da professora)

“Dialoga bastante com o trabalho que eu desenvolvo há tempos, de mostrar que existe História com pessoas que não estão representadas nos livros didáticos; um trabalho fixo de valorização da identidade, sobretudo da mulher. E a escola é o melhor lugar para isso começar a acontecer”.

Outros enredos de 2019 que podem ser destacados são o da União da Ilha, A peleja entre Rachel e Alencar no avarandado do Céu, que parte do encontro ficcional de dois ícones da literatura cearense – Rachel de Queiroz e José de Alencar – para exaltar o estado nordestino; e o do Salgueiro, Xangô!, sobre o orixá, que traz possibilidade de abordagem sobre a valorização da história e da cultura africanas e debates sobre intolerância religiosa.

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