29 Outubro 2019
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Sala de Leitura da E.M. Clementino Fraga (8ª CRE), 2017 (Foto: Alberto Jacob Filho)

Por que algumas Salas de Leitura parecem marcar um espaço dentro e também fora das escolas onde se inserem? Que concepções e práticas fundamentam essas experiências? Para compreender essas questões, Sônia Maria Travassos, doutora em Educação e escritora de livros infantis, realizou um estudo em cinco Salas de Leitura que alcançaram visibilidade e reconhecimento em suas escolas e junto à Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio). O trabalho foi desenvolvido entre os anos de 2014 e 2018, para sua tese de doutorado, intitulada Concepções, Funções e Práticas de Salas de Leitura de Escolas da Rede Municipal de Ensino da Cidade do Rio de Janeiro.

“A proposta foi analisar por que, em meio a tantas escolas, aquelas experiências poderiam ser consideradas boas, o que elas faziam de diferente de outras, que condições e concepções estruturais favoreciam um trabalho contínuo e consistente que faz a diferença na formação leitora dos sujeitos”, explica Sônia.

Na época, as indicações vieram da própria SME-Rio (da antiga Gerência de Mídia-Educação, então coordenada por Simone Monteiro), que partiu de quatro eixos orientadores para a observação e avaliação dos projetos: espaço, acervo, gestão e mediação, e considerou o recorte solicitado pela pesquisadora, de que fossem Salas de Leitura localizadas em unidades com Educação Infantil e, principalmente, Ensino Fundamental I.

“Apesar de o estudo ter sido realizado, sobretudo, em escolas com Ensino Fundamental I, sem dúvidas os fatores levantados se adequam perfeitamente a outros segmentos, porque são princípios da formação do leitor para se pensar o espaço de Sala de Leitura na escola”, adianta Sônia.

Para o estudo, foram realizadas visitas às escolas e entrevistas com professores e alunos. Entre as cinco Salas de Leitura indicadas, duas foram acompanhadas mais de perto pela pesquisadora, durante o período aproximado de um ano, em visitas semanais: a da E.M. Conde de Agrolongo, na Penha (4ª CRE), e a do Ciep Oswald de Andrade, no Parque Anchieta (6ª CRE).

Confira os fatores que levaram essas Salas de Leitura a alcançar visibilidade e reconhecimento, segundo as conclusões da pesquisadora:

Integração ao Projeto Político-Pedagógico (PPP)

Ao estarem presentes nos planejamentos, conselhos de classe e avaliações gerais sobre o trabalho da escola, as Salas de Leitura (SL) participam efetivamente da concepção do PPP. Assim, fortalecem o diálogo com a direção e com o corpo docente, ampliando a compreensão sobre o papel da SL, que não apenas envolve o apoio e o suporte mais direto a projetos de sala de aula, mas também um trabalho de formação do leitor e formação cultural no sentido mais amplo. Integradas ao PPP, as SL se fazem centrais, funcionando como uma teia, em relação ao todo da escola.

“A Sala de Leitura tem um lado de quem propõe e outro de quem se incorpora a todos os objetivos gerais da escola, sem ser apenas um suporte. Ela não é só uma continuação da sala de aula. Tem propostas próprias, que devem estar em diálogo com os princípios de formação do leitor e da escola”, ressalta Sônia M. Travassos.

Envolvimento das professoras

O perfil reflexivo das docentes, que repensam constantemente suas práticas, criam caminhos para aprimorar o cotidiano do trabalho e se posicionam ativamente frente aos entraves, foi outro fator levantado. A valorização e a apropriação que fazem das formações que participam, sejam cursos oferecidos pela SME-Rio ou outros, são destaques na fundamentação do trabalho.

Esse trabalho é, também, registrado em portfólios – para marcar o lugar da SL na história da escola, podendo ser revisitado e repensado – e divulgado por meio do Facebook e do WhatsApp, como forma de aproximar os leitores, ampliando a visão destes sobre a SL.

Constituição, organização e dinamização do espaço e dos acervos

Os espaços não são usados apenas para guardar os acervos. A forma como são pensados e ambientados revela a tentativa por parte do regente de Sala de Leitura de torná-los convidativos, criando locais que favorecem a circulação das crianças, considerando suas diferentes formas de ler – individualmente, ao lado de colegas ou ouvindo um leitor mais experiente, por exemplo – e reorganizando os espaços de acordo com as propostas que pretendem realizar – exibição de filmes, apresentações dos estudantes, visitas de autores, reuniões e estudos.

Sala de Leitura da E.M. Tobias Barreto (3ª CRE), no Encantado, 2017 (Foto: Alberto Jacob Filho)

Também foram notadas ações constantes de se criar espaços móveis de leitura pela escola, para permitir uma maior circulação dos livros entre alunos – que podem compartilhar esses momentos com seus pares, sem uma interferência maior dos adultos – e, até mesmo, entre professores.

Os acervos consideram critérios de diversidade e de qualidade, atendendo a demandas pontuais, que envolvem necessidades específicas relacionadas a algum projeto e ao gosto dos alunos. A produção dos alunos também integra o acervo e é dinamizada no espaço, garantindo às crianças um lugar de autoria.

Quanto à organização, diferentes coleções e arrumações destacam obras e instigam a vontade de ler, havendo muita preocupação com a sinalização dos livros, de forma a facilitar a busca por parte dos leitores.

Uma consideração feita por Sônia M. Travassos, no entanto, refere-se aos acervos de livros informativos, que, segundo ela, poderiam ser mais dinamizados nos espaços. “A pesquisa escolar também precisa fazer parte do projeto de formação de leitores que envolve a Sala de Leitura. Cabe resgatar esse projeto e aprimorá-lo”, pontua.

Práticas dirigidas sem fins didáticos imediatos

Ações que buscam a ampliação do repertório de leitura, da experiência estética e da formação cultural dos alunos, como leituras livres e empréstimos de livros, se fazem bem mais presentes do que práticas cujos objetivos são mais didatizantes.

Práticas de leitura oral compartilhada, mediadas pelas professoras, potencializam o imaginário das crianças, levam informações sobre as obras, propiciam o diálogo com os leitores e possibilitam novas criações. Entretanto, na opinião da pesquisadora, em alguns momentos essas mediações poderiam ser mais interlocutórias e menos verificativas. “Compreendemos que ler é deslocar-se, ir além do mundo que se conhece: quando numa mediação há o predomínio de perguntas verificativas para mera checagem de informações sobre o que foi lido, os deslocamentos dos sujeitos não ocorrem.”

Além dessas, são valorizadas práticas que apostam na autonomia das crianças, abrindo espaço para a participação ativa delas, conduzindo e mediando leituras e apresentando suas criações a outros leitores. “Nessas salas os alunos não são apenas receptores, mas colaboradores, agentes, conduzem projetos, inclusive. Em uma das escolas, havia um grupo de leitores de histórias, que entravam em outras turmas para ler e emprestar livros. É preciso entender que a criança tem potencial para receber leitura e ser agente da leitura junto com seus pares”, diz a escritora, em entrevista ao Portal MultiRio.

Articulação com o corpo docente da escola

A forma como os professores das turmas percebem o trabalho da Sala de Leitura é um diferencial. A articulação com o corpo docente da escola contribui para que o trabalho alcance notoriedade.

As SL destacadas criam ações de apoio aos projetos de sala de aula, fazem o acervo circular entre os demais professores da escola – ampliando suas possibilidades de leitura – e compartilham o conhecimento adquirido em formações específicas que recebem da SME-Rio (ainda que, na percepção de Sônia M. Travassos, seja necessário abrir mais espaços para estudos e trocas na escola).

Ciep Roberto Morena (10ª CRE), em Paciência, 2017 (Foto: Alberto Jacob Filho)

Promoção de ações e eventos culturais diversos

Ações de promoção da leitura junto à comunidade escolar apoiam-se na ideia de dar acesso ao livro e ampliar os circuitos para trocas culturais. As SL promovem eventos autorais – como saraus poéticos, mostras e festas literárias, cafés literários com os responsáveis, entre outros –, organizam ações para colocar as crianças em diálogo com autores e articulam visitas a outras bibliotecas.

“Na maior parte das escolas públicas, as crianças e suas famílias estão excluídas de muitas instâncias culturais, como museus, livrarias e bibliotecas. Então, se a escola não incentiva e promove essas trocas, os alunos ficam confinados em seus territórios”, explica a pesquisadora.

Continuidade das propostas e estabilidade dos docentes

A troca constante de professores na regência da Sala de Leitura faz com que, muitas vezes, o trabalho tenha que ser “começado do zero”. Por isso, a estabilidade dos docentes nessa função é um fator importante para que as SL alcancem reconhecimento e visibilidade. Assim, as propostas podem ser desenvolvidas de maneira contínua, o que confere mais identidade e solidez aos trabalhos.

“Se a cada ano um professor diferente está à frente da SL, é mais difícil que o trabalho seja consolidado. Além disso, o fato de esses regentes substituírem professores faltosos ou de licença também pode acabar interferindo e desarticulando o trabalho da SL”, destaca Sônia.

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