03 Julho 2019
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O ensino da história e da cultura indígena brasileira durante a Educação Básica tornou-se obrigatório desde 2008, mas ainda se sabe pouco sobre os povos nativos do país. Entre os conteúdos produzidos a respeito desse tema, a maior parte foi escrita dentro dos grandes centros urbanos por pessoas provenientes da sociedade ocidental. Mas, afinal, o que os indígenas têm a dizer sobre suas próprias tradições, culturas e histórias? 

Segundo a professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná Janice Cristine Thiél, especialista em literaturas indígenas brasileiras e doutora pela Universidade Federal do Paraná, a produção de textos por indígenas floresceu na década de 1990 e entrou neste século como movimento literário reconhecido. A produção textual indígena ajuda a recontar a história do Brasil a partir de uma perspectiva diferente da narrativa oficial.

Alunos do Ciep Poeta Cruz e Sousa com livros de literatura indígena (Foto: Alberto Jacob Filho)

É no que acredita Kaká Werá Jecupé, escritor, professor e ambientalista. “A complexidade de contribuições indígenas para o mundo é minimizada na história oficial, contada do ponto de vista ocidental. A influência dos povos nativos na construção de estradas, cidades e Estados, e também em características culturais como hábitos alimentares, espiritualidade e caráter, não ganha espaço nessas narrativas”, comenta o autor, afirmando que existem algumas diferenças entre o que é contado nos livros didáticos e a realidade da história indígena no país.

No livro Pele silenciosa, pele sonora: a literatura indígena em destaque, Janice esclarece que associar o conceito de literatura somente a produções escritas é um equívoco e que, justamente por isso, os povos indígenas foram excluídos durante muito tempo desse universo literário.

“A literatura tem suas raízes na tradição oral, mesmo a que consideramos canônica, que conhecemos pelas publicações escritas. Portanto, ela é multimodal, composta por múltiplas modalidades de construção de sentido, de expressão oral, escrita, visual etc. No caso da literatura indígena, sua tradição é oral e performática, ou seja, envolve não só a palavra dos contadores de história, sua voz, entonação, mas elementos como dança, música, ilustrações, bem como elementos de tradição ocidental de compor narrativas, poemas, entre outros gêneros literários” explica a professora.

A tentativa de enquadrar a literatura indígena no modelo ocidental pode ser uma forma de colonização ou de apagamento de expressões artísticas dos povos nativos, de acordo com Janice. “Há muito desconhecimento das especificidades das textualidades indígenas. Por exemplo, a noção de gênero literário é cultural e, portanto, um conto indígena pode não corresponder aos parâmetros canônicos ocidentais de composição”.

A professora também defende a leitura de obras indígenas dentro da escola e da universidade como forma de aproximação cultural entre esses povos e a sociedade urbana. “As obras de autores indígenas podem e devem ser lidas e estudadas para que se promova o letramento cultural e literário e para que se conheça como eles contribuem para a construção da diversidade da literatura brasileira, pois os grupos indígenas não fazem parte apenas do passado dessa nação, mas de seu presente e futuro”, completa.

Ferramenta de afirmação de identidade

A publicação de textos escritos por indígenas dá visibilidade às diferentes etnias que existem no país, número que hoje é de 206 povos. Cada um deles tem suas particularidades e suas próprias tradições, deixando clara a diversidade que é encontrada dentro da própria corrente literária indígena.

“Assim como o rótulo ‘literatura brasileira’ parece não ser suficiente para expressar a diversidade de produção brasileira, o rótulo ‘literatura indígena’ parece não ser suficiente para que haja uma percepção da diversidade da produção indígena, não só no Brasil. Cada povo tem sua expressão, visão de mundo, modo de relacionar-se com a natureza e com o outro. Muitas vezes há uma tendência a se construir generalizações, mas é preciso pensar nas especificidades de cada produção” pondera Janice.

Crédito: Editora Peirópolis, divulgação.

 Kaká é filho de pais tapuias e tem se dedicado à disseminação das culturas ancestrais brasileiras, além de trazê-las para a contemporaneidade. É citado no livro Pele silenciosa, pele sonora: a literatura indígena em destaque como um dos expoentes da produção textual indígena. “A literatura é uma ferramenta de propagação de valores e de visão de mundo dos povos indígenas para muita gente, ampliando o poder de difusão de uma diversidade de saberes. Torna-se, assim, mais do que afirmação de identidade e autoestima, uma forma de preservar conhecimentos e de (re)existência” afirma o escritor.


Os diferentes grupos de produção escrita indígena brasileira

Além da diversidade de etnias, há também diferentes tipos de autores que desempenham diferentes papéis sociais dentro das comunidades indígenas. Janice explica que algumas obras têm cunho didático e são escritas por professores ou autores indígenas para transmitir conhecimentos de um certo grupo para jovens e crianças desses povos, como forma de valorizar saberes e idiomas que poderiam ser esquecidos.

Por outro lado, há escritores não indígenas que pesquisam narrativas de povos nativos e traduzem essas histórias para não índios, em geral utilizando estratégias discursivas ocidentais. Há, ainda, os escritores indígenas, que falam para seus povos e para a sociedade urbana, transitando por esses dois meios. É o caso de Kaká Werá.

O escritor ainda alerta para o fato de que poucos livros escritos por indígenas são utilizados dentro das salas de aula do Brasil e se mostra interessado em atingir o maior número de pessoas possível. “Minhas obras são para indígenas e não indígenas e meus trabalhos também circulam em aldeias. E não existe diferença na forma de escrever”, finaliza.

“Muitos escritores indígenas reconhecidos por suas obras e divulgados pela mídia transitam por espaços urbanos, vivem em grandes cidades, criam seus textos e desenvolvem estudos e pesquisas em espaços acadêmicos nacionais e internacionais. Eles não estão restritos às suas comunidades étnicas, refletem criticamente sobre diversos temas de alcance local e global, como outros autores de diferentes culturas”, complementa a professora Janice.

Trabalhando literatura indígena na Rede Municipal de Ensino

No Ciep Poeta Cruz e Sousa (8ª CRE), em Realengo, a coordenadora pedagógica Danielle Rodrigues trabalha a temática indígena com os alunos desde os primeiros anos da Educação Infantil.
Com a produção de animações, os alunos entram em contato com a narrativa e com a literatura dos nativos do país. Danielle promove encontros com representantes desses povos, nos quais mitos indígenas são passados para as crianças em contações de história, utilizando a oralidade como forma de propagar ensinamentos e cultura.

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Crédito: Alberto Jacob Filho.

 “Uma das minhas preocupações com as crianças, além de apresentar a história, é não ficar preso no passado. Os povos indígenas estão presentes no Brasil e devem ser entendidos como cidadãos brasileiros. Quando realizo o encontro dos alunos da escola com os representantes indígenas, eles têm a oportunidade de ouvir as histórias e os mitos contados pelos próprios nativos. Essa é uma maneira de dar espaço para a fala do indígena em um mundo no qual essa voz é pouco ouvida”.

A professora relata que, no início do projeto, em 2012, sentia que as crianças vinham com ideias estereotipadas desses povos. “Hoje em dia o preconceito em relação aos nativos é bem menor”, afirma.

Os alunos, no final do projeto, montam um aulão com tudo que aprenderam em relação à cultura indígena e utilizam livros de escritores indígenas como material para a apresentação.

A coordenadora pedagógica ainda reforça que o trabalho sobre cultura e tradições indígenas pode ser desenvolvido desde os primeiros anos da Educação Infantil. “Na escola, trabalho essa temática com crianças de quatro a dez anos”, conclui.

Livros de literatura indígena para serem utilizados em sala de aula

A professora Janice Cristine Thiél indica cinco livros escritos por indígenas que podem ser trabalhados em sala de aula. Nessas obras, a história dos povos nativos do país é contada por meio de narrativas didáticas, tornando acessível a abordagem do tema entre crianças. Confira:

1) Das crianças Ikpeng para o mundo - Marangmotxíngmo Mïrang, coleção Um Dia na Aldeia, adaptado e ilustrado por Rita Carelli. Editora Cosac Naify, 2014.

2) Awyató-Pót: histórias indígenas para crianças, coleção O Universo Indígena - Série Raízes, de Tiago Akiy. Editora Paulinas, 2011.

3) As fabulosas fábulas de Iauaretê, de Kaká Werá Jecupé. Editora Peirópolis, 2007.

4) Irakisu: o menino criador, coleção Memórias ancestrais: povo Nambikwara, de Renê Kithãulu. Editora Peirópolis, 2002.

5) Coisas de índio: um guia de pesquisa, de Daniel Munduruku. Editora Callis, 2010.

 

*Estagiária, com supervisão de Ivan Kasahara.

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