12 Novembro 2019
0
0
0
s2sdefault
 

 

Grupo de leitura na E.M. Antenor Nascente (6ª CRE), no Parque Anchieta (Foto: Arquivo da escola)

Clubes, círculos, oficinas ou grupos de leitura são algumas das denominações atribuídas a espaços de socialização de leitura e discussão de livros, rodas de conversa sobre obras de literatura. Trata-se da realização de reuniões regulares entre leitores, para conversarem sobre suas experiências de leitura. A realização desses clubes no ambiente escolar, vista como mais uma estratégia para a formação de leitores, é uma realidade em diversas escolas da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro.

“O objetivo desse tipo de atividade é conhecer o ponto de vista de cada um, partilhar a leitura, enriquecer o vocabulário e ampliar o conhecimento. Os alunos treinam o ouvir e o falar. É um momento terapêutico para nós. Esses alunos acabam tornando-se mais sensíveis, construindo um juízo critico por meio literário e também ampliando competências leitoras, com o despertar do prazer de ler”, explica Adriana Pina, professora da Sala de Leitura do Ciep Carlos Drummond de Andrade (7ª CRE), na Praça Seca.

“A proposição de clubes ou círculos de leitura tem como intenção a criação de espaços para discussão de uma obra lida, considerando a diversidade de possibilidades de construção de significados no ato de ler e as distintas formas de nos posicionarmos, uma vez que, em cada momento de leitura, nosso olhar se detém em aspectos diferentes do texto de acordo com o ponto de vista já vivido ou pretendido e com as variadas expectativas. Além disso, o interesse para expor as opiniões em público, sem a preocupação da avaliação como resposta certa, pode levar a uma maior dedicação individual, uma vez que a existência do encontro e a perspectiva do diálogo com outros leitores podem suscitar uma motivação que se faz presente sem que haja uma formalização para um preparo prévio”, defende Fernanda de Araújo Frambach, mestre em Educação e especialista em Literatura Infanto-juvenil, no artigo O Clube de leitura como estratégia para a formação de professores leitores.

Ainda de acordo com a autora, as regras de funcionamento e os processos de interação são variados. Os participantes podem seguir um roteiro com atividades para o acompanhamento da leitura, para a discussão e para o registro das conclusões; podem ser conduzidos por uma pessoa que oriente o processo de leitura e organize as atividades; ou, ainda, podem selecionar as obras e discutir sobre suas impressões de leitura por meio de conversas que ocorrem de forma livre, de maneira mais aberta.

Como criar um clube de leitura na escola: experiências na Rede

Creja: rodas de leitura semanais com obras escolhidas pelos estudantes (Foto: Arquivo pessoal da professora Valéria Poubell)

Nas escolas, é mais comum que grupos de leitura ocorram entre os alunos, orientados por uma professora – geralmente, a responsável pela Sala de Leitura. No Centro de Referência em Educação de Jovens e Adultos (Creja), além das rodas de leitura mensais – realizadas no horário da aula e nas quais são abordados autores ou obras que dialogam com o tema trabalhado pela escola –, são promovidos encontros de leitura semanais, com duração de uma hora a uma hora e meia, antes ou depois do horário da aula.

“Os alunos escolhem o título que querem ler e propõem para todo o grupo. Então, cada um lê uma parte. Quando há vários exemplares do livro selecionado, melhor. Se não, vamos passando a obra de mão em mão, para que cada um leia um trecho. Em seguida, discutimos o que foi lido, de maneira aberta. Os alunos são estimulados, mas não obrigados a falar. Ficam à vontade. Damos espaço para que eles sejam protagonistas, escolham o livro e conduzam o encontro”, explica Valéria Rosa Poubell, professora da Sala de Leitura, listando exemplos de obras lidas, como Kafka e  a Boneca Viajante, de Jordi Sierra, e uma versão de Os Lusíadas, que levou a uma visita dos estudantes ao Real Gabinete Português de Leitura, onde há um exemplar da primeira edição da obra de Luís Vaz de Camões, de 1572.

“As rodas ficam bem cheias, com cerca de dez alunos. Muitos não têm acesso a livros em casa e vêm a ter, pela primeira vez, aqui na escola. Então, eles chegam motivados, querem essa atividade, que os encoraja a aprender a ler e a escrever melhor. Para nós, da escola, é fantástico!”, entusiasma-se a professora.

Muitas das experiências de grupos de leitura na Rede acabam sendo desenvolvidas no âmbito das atividades da Sala de Leitura. Um dos critérios de escolha das obras pela professora responsável é a quantidade de exemplares disponíveis na escola. Nesse sentido, o projeto Livros em Movimento, da Gerência de Leitura da SME-Rio, que oferta uma quantidade maior de exemplares de determinado título, foi elogiado pela maioria das docentes entrevistadas, por permitir que se explore melhor a prática de leituras coletivas.

Eu, Meu Cachorro e Meus Pais Separados, de Letícia Sardenberg, ilustrado por Patrícia Melo, é um livro que temos em quantidade elevada. Então, fizemos rodas de leitura durante a aula, em que cada um lia um trecho e, ao final dos capítulos, discutíamos o assunto. Os alunos se identificaram muito”, conta a professora Laís Curvello, da E.M. Rivadávia Correa (1ª CRE), no Centro.

Quando a unidade possui poucos ou apenas um exemplar de uma obra, Laís lê para os alunos e aposta, também, em recursos audiovisuais. “No caso de Capitães de Areia, de Jorge Amado, eu li, exibi o filme, levei música, criei uma dinâmica mais voltada para o perfil dos alunos, adolescentes. Depois disso, eles quiseram saber quais eram as outras obras do autor e onde poderiam encontrar”, diz a professora, que também realiza rodas de leitura nas disciplinas eletivas que costuma oferecer, como, neste ano, na intitulada Uma conversa com Lygia Bojunga.

“No ano passado, foram emprestados cerca de 200 livros. Neste ano, até julho, já tinham sido contabilizados mais de 1100 empréstimos”, comemora Laís, que incentiva a leitura, também, por meio de um campeonato entre as turmas da escola, que considera o número de empréstimos de livros.

Rodas de leitura acontecem em diferentes espaços do Ciep Carlos Drummond de Andrade (7ª CRE), na Praça Seca (Foto: Arquivo pessoal da professora Adriana Pina)

No Ciep Carlos Drummond de Andrade (7ª CRE), unidade de turno único, o clube de leitura acontece com um grupo de 10 a 20 alunos interessados, no horário de almoço (entre 12h e 12h50).  “A gente expõe os livros e dá possibilidades de escolhas que variam de acordo com o projeto que estamos desenvolvendo na escola. Cada aluno leva o livro que mais se interessar para ler em casa e, duas ou três semanas depois, nos reencontramos, na sala ou em outros espaços da escola, para que cada um fale sobre a obra que leu. É um bate papo saudável, bastante democrático, leve e sem moralismos. O aluno fala o que sentiu, os pontos mais marcantes, e surge um debate, porque há semelhanças a algo que eles tenham vivenciado ou até confrontos com a realidade”, explica a professora Adriana Pina.

“Quadrados de leitura” é o nome dos encontros entre leitores na E.M. Antenor Nascentes (6ª CRE), em Parque Anchieta. A atividade acontece quinzenalmente e, para que o trabalho seja feito com um número menor de alunos, as professoras Fabiana Moreira e Márcia Porto fazem uma parceria com as professoras de Língua Portuguesa – Andreia Leal, Jailza de Oliveira e Liliane Neves.

“Dividimos a turma: metade fica em recuperação paralela em sala de aula e outra metade vem ao clube de leitura. Trabalhar com um número reduzido de alunos oportuniza um debate melhor. É um projeto regular que existe há três anos e é realizado a cada bimestre”, diz Fabiana.

As obras são selecionadas de acordo com o projeto da escola, considerando os livros com os quais os estudantes podem se identificar mais. “Fazemos uma leitura coletiva e, a cada encontro, um capítulo é trabalhado. Faço perguntas-chave para fomentar a discussão, mas os estudantes são livres para falar, comentar, perguntar. Desenvolvemos essa atividade com o 6º ano, para consolidar a alfabetização. São novos na escola, então, é importante para criarem vínculo com a Sala de Leitura”, explica a professora, que também costuma discutir individualmente com os alunos sobre obras lidas por eles.

Na EMAC Orsina da Fonseca (2ª CRE), na Tijuca, a professora Teresa Vitória Fernandes Alves realiza rodas na Sala de Leitura para discutir clássicos das literaturas brasileira e estrangeira, de autores como Machado de Assis e Edgar Allan Poe.

“Há turmas que preferem levar o livro para casa, para adiantar a leitura. Outras preferem ler de maneira coletiva, até mesmo interpretando os personagens, mudando a voz e usando adereços. A dinâmica, normalmente, segue um roteiro elaborado junto com a professora de Língua Portuguesa, mas os deixo livre, quem quiser, fala. Nada é imposto, se não a literatura não vai fluir”, relata Teresa, que, nas discussões, procura contextualizar os livros e trazer a discussão para temas da atualidade. 

Dificuldade na realização de clubes de leitura com professores

Segundo as professoras, é difícil conseguir realizar clubes de leitura entre os docentes. “Tentei implementar, mas os horários de planejamento são diferentes, não deu certo. Tenho esse desejo, para criarmos vínculos, para ampliar o conhecimento de mundo e, também, estimulá-los a trabalhar com literatura na escola”, conta Fabiana Moreira, da E.M. Antenor Nascentes.

“Com professores, fazemos formações voltadas para Literatura, sobre um autor ou obra específica. Acontece pelo menos uma vez a cada semestre, mas é mais difícil por conta do horário e da disponibilidade de cada um”, explica Valéria, do Creja.

A Arte dos Contos: leitura, rodas de conversa e produção textual entre a comunidade escolar

capa arte3Por meio do projeto A Arte dos Contos, desenvolvido pela SME-Rio e pela MultiRio, pais, responsáveis e profissionais da educação (professores, bibliotecários, gestores, coordenadores pedagógicos e funcionários de apoio) que convivem nas escolas de turno único da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro participaram de rodas de conversas literárias a partir da leitura prévia de contos de autores brasileiros renomados.

Após as leituras e discussões, os participantes foram convidados a produzir seus próprios contos – o que resultou na publicação do livro A Arte dos Contos, em dois volumes, sendo o primeiro com temas gerais, lançado em outubro de 2018, e o segundo voltado para os públicos infantil e juvenil, lançado no último dia 31.

Relacionados
Mais Recentes