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Agenda 2030
20 Maio 2019
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Na tela Operários, de 1933, Tarsila do Amaral registra a diversidade cultural e étnica dos trabalhadores brasileiros. Palácio Boa Vista, creative commons

Comemorado em 21 de maio, o Dia Internacional da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2002, para celebrar a originalidade e a pluralidade das identidades dos diversos grupos sociais humanos. Embora a questão não seja explicitamente citada em nenhum dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, Irina Bokova, diretora-geral da Unesco (agência da ONU voltada para a Educação, a Ciência e a Cultura), afirmou que a comunidade internacional reconheceu que será impossível cumprir os ODS sem o envolvimento das diversas culturas em um diálogo que garanta os benefícios do progresso a todos os membros da sociedade.

Apesar disso, nas comemorações de 2017, em mensagem no site da Unesco, Irina Bokova lamentou a ameaça à diversidade cultural, em função do crescimento de grupos “extremistas que transformaram as minorias culturais em alvo”. Simone Ribeiro da Conceição (Simone Ricco), ativista dos direitos humanos e civis, mestre em Literatura Africana e professora de Língua Portuguesa da E.M. Nações Unidas (8ª CRE), em Bangu, diz que, no Brasil, o quadro não anda diferente: “A intolerância aumentou muito desde que o Estado passou a adotar políticas afirmativas”.

Bolha linguística

No Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deputados apresentaram, recentemente, projetos pelo fim das cotas para negros e indígenas. Um dos argumentos é que elas dividem, negativamente, a sociedade, gerando ódio racial e ressentimento. Os ativistas não compartilham dessa visão. Para eles, a divisão sempre existiu. “O problema é que uma parte da sociedade nunca enxergou a diversidade. Os negros vêm de uma outra cultura, de matriz oral, e aqui no Brasil a maioria deles não teve acesso às escolas até algumas décadas atrás. Esta é uma realidade bastante diferente daquela vivida pelos alunos da Zona Sul e de outros bairros de classe média, descendentes de famílias de origem europeia, com tradição escrita e acesso à cultura”, diz Simone Ricco.

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A professora de Lingua Portuguesa Simone Ribeiro da Conceição (Simone Ricco), da E.M. Nações Unidas. Foto Márcia Pimentel

Essa divisão, segundo a professora, é perceptível no ambiente escolar e se reflete nas aulas: “Há poucos dias, uma aluna do 7º ano me perguntou qual era o significado da palavra “cotidiano”. Outra, não sabia o que era “botequim”. Por uma questão histórica, o vocabulário dos afrodescendentes costuma ser reduzido, cheio de gírias e sem traquejo com a norma culta. A cidade é partida e a maioria desconhece o mundo para além da bolha em que vive. É como naquela música (de Aldir Blanc): o Brasil não conhece o Brasil”.

Arrancada no final

A professora Simone Ricco, de Língua Portuguesa da E.M. Nações Unidas, também discorda de quem afirma que as cotas só existem porque o ensino da escola pública é ruim. A questão, segundo ela, é que os docentes precisam se adequar às lacunas culturais da sociedade, que adentram a sala de aula. É por esse motivo que tem feito ditado com seus alunos, com o objetivo de ampliar não apenas o conhecimento deles em ortografia, mas também para alargar seu vocabulário.

“Outro dia, ditei 100 palavras. A sala ficou atordoada porque não conhecia quase nenhuma. Então, nós, professores, fazemos o que temos que fazer. Se precisamos voltar um pouco atrás no conteúdo, voltamos. E tenho observado que, depois que dominam a base, aprendem rápido e dão um sprint, uma arrancada. Vários ex-alunos da E.M. Nações Unidas ingressaram no Colégio Pedro II, nas universidades e até mesmo na pós-graduação”, explica.

História e representação

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A Marcha sobre Washington, liderada pelo pastor negro Marthin Luther King, reuniu mais de 250 mil pessoas na capital americana, em 1963. Foto Warren K. Leffler, detalhe. Library of Congress

As políticas de cotas são intimamente relacionadas aos movimentos identitários que surgiram nos Estados Unidos, nos anos 1960, quando reivindicações por direitos civis de negros e mulheres ganharam força e visibilidade. O então presidente John Kennedy decidiu validar ações afirmativas que tinham como objetivo a redução das desigualdades sociais. Mas mais do que isso: as manifestações, questionando a “cultura dominante, branca e machista”, reverberaram pelo mundo.

Na Europa, os milhares de trabalhadores, oriundos da África e do Oriente Médio, que tiveram papel importante no desenvolvimento europeu, após a Segunda Guerra, também começaram a se afirmar como grupos com identidade própria, abalando as políticas assimilacionistas – aquelas em que as chamadas minorias absorvem a cultura dominante. Segundo Daniel Aarão Reis, professor de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), esse processo foi ampliado com o advento da internet, que facilitou os imigrantes a manterem laços afetivos e culturais com suas comunidades de origem.

Várias reações extremistas, contra os movimentos identitários e as minorias, surgiram tanto nos Estados Unidos como na Europa, a exemplo dos supremacistas brancos e neonazistas. No Oriente Médio e na África, a questão é inversa. Grupos étnicos minoritários e fundamentalistas, sufocados pelos governos, é que se constituíram em organizações terroristas (como o Estado Islâmico e o Boko Haram). Em mensagem da Unesco, a diretora geral Irina Bokova deixa claro que a instituição não compartilha do objetivo de enfraquecer os vínculos essenciais entre as pessoas e sua história e que aposta no diálogo intercultural para a promoção da paz e do desenvolvimento sustentável.

Quantidade e qualidade

No Brasil, os movimentos identitários e as políticas afirmativas também não são unanimidade, muito embora, em 2017, o Supremo Tribunal Federal tenha votado a favor da constitucionalidade das cotas raciais.

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Simone Ricco na escadaria da Câmara Municipal, onde recebeu a moção Ao Mestre com Carinho, pela "dedicação ao Magistério". Acervo pessoal, 2018

Nos Estados Unidos, ativistas americanos reclamam que não é viável ter um sistema de Ensino Superior em que as melhores universidades sejam reservadas aos brancos. Afirmam que, na Califórnia, por exemplo, a maioria dos alunos que termina o ensino médio é negra ou hispânica. E criticam a redução da representatividade deles em universidades estaduais de prestígio, como Los Angeles e Berkley.

O estabelecimento das cotas, no Brasil, tem garantido o aumento do número de pretos e pardos que concluíram o nível superior. Eles eram 2,2% dos formandos em 2000 e saltaram para 9,3% em 2017. De posse desses números, as lideranças negras tentam abrir canais de diálogo com o Congresso Nacional e a Alerj para barrarem os projetos de lei que buscam dar fim às políticas afirmativas raciais.

Apesar do crescimento de reações radicais contra as cotas, a professora Simone Ricco não está pessimista em relação ao futuro. Sua convicção positiva está relacionada ao aumento qualitativo de pessoas interessadas nas causas e nos estudos das questões étnicas. Segundo ela, não se trata mais da onda que surgiu no início dos anos 2000, quando a Lei 10.639/03 instituiu a obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afrobrasileira, nas escolas. “Naquela época, muita gente buscou conhecer melhor esses conteúdos por uma questão de trabalho. Hoje, o número de pessoas é menor, mas há muito mais engajamento e qualidade de reflexão. E isso faz toda a diferença”, conclui.

 

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