22 Maio 2019
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Não existe um consenso a respeito de todas as funções que o sono exerce sobre o organismo humano. Apesar disso, é sabido que ele é essencial para o bom funcionamento de diversos sistemas biológicos. Ligada à cognição e aos estados de atenção, a qualidade do sono impacta diretamente o desempenho escolar de crianças e adolescentes.

De acordo com o neurocientista Fernando Louzada, doutor em Neurociências e Comportamento pela USP, os efeitos mais comuns da privação de sono no desempenho escolar dos alunos, são o aumento da sonolência e a redução dos níveis de atenção. Coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Paraná, Louzada ainda aponta outra questão menos perceptível relacionada à falta de horas de sono: a consolidação do conhecimento. “Dormir bem antes das aulas é importante para a aquisição do conhecimento, mas descansar depois do aprendizado contribui para sua consolidação”, afirma. 

Crédito: koquirmbach/Pixabay


É importante ter em mente que o sono se manifesta de formas diferentes em cada faixa etária. Durante a primeira infância, período de zero a seis anos, a fase do sono predomina em relação à fase da vigília, que é quando o organismo permanece acordado. Esse modelo vai se modificando à medida que a criança cresce, com uma progressiva redução do sono devido ao desenvolvimento das noites dormidas por completo e alguns cochilos esporádicos durante o período de vigília.

As transformações fisiológicas da adolescência se manifestam não só fisicamente, mas também na rotina dos jovens. Nesse período, acontece a chamada mudança de fase do sono. “A adolescência é um período em que naturalmente, o sono muda e os jovens tendem a dormir mais tarde e a levantar mais tarde também”, explica Louzada. Essa mudança, nos adolescentes, está relacionada com o atraso da diminuição da temperatura corporal e do início do surto de melatonina – hormônio sinalizador da noite para o organismo.

O dossiê Horários Escolares e Implicações no Sono de Adolescentes, elaborado pela Associação Brasileira de Sono (ABSono) em 2018, orienta que o início das aulas no período da manhã não seja anterior às 8h30, para alunos de 13 a 17 anos. Esse horário diverge do atual cronograma da maioria das escolas brasileiras, que tem as primeiras aulas por volta das 7h. Nesse cenário, a necessidade natural do adolescente de dormir mais tarde e também acordar mais tarde não é contemplada, ocasionando riscos ao aprendizado dos alunos.

O frequente estado de sonolência, apatia, irritabilidade e cochilos entre estudantes adolescentes durante os primeiros tempos da manhã, é consequência do desalinhamento entre o horário das aulas e as particularidades do sono nesse período da vida.

Fernando Louzada é enfático ao afirmar que, enquanto a hora de início das aulas não for alterada, qualquer medida adotada pela escola a fim de melhorar o desempenho dos estudantes nos primeiros horários é paliativa. “Para potencializar a concentração e a atenção dos alunos, os professores podem aumentar a intensidade luminosa das salas, já que o sistema nervoso humano responde à exposição de luz e aumenta o estado de vigília. Outra alternativa que contribui para elevar o nível de atenção é um café da manhã reforçado, utilizando-se da cafeína como aliada na luta contra o sono.”

Quando questionado sobre que atividades ou hábitos podem ser adotados por crianças e adultos para melhorar as noites de sono, o neurocientista fala sobre rotina alimentar, atividades físicas, restrição do uso de dispositivos eletrônicos e um ambiente confortável.

“A indicação é não utilizar dispositivos eletrônicos antes de dormir. A ingestão de alimentos com cafeína ou estimulantes, como café, chás e chocolates também pode dificultar a chegada do sono. Atividade física é ótima pedida, mas deve ser feita duas a três horas antes de dormir. Outro ponto a ser levado em consideração é o horário do sono como um momento calmo, sem estresses e brigas. Deve-se estabelecer um ambiente confortável e uma rotina de sono, tanto para adultos quanto para crianças. No caso dos pequenos, é importante que eles sejam levados acordados para cama. Assim, vivenciam a experiência de dormir, desde escovar os dentes até a hora de deitar, e consolidam uma rotina saudável de sono”, recomenda o cientista.

O avanço tecnológico e sua influência no ciclo sono-vigília

A invenção da eletricidade transformou, ao longo do tempo, a relação do homem com a luz. Se antes o sol era a única fonte luminosa, seguido do fogo e das velas, a luz elétrica e suas derivações tecnológicas fizeram com que o ser humano adquirisse poder de decisão sobre quando ficar no escuro ou não.

Um dos principais fatores de influência no ciclo sono-vigília é a exposição à luz. O organismo tende a reconhecer que é momento de estar em vigília quando há presença de claridade, e a se preparar para o sono na ausência de luz. Estar em contato com luminosidade elevada durante a noite aumenta os níveis de alerta e inibe a produção de melatonina, principalmente para quem está exposto ao comprimento de onda da luz azul.

“As células da nossa retina que detectam a luz são mais sensíveis ao comprimento de onda da luz azul, que está presente nos aparelhos eletrônicos como celulares, televisão, tablets... A excitação dessas células faz com que o nosso organismo permaneça em estado de vigília, e dificulta o sono”, enfatiza Louzada.

Esse alerta é importante, já que, segundo pesquisa realizada pela ABSono, em 2018, o uso de eletrônicos é justamente a atividade mais frequente entre adolescentes nos momentos que antecedem o sono. Veja os resultados no gráfico abaixo:

 

A experiência do sono nas creches municipais da Rede Pública


Na infância, a hora do descanso também exerce um papel importante. Nessa fase, há o predomínio do sono em relação ao período de vigília. Segundo a professora Izabel Mattos, diretora da Creche Municipal Engenho da Rainha (3ª CRE), em Tomás Coelho, o ritmo de cada aluno deve ser respeitado e a creche tem que oferecer um ambiente confortável para todos.

“As crianças passam boa parte de sua infância dentro das creches e EDIs sendo que, na primeira infância, ficam praticamente em período integral; então é fundamental que esse espaço lhe ofereça condições de um desenvolvimento seguro, respeitando a etapa de cada um”, diz Izabel.

As professoras conseguem, ainda, perceber quando as crianças chegam cansadas à instituição. “Percebemos que se não desejam dormir, possivelmente já estão descansadas, e isto deve ser respeitado. Quando não estão com o sono em dia, os sinais são nítidos: ou já chegam dormindo na unidade escolar e perdem muitas partes dos momentos de interação ou ficam com o humor diferente do normal”, completa a diretora.

 De acordo com a diretora, a rotina dos pais é uma das principais razões para as crianças não estarem com o sono regulado. Percebidos sinais constantes de irritabilidade, sonolência e cansaço, a unidade escolar pode intervir e conversar com os responsáveis por elas. Nessa conversa, é válido apontar à família os benefícios de uma rotina saudável na hora de dormir. 

Crédito: Alberto Jacob Filho

“A unidade escolar geralmente conversa com a família explicando a importância das horas de sono para o desenvolvimento das crianças, pois proporciona o descanso da mente e permite um melhor funcionamento do cérebro. Durante o sono, o organismo libera importantes substâncias para a saúde, como o hormônio do crescimento, que atua no desenvolvimento dos músculos e dos ossos, e impede o acúmulo de gordura, ajudando no desempenho físico e ativando o sistema imunológico. Nosso trabalho é o de conscientização.”

A atenção com a rotina e o ritmo individual de cada aluno é uma preocupação constante dos educadores da Educação Infantil. Izabel conta que normalmente é feita uma entrevista com os responsáveis das crianças, na fase de acolhimento, perguntando sobre vários aspectos do novo aluno, entre eles, o sono.

Estar em sala de aula ensinando crianças e adolescentes requer atenção redobrada e, portanto, o sono também é importante para os adultos, principalmente para aqueles que trabalham com educação. “Tenho muito cuidado com o meu sono”, finaliza a diretora, legitimando que dormir bem e com qualidade não é uma questão unicamente de crianças e adolescentes.

Fonte: Dossiê Horários Escolares e Implicações no Sono de Adolescentes, da Associação Brasileira do Sono; entrevista com o neurocientista Fernando Louzada; entrevista com a professora Izabel Mattos.

* Clara Almeida, estagiária, com supervisão de Ivan Kasahara

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