28 Agosto 2019
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Escritor Lucinei M. Campos durante visita ao Ciep Carlos Drummond de Andrade (Foto: Arquivo pessoal da professora Adriana Pina)
Escritor Lucinei M. Campos durante visita ao Ciep Carlos Drummond de Andrade (Foto: Arquivo pessoal da professora Adriana Pina)

Promover encontros de crianças e jovens com autores é uma prática comum em muitas escolas e que pode ter um efeito muito positivo no estímulo à leitura. Professora de Sala de Leitura no Ciep Carlos Drummond de Andrade, na Praça Seca (7ª CRE), Adriana Pina organiza periodicamente visitas de escritores à unidade.

“Antigamente, havia a ideia de que escritores eram apenas pessoas mais velhas e a impressão de que eram inacessíveis. Hoje, os alunos sabem que há autores de todas as idades e que eles não estão tão ‘distantes’ assim. Essa aproximação é muito importante para despertar a curiosidade de crianças e jovens sobre um escritor e suas obras e estimular a leitura”, destaca a docente. “Tento fazer com que esses encontros aconteçam uma vez por bimestre. Nem sempre consigo, porque dependo da disponibilidade dos escritores. Mas, recentemente, por exemplo, a escola recebeu Lucinei M. Campos, autor de Lavinia e a Árvore dos Tempos, a quem conheci durante uma festa literária”, conta a professora.

Como planejar a visita de um escritor à escola

Segundo Adriana, a prática de levar um autor à escola requer planejamento prévio, desde a escolha do convidado e agendamento da data, até a preparação da turma para recebê-lo.

Antes das visitas, ela conversa com os estudantes sobre a vida e sobre a obra do escritor, exibe slides informativos e comenta sobre a formação acadêmica e outras curiosidades. Então, promove rodas de leitura e apresenta um “cardápio literário” com outras publicações do autor, caso haja.

A aluna Pâmela Thaynara (no meio) fez esta ilustração em homenagem ao escritor Lucinei M. Campos, com a ajuda de Aline Marques (de cabelo curto) e Rayane Araújo na pintura (Foto: Arquivo pessoal da professora)
A aluna Pâmela Thaynara (no meio) fez uma ilustração em homenagem ao escritor Lucinei M. Campos, com a ajuda de Aline Marques (de cabelo curto) e Rayane Araújo na pintura (Foto: Arquivo pessoal da professora)

Durante os encontros, os alunos ouvem e fazem perguntas ao convidado. “Em geral, eles querem saber como e por que o autor decidiu escrever o livro. No caso do Lucinei, que é formado em História, eles perguntaram o porquê de ele ter escrito um livro sobre literatura e não sobre História”, relembra a professora.

Nesses encontros, os autores também entregam um prêmio aos dois alunos “mais leitores” de cada turma, prática adotada há anos pela escola. “Eles ficam bastante empolgados e são estimulados a ler cada vez mais”, diz Adriana, ressaltando que, após a visita de um escritor, aumenta muito a procura por suas obras e o número de empréstimos de livros na sala de leitura.

Ainda para este ano, a professora planeja a visita do escritor Júlio Emílio Braz, cujas obras, segundo ela, dialogam com o projeto político pedagógico da escola – um dos critérios considerados pela docente na hora de escolher os autores convidados.  “Temos muitos livros dele na nossa sala de leitura. Nessas obras, ele fala bastante sobre preconceito, o que tem tudo a ver com o PPP da escola neste ano, que trata de valores humanos”, explica.

Ex-aluno do Ciep Carlos Drummond de Andrade, o escritor Henrique Rodrigues é presença certa todo ano na unidade. “Ele ainda não sabe, mas, até por sugestão dos alunos, iremos mudar o nome da nossa sala de leitura – atualmente Monteiro Lobato – para homenageá-lo”, antecipa Adriana.

Na Rede, Henrique também estudou no Ciep Doutor Adão Pereira Nunes (6ª CRE), em Irajá, conforme relata no vídeo da campanha Ler É Demais, Leia Mais, gravado durante a Feira Literária de Paraty – Flip, no último ano.

A perspectiva do escritor convidado

Ex-professora da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, atualmente aposentada, Sonia Rosa é escritora há 24 anos. Mestre em Relações Étnico-Raciais (Cefet/RJ), ela trabalha como consultora de letramento racial em uma escola particular do Rio, mas segue com a agenda repleta de um dos compromissos que mais ama: visitar escolas e conversar com os alunos.

“Fui aluna da escola pública e lá tive a oportunidade de ter contato com os livros, já que não os tinha em casa. Isso me fez dar um valor especial à escola e sinto muita gratidão. A alegria dupla nesses encontros é por poder incentivar as crianças a também se aproximarem do livro. Na minha infância, nunca conheci um escritor, mas, hoje, a valorização da literatura infantil e juvenil e a facilidade de acesso aos autores permite isso”, declara a escritora, que dá nome a sete salas de leitura da Rede, localizadas em diferentes bairros, como Cordovil, Campo Grande e Mangueira.

Questões afrobrasileiras estão presentes nas obras de Sonia Rosa desde seu primeiro livro, <em>O Menino Nito</em>, (1995). A história, cujo protagonista é negro, fala sobre autoestima e desconstrói a ideia de que “homem não chora”.
Questões afrobrasileiras estão presentes nas obras de Sonia Rosa desde seu primeiro livro, O Menino Nito, (1995). A história, cujo protagonista é negro, fala sobre autoestima e desconstrói a ideia de que “homem não chora”.

A autora afirma gostar de ir às escolas também para quebrar o paradigma de que ser escritor é algo inatingível. A cada visita, ela observa os alunos, o espaço e busca entender qual é a demanda da escola; ressalta questões sociais e fala sobre negritude e diversidade. “O que mais mexe comigo é o encantamento das crianças. Já me perguntaram se eu era de verdade, onde estavam meus seguranças, se eu era rica e até se morava em um palácio ou castelo”, relembra.

Em uma dessas visitas, Sonia usou a poesia para se aproximar dos adolescentes. “Falei que, por meio da poesia, deixávamos nosso sentimento em palavras. E eis que um estudante me perguntou: ‘mas como eu tiro a tristeza do meu peito?’. Esse contato é a coisa mais linda! Há momentos em que eles se soltam, se abrem, e eu também. A leitura alimenta ideias, a história abraça e as conversas são amorosas”, conta a escritora, que lançará mais seis livros até o final do ano.

“Tenho muita alegria em dizer que circulo por todas as escolas, da Maré a Santa Cruz. Fui criança favelada, nasci em uma comunidade, passei por uma experiência de remoção, indo da Gávea para Cascadura. A literatura é uma forma interessante de falar sobre muitos assuntos, de forma respeitosa, amorosa, trabalhando com a inteligência dos alunos”, diz Sonia, que já foi recebida por professoras com pétalas de rosas e até com um bolo com a capa de um de seus livros. “Eu choro, me emociono e me belisco para saber se é verdade.”

Projeto Bienal nas escolas incentiva a aproximação entre autores e leitores

A Bienal do Livro acontece de 30 de agosto a 8 de setembro, no Riocentro. A MultiRio marca presença no evento, exibindo algumas de suas produções no estande da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio).

Nos meses de julho e agosto, como uma espécie de “aquecimento” para o evento, a SME-Rio levou cinco escritoras para visitar escolas da Rede e falar sobre a importância da leitura, motivando estudantes e professores a participarem do maior evento literário do país.

Thalita Rebouças conversou com jovens da E.M. Bernardo de Vasconcelos (4ª CRE), na Penha; Miriam Leitão falou com as crianças do EDI Eu Sou (7ª CRE), na Praça Seca; Nathalia Arcuri visitou a E.M. Epitácio Pessoa (2ª CRE), no Andaraí; e, encerrando o projeto, Ana Maria Machado, foi à E.M. Domingos Bebiano (3ª CRE), em Inhaúma.

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