23 Janeiro 2020
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Usar o vaso sanitário requer várias habilidades fisiológicas e cognitivas. Ilustração: Andre Leão, MultiRio

Aprender a utilizar o peniquinho e o vaso sanitário faz parte do desenvolvimento infantil. O controle dos esfíncteres anal e uretral é uma habilidade de autonomia e integra uma etapa de grandes mudanças físicas e cognitivas pelas quais passam as crianças. Ter capacidade de ir até o banheiro, tirar e colocar a calcinha/cuequinha, usar o papel higiênico, apertar a descarga e lavar as mãos é, na verdade, uma competência que envolve várias habilidades, além do controle esfincteriano, tais como motoras, de locomoção, de linguagem, de compreensão do significado dos sinais enviados pelo corpo e de aprendizagem das regras sociais e de higiene.

Segundo a neuropsicopedagoga Neide Barros, a criança está apta a iniciar a aprendizagem dessa competência entre 18 meses e três anos, quando começa a ter o controle dos esfíncteres. E deve estar pronta para ir ao banheiro sozinha até os cinco.  “A tarefa não é complicada. Se não existir nenhum problema de ordem física, o controle esfincteriano vai acontecer ainda que ninguém ensine, porque faz parte do desenvolvimento fisiológico. A questão é que rotinas, regras socioculturais e situações emocionais se relacionam com o processo, de forma que é preciso ter um olhar atento para que a criança passe por essa fase de forma saudável, sem sequelas”, diz.

Neide Barros lembra que alguns bebês desfraldam de forma mais lenta e que essa variação de tempo é normal: "Para abandonar a fralda, o bebê necessita se sentir seguro e tranquilo para perceber que quer fazer suas necessidades fisiológicas e calcular o tempo que precisa para chegar ao banheiro. Em média, é a partir dos dois anos e meio que a criança já comanda os esfíncteres, que são estruturas que controlam a abertura e o fechamento da uretra e do ânus".

Impactos emocionais

Não é incomum ouvir da família e de profissionais de creches ou escolas que “a criança regrediu” no processo de aprendizagem de usar o vaso sanitário ou o peniquinho para fazer suas necessidades fisiológicas. De acordo com a neuropsicopedagoga, o retardamento da aprendizagem costuma acontecer quando a criança sofre algum impacto emocional, como, por exemplo, ganhar um novo irmãozinho ou passar por separação dos pais, entre outras possibilidades. Não se trata de a criança querer ser bebê de novo, mas do processo que envolve a aprendizagem, inclusive o de saber lidar com a frustração. Em artigo publicado pelo Instituto Pensi, a neurologista infantil Marcília Lima Martyn lembra que 50% do desenvolvimento cerebral – o que inclui as funções cognitivas – dependem da experiência individual, ou seja, das trocas realizadas com as pessoas e o mundo ao longo da vida.

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A neuropsicopedagoga Neide Barros. Foto: Alberto Jacob Filho, MultiRio

Segundo Neide Barros, há situações em que há necessidade de retroceder o processo de desfralde para que ele ocorra de forma tranquila. Alguma vezes, o melhor é interropê-lo, como nos casos de doenças agudas ou em que a criança está muito assustada. "Se ela começa a fazer cocô e xixi em todos os lugares ou a segurar demais as fezes, é porque alguma coisa não vai bem e que precisa de mais tempo. O desfralde é o momento em que a criança percebe que não é mais um bebê. E isso pode ser angustiante, dependendo da forma como o processo está ocorrendo e sendo compreendido".

Por isso, a parceria com a família é tão importante na aprendizagem do uso do banheiro. É fundamental entender o motivo do retardamento: é psicológico, fisiológico ou de estímulo incorreto? As rotinas de sono, alimentação e higiene também interferem diretamente no processo. Não dormir bem, de forma frequente, pode afetar as funções cognitivas, da mesma forma que a má alimentação afeta o funcionamento do intestino e a falta de higiene, a saúde do corpo e a interação social. É ainda importante saber que as meninas costumam ter mais facilidade para aprender o uso do peniquinho e do vaso sanitário que os meninos. Acredita-se, diz Neide Barros, que isso se deve a um fator cultural: “Os meninos urinam de pé e evacuam sentados. Já as meninas fazem as duas coisas em uma só posição, o que facilita muito”. Além dessas questões, escola e família precisam estar em sintonia para não confundir a criança. "Ela não entenderá porque tem que ficar sem fralda na escola, mas tem que usá-la na hora de ir, por exemplo, ao shopping".

Cuidados

O processo de desfralde requer certa delicadeza, já que a urina e as fezes são dejetos que saem de dentro da criança e é preciso desenvolver hábitos de higiene relacionados ao ato de expeli-los. O assunto, segundo a neuropsicopedagoga, necessita ser tratado com naturalidade, sem demonstrações de repugnância para que a criança não associe o asco à sua própria identidade. “O cocô e o xixi saem de dentro dela. Uma fala equivocada pode gerar associações indesejadas”, diz. Ao mesmo tempo, como se trata de higiene, é preciso que a criança entenda que não se trata de algo limpo, mas da parte inservível daquilo que se ingere e que o corpo precisa expulsar.

Forçar ou pressionar a criança a usar o penico ou o vaso sanitário pode gerar sequelas, como ansiedade, insegurança e pânico de ter que fazer as necessidades fisiológicas e, em consequência, sofrer de prisão de ventre, de baixa autoestima e  se sentir uma pessoa incapaz. “Em casos graves, pode até haver dissociação, ou seja, a criança não aceita que as fezes e a urina sejam suas, transferindo a culpa para outra pessoa”, explica Neide Barros.

Estímulos

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A criação de hábitos de higiene fazem parte do processo de desfralde. Ilustração: Andre Leão, MultiRio

A autonomia, o autoconhecimento e o autocuidado integram as dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O uso do vaso sanitário e a higiene devem ser tratados dentro do contexto da BNCC, pela creche e pela escola, como qualquer outra vivência que se relacione com essas competências. A neuropsicopedagoga Neide Barros diz que a escola e os professores devem incentivar o desfralde e lembra que o universo das crianças é lúdico. “Brincadeiras e oficinas de apresentação do peniquinho podem ser atividades interessantes, quando se percebe que a criança já começa a ter o controle dos esfíncteres”.

A pedagoga Catharina Baptista ainda afirma que a utilização de alguns objetos estimula e facilita a autonomia da criança. Um redutor de vaso sanitário e um degrau, por exemplo, tornam o acesso à privada e à pia mais fácil para os pequenos. Mictórios infantis – há vários que se fixam à parede do banheiro por meio de ventosas e adesivos – também descomplicam a vida dos meninos.

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