02 Dezembro 2019
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Roda de samba na Pedra do Sal, Centro do Rio de Janeiro (foto: Alexandre Macieira / Riotur)

“A roda é o início de tudo − estava presente antes mesmo de o samba ser samba, é anterior a ele. Sua característica mais evidente é o clima doméstico, familiar”, define Roberto Murcia Moura em No princípio, era a roda: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. No livro, o pesquisador e jornalista traçou as diferenças entre o gênero musical chamado samba; a sua institucionalização, que é a escola de samba; e o ambiente que permitiu o surgimento do ritmo.

As primeiras rodas surgiram nas moradias festivas das tias baianas na Praça Onze - destruídas com a construção da Avenida Presidente Vargas –  e continuam sendo um ritual que preserva e atualiza o que está em sua origem, segundo Roberto Moura.

O Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, publicação do Centro Cultural Cartola, elaborado por pesquisadores com a consultoria de especialistas, conta que a alma doméstica e comunitária da roda foi incorporada aos terreiros das escolas de samba, fundadas a partir do final da segunda década do século passado. A partir dos anos 1970, no entanto, esse clima foi alterado pelo crescimento das agremiações e do desenvolvimento comercial das mesmas. Este é um dos motivos apontados por sambistas para a redução do espaço para as rodas de samba tradicionais nas quadras.

“Roda era o seguinte: cada um tem que ter uma música, estar fazendo um samba no partido. Chegava lá, começava a cantar. Chamava dois ou três e tocava um pagodezinho, aí batia pra gente e a gente começava... junto com ele. Aí quando ele já ‘tava bem batido, é, bem batido, a gente levava pro instrumento. Aí já começava a bater no instrumento...” , diz o depoimento de Xangô da Mangueira (Olivério Ferreira, 1923-2009) para o Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.

A roda permanece na cena dos sambistas cariocas, mas deslocada de lugares tradicionais de manifestação. Rodas de samba tradicionais, ou “de raiz”, como os próprios sambistas se referem a ele, acontecem, por exemplo, em bares e centros culturais na Lapa, no Centro, atraindo jovens de todas as classes sociais que querem ver, ouvir e prestigiar mestres como Tantinho da Mangueira. Nas quadras das escolas, é mais difícil ouvir o partido- alto e o samba de terreiro.

“Na Mangueira não tem mais. Não tem nem samba de terreiro, quanto mais partido-alto. Então, na Mangueira não tem mais porque a Mangueira não está preocupada em formar garotos partideiros, garotos compositores que façam samba de terreiro. Eu já me ofereci pra fazermos uma oficina”, diz Tantinho (Devanir Ferreira, nascido em 1947) no Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.

Partido-alto, samba-enredo e samba de terreiro

O partido-alto se define diretamente por características formais musicais e poéticas; o samba-enredo se caracteriza principalmente por sua função; e o samba de terreiro, pelo seu contexto, ou seja, pelo fato de ser um tipo de samba que ocorre no terreiro.  

Segundo o dossiê, terreiro, amplamente definido, foi e é um espaço sociocultural de grande importância para o samba. ‘Terreiro’ pode ser o quintal de Tia Ciata, do mesmo modo como a palavra designa popularmente a casa de candomblé, e pode se referir também aos fundos de quintal dos subúrbios cariocas. As rodas de samba que agregavam, e ainda agregam, parentes, amigos, vizinhos num grande congraçamento afetivo e musical funcionavam e ainda servem, atualmente, como momentos de intensas trocas culturais realizadas, sobretudo, através da música. Assim, o terreiro do samba é um espaço de sociabilidade, no qual os sambistas se encontram, trocam ideias, histórias e sambas.

Em um sentido mais restrito, designa especificamente a área comum de uma escola de samba. O samba de terreiro define-se como aquele feito para consumo interno das escolas de samba ou, por assim dizer, como o lado de dentro do samba organizado. A roda de samba, quando no terreiro, é, então, mais específica do que outras rodas de samba, pois está associada à estrutura das escolas de samba e às suas formas de organização social e musical. À medida que as escolas sofreram transformações em sua estrutura, os terreiros se transformam em quadras e a denominação “samba de terreiro” perdeu sua força, consequência da queda de prestígio dos próprios sambistas no poder interno das escolas, defende o dossiê. A roda é o principal meio de transmissão do saber/fazer no samba tradicional e a diminuição do número de espaços comunitários para a sua manifestação é visto pelos sambistas como algo preocupante.

“Tem muito samba de terreiro por aí, e muita gente cantando. Mas nas escolas de samba sumiram. As escolas acham que não é negócio. Preferem samba de comunicação, que toca no rádio, samba-enredo dos anos anteriores (....) As pessoas me mostram as letras, mas vai cantar onde? Só em roda de samba! O Moacyr Luz está dando oportunidade para a garotada”, segundo Wilson Moreira (nascido no bairro de Realengo,  1936 – 2008), em depoimento para o Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.

Prefeitura lança calendário de rodas de samba no Rio

Samba na Roda é uma série da MultiRio que recebe grupos de todas as regiões da cidade (foto: Alberto Jacob Filho)

Os secretários de Cultura; Fazenda; e Emprego, Desenvolvimento e Inovação instituíram o calendário das rodas de samba no município, que busca facilitar a realização de 250 rodas por toda a cidade.

A série da MultiRio Samba na Roda também promove esse movimento cultural. Semanalmente, os estúdios da Web Rádio recebem grupos cadastrados na rede de rodas de samba da Prefeitura do Rio de Janeiro, apresentando músicos de diversas rodas de samba da cidade, que tocam composições do repertório carioca. Os programas podem ser acompanhados ao vivo no Facebook ou por meio de podcasts.

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