19 Junho 2019
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dislexia
Imagem: GEA/ MultiRio

A dislexia é um transtorno específico de leitura que pode afetar a aprendizagem de crianças e adolescentes. Segundo Renata Mousinho, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Projeto ELO: escrita, leitura e oralidade, trata-se de uma alteração linguística, especialmente na área fonológica, mas que pode envolver também o processo visual. 

“A criança tem dificuldade na precisão da leitura, ou seja, em fazer correspondências entre letra e som em uma velocidade de leitura que dê fluência. A habilidade de compreensão global da linguagem está boa, mas a compreensão fica prejudicada porque ela lê mal”, explica a especialista, mestre e doutora em Linguística pela UFRJ.

De acordo com Renata, é comum que familiares de estudantes com dislexia tenham apresentado dificuldade escolar, trocas na escrita ou outro tipo de alteração na linguagem. Ainda segundo a fonoaudióloga, assim como em outros transtornos de linguagem, há uma prevalência maior em meninos do que em meninas.

Dislexia: como identificar sinais de alerta

O professor é quem, normalmente, identifica os sinais de alerta apresentados pela criança ou adolescente, por ter um comparativo explícito em sala de aula. “Esses sinais não necessariamente vão caracterizar dislexia, mas muitas vezes estão no histórico de crianças com dislexia”, explica Renata Mousinho, ressaltando que nem todos os indivíduos apresentam os mesmos sinais.

“Pode haver dificuldade na nomeação de cores, mesmo isso sendo muito ensinado; demoram a se lembrar do vocabulário e acabam usando termos como ‘aquele negócio’ ou ‘aquela coisa’; apresentam dificuldades em identificar palavras que rimam e em fazer correlações como, por exemplo, reconhecer nomes da chamada que comecem com a mesma letra. Além disso, há muita troca na fala: em vez de ‘macaco’, falam ‘cacaco’; em vez de ‘máquina’, ‘mánica’; ou ‘carrafa’ no lugar de ‘garrafa’ – sinais desviantes, que não são esperados de crianças com quatro e cinco anos”, explica a especialista. 

Dislexia – Sinais de alerta  Antes da escolarização formal Possibilidade de atraso no desenvolvimento da linguagem. Palavras pronunciadas incorretamente; persistência de fala infantilizada. Dificuldade em nomear (lembrar das palavras). Dificuldade em aprender e em lembrar o nome das letras.  Falha em entender que palavras podem ser divididas (jogos com sílabas, rimas). Início da escolarização formal Dificuldades de alfabetização. Na leitura: processo feito sob esforço, sem automatismo; leitura oral entrecortada, com pouca entonação; tropeços e adivinhações de palavras. Na escrita: omissões, trocas, inversões de grafemas (exemplos: trocas como p/b, t/d, k/g, f/v, s/z, x/j; inversões como PARIA por PRAIA; omissões como TRITA por TRINTA); dificuldades para se expressar pelo sistema escrito. Com o avançar da escolaridade Dificuldade para aprender outros idiomas. Na leitura: processamento mais lento que os pares, prejudicando a compreensão (nesta fase, mais visível na leitura silenciosa); dificuldade em ler legendas. Na escrita: persistência de falhas ortográficas; dificuldade na organização e elaboração de textos escritos. * Todas estas características devem apresentar discrepância em relação ao potencial que os indivíduos mostram oralmente, tanto em termos de compreensão, quanto de expressão da linguagem. Elas também devem contrastar com o nível de aprendizado de seus pares que tenham as mesmas oportunidades. Fonte: Renata Mousinho, doutora em Linguística e coordenadora do Projeto ELO: escrita, leitura e oralidade, da UFRJ. Texto publicado em: https://tinyurl.com/y2fj4mbx

O que fazer quando o aluno apresenta sinais de dislexia

De acordo com Renata Mousinho, algumas crianças podem apresentar dificuldades bem gritantes na fase de alfabetização; outras só sentem dificuldade quando os textos aumentam muito; e, ainda, há casos em que elas ‘dão um jeito com a leitura’, mas a escrita é inviável.

A fonoaudióloga reforça que um estudante com dislexia consegue acompanhar uma turma regular, mas pode ter desempenho ainda melhor se contar com atividades de apoio no contraturno. “A dislexia é uma pedra no sapato, mas não é impedimento para absolutamente nada na vida. Tudo o que a criança quiser ser, ela poderá ser”.

Em geral, segundo a especialista, os disléxicos são crianças sociáveis, que se comunicam bem, falam bem, de forma que não se espera deles um mau desempenho na escolarização formal. “O diagnóstico surpreende a família e a escola, e a criança se sente cobrada, não está preparada para aquilo. Por isso, é importante que professores e responsáveis valorizem e exaltem seus pontos fortes para a turma e para a família. Normalmente, o disléxico tem uma curiosidade grande para aprender outras coisas, como esportes, por exemplo.” 

Como interagir com um aluno disléxico - Utilize recursos visuais. A maior parte das dislexias é fonológica, via som; então, o uso de imagens, cronogramas e esquemas ajuda a fixar melhor a informação. Apresentar filmes ou aulas on-line complementares também é um recurso bastante rico – e que será bom para todos os alunos.  - Estabeleça metas mais curtas. Se um aluno lê mal, encarar um texto de 20 linhas pode ser desanimador. Se possível, peça para que ele leia o primeiro parágrafo e converse sobre o conteúdo. Isso dá um grande alívio ao estudante e ajuda na compreensão do texto. Da mesma forma, em vez de pedir que o aluno faça as atividades da página 1 à 20, peça da 1 à 5, da 6 à 10 e assim por diante.  - Evite leituras na frente da turma. Quando a leitura é muito ruim, essa é uma das práticas que reforçam o fracasso do aluno. Por outro lado, há estudantes que se ressentem por não lerem alto, como os amigos. Nesses casos, ofereça, com duas semanas de antecedência, uma leitura mais fácil, para que o estudante treine e chegue mais preparado. Isso ajudará a elevar a autoestima dele.  - Não diga que o aluno é preguiçoso.  O disléxico faz um esforço muito grande para cumprir tarefas e ter um rendimento pior do que amigos que estudaram menos. Mostre que ele tem um lado melhor. - Valorize mais o conteúdo do que a forma. Para um aluno que tem problema na escrita, não é justo que os conceitos estejam corretos e a nota seja baixíssima por causa da ortografia, grande dificuldade em estudantes com dislexia. Na correção da prova, considere não descontar ou descontar menos pontos por erros na escrita, de modo a não prejudicar tanto a nota final. Outra sugestão é pedir ao aluno que confirme oralmente as respostas que foram entregues por escrito, levando em conta sua inabilidade de passar para o papel o que estava pensando. - Considere ampliar o tempo para realização de prova. O objetivo não é tornar o teste mais fácil do que o de seus colegas, mas sim oferecer oportunidades similares. Se a velocidade de leitura é sensivelmente mais lenta, uma característica marcante da dislexia, a avaliação poderá ficar incompleta ou a compreensão do material poderá ser prejudicada por falta de tempo hábil. - Permita que o aluno leia as questões oralmente (ou mesmo em sussurro). Para alguns estudantes, é importante se ouvir para compreender a leitura. - Oriente a família do aluno. Todos querem que o estudante tenha autonomia na hora do dever de casa, mas, no caso da dislexia, isso talvez demore um pouco mais a acontecer. Então, a criança vai precisar mais dos responsáveis ao lado. Sugira que façam leituras compartilhadas, no caso de textos grandes – cada um lendo uma frase; que apresentem os conteúdos por meio de filmes, vídeos ou visitas a museus, se possível; sempre conversando depois sobre o assunto.  Deixar que a criança receba a informação didático-pedagógica apenas por meio da escrita, que é o único ponto fraco dela, é injusto, limita os alunos, e isso deve ser entendido também no ambiente familiar. Fonte: Renata Mousinho, doutora em Linguística e coordenadora do Projeto ELO: escrita, leitura e oralidade, da UFRJ.

O diagnóstico e o tratamento da dislexia

O diagnóstico de dislexia só pode ser dado depois do início da alfabetização e, mesmo assim, deve considerar uma série de fatores, como aponta Renata Mousinho.

“A aprendizagem tem os lados social, cultural, pedagógico... Depende da disponibilidade da criança e de sua saúde, como não estar com otite ou secreção, por exemplo. Sendo assim, o manual diagnóstico diz que, inicialmente, levanta-se a hipótese de dislexia, trata-se e intervém de alguma maneira, até mesmo dentro da escola. Seis meses depois desse trabalho mais diretivo, a maneira como a criança responde à estimulação – todas melhoram, com ou sem dislexia – pode comprovar a dislexia ou apontar uma dificuldade de aprendizagem, mais relacionada ao pedagógico”, explica a coordenadora do ELO – UFRJ, ressaltando que, apesar de o diagnóstico interdisciplinar ser o ideal, o mesmo pode ser dado por fonoaudiólogos, neurologistas, psiquiatras e neuropsicólogos com formação para tal; psicopedagogos também podem ajudar a compor uma equipe.

Existem diferentes graus de dislexia, segundo Renata. “Antigamente, dizia-se leve, moderada ou severa. No entanto, hoje em dia não se fala em graus de nascença, e sim em função dos sinais que o indivíduo está apresentando naquele momento. Porque é possível migrar de um grau severo para um leve, por exemplo. Em grau severo, a criança precisa de alguém que leia para ela nas provas, releia o que ela escreveu para checar se é o que ela realmente estava pensando. A criança com grau moderado faz a prova em um lugar tranquilo, com mais tempo de prova e só vai precisar de ajuda se tiver dúvida no enunciado. O grau é leve quando não se consegue finalizar uma atividade, precisa de pequenas adaptações”, exemplifica.

O tratamento depende da fase em que a criança é diagnosticada. “Em um primeiro momento, pode ser fonoaudiológico; e, depois, pode ser psicopedagógico. Depende. Quando chegam mais velhas, com marca forte do fracasso, precisam da psicopedagogia junto. Quando o diagnóstico é mais precoce, podemos trabalhar na precisão e na velocidade da leitura, nas bases linguísticas para isso”, diz Renata.

Bons resultados podem aparecer já com seis meses de intervenção, segundo a fonoaudióloga. “Não para ficar bom de vez, mas para, por exemplo, uma criança que não possui nenhuma fluência de leitura, ter um mínimo disso para compreender o que lê. E isso muda a vida dela. Porque se ela lê errado, não consegue interpretar; se lê muito devagar, faz tanto esforço e, quando acaba, simplesmente não se lembra do que leu. Então, adquirir o mínimo de fluência de leitura vai permitir a compreensão e melhorar o desempenho na escola, em várias disciplinas. E o aluno fica aliviado, afinal, não dá para sentir prazer fazendo um esforço grande sem entender nada.”

A especialista destaca que, por não se tratar de uma doença, não se fala em cura. “Mas existe um momento em que aquilo para de impactar a vida da pessoa. E se para, está tudo bem.”

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