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Midiaeducação
16 Julho 2020
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Unidades de ensino (escolas e núcleos de arte) da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro desenvolvem atividades em midiaeducação (foto: Alberto Jacob Filho)

A midiaeducação é um campo conceitual e prático que vem se constituindo nos últimos 70 anos. Apesar das tensões entre as diferentes concepções que trabalham com o tema, há um consenso de que a busca é por um sujeito ativo, crítico e criativo, com maiores condições de acessar, compartilhar, analisar, produzir e disseminar informações. Um indivíduo que realize escolhas mais críticas e conscientes sobre o que deseja ler, ouvir, assistir ou produzir. Além disso, a indicação de que a escola deva se apropriar da dimensão midiaeducativa no processo de ensino tem sido reconhecida e reforçada no meio educacional.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta, em suas dez competências gerais, três que estão intimamente relacionadas ao campo da midiaeducação, pois se referem ao repertório cultural, à comunicação e à cultura digital. A área de Linguagens da BNCC, mais especificamente, recomenda desenvolver a habilidade de "compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares), para se comunicar por meio das diferentes linguagens e mídias, produzir conhecimentos, resolver problemas e desenvolver projetos autorais e coletivos". Ainda segundo o documento, a disciplina Língua Portuguesa, deve contemplar a cultura digital em diferentes linguagens e letramentos, desde aqueles basicamente lineares, com baixo nível de hipertextualidade, até aqueles que envolvem a hipermídia.

Rosália Duarte, coordenadora do grupo de pesquisa Educação e Mídia da PUC-RJ, considera que a "proximidade dos estudantes com a internet durante a pandemia é ganho e não perda. A escola precisa ensiná-los a lidar com a tecnologia. Habilidades são conhecimentos para sempre, ampliam muito o que a escola oferece. A escola é uma pequena parte do mundo, os alunos podem ter acesso a muito mais, de acordo com as trilhas que percorram", disse em entrevista ao Portal MultiRio.

A especialista coordenou a pesquisa Projetos e práticas de mídia-educação nas escolas públicas municipais do Rio de Janeiro, fruto da parceria entre a SME-RJ, o Instituto Desiderata e a PUC-Rio. Desenvolvido entre os anos de 2015 e 2017, o estudo evidenciou que práticas de midiaeducação estão sendo desenvolvidas desde os anos 1980 na rede municipal. A pesquisa contou com questionários preenchidos pela maior parte dos gestores(as) de 1009 escolas e também com visitas a oito unidades que desenvolvem práticas midiaeducativas diversificadas. Os resultados indicaram que a midiaeducação estava presente em mais de 90% das escolas da rede, prevalecendo, amplamente, práticas de análise de conteúdos de produtos das mídias de massa (materiais audiovisuais; textos do jornalismo on-line; telejornalismo) e, em menor escala, de conteúdos de redes sociais. "No entanto, a produção de mídias pelos alunos é pouco usual nas escolas, assim como o uso de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) nas práticas pedagógicas. Os resultados indicam que as propostas formuladas pela SME-RJ para essa área, nos anos 1990 (sob influência das diretrizes para a media education, sistematizadas pela Unesco), estão fortemente presentes nas práticas escolares" escreveram Rosália e equipe.  

Foto: Alberto Jacob Filho

Rosália avalia que a rede pública municipal do Rio de Janeiro já possui uma prática consolidada de midiaeducação como objeto de análise crítica dos conteúdos produzidos por outros agentes. Ela sugeriu que a Rede, agora, intensifique os esforços para promover a apropriação das linguagens digitais pelos alunos, em uma perspectiva mais autoral, tendo em vista que o ambiente virtual se caracteriza, cada vez mais, por ser “de todos para todos”.

Para a pesquisadora, a política pública mais relevante nesse campo seria prover as escolas públicas com internet de banda larga de alta qualidade – “90% dos problemas estariam resolvidos, já que hoje em dia até a TV tem wi-fi. Roteadores podem espalhar o sinal pela instituição, como fazem os bancos e as universidades.”

Caminhos da SME-RJ

A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro investe no campo da midiaeducação desde a década de 1990. A própria criação da MultiRio, em 1993, vinculada à Secretaria Municipal de Educação, é um marco nesse sentido. Os objetivos iniciais da empresa pública destacavam a produção de conteúdos em diferentes mídias e a formação de profissionais da educação para a utilização das mídias em sala de aula. Em 2020, a MultiRio confirma sua atuação na promoção de ações educativas em diferentes meios tecnológicos, articulados com a política municipal de educação.

Em 1996,houve a publicação do Núcleo Curricular Básico Multieducação, documento-base para orientar as escolas municipais do Rio na criação e organização de seus Projetos Político Pedagógicos. Entre os fascículos, há um dedicado exclusivamente à midiaeducação. Outra iniciativa da SME ligada às tecnologias digitais foi o Programa de Informática, implantado entre 2001 e 2008. A parceria entre a Prefeitura do Rio e o Anima Escola (braço educativo do Festival Anima Mundi) possibilitou a formação de 2.300 professores da Rede na linguagem da animação ao longo dos anos em que foi desenvolvida.

Atualmente, o projeto Cineclube nas Escolas proporciona, além da fruição e da análise de filmes, a aprendizagem dessa linguagem específica e seus recursos para desenvolver projetos autorais. A plataforma Rioeduca, outra iniciativa da SME, congrega virtualmente a comunidade escolar, na medida em que é um local onde os professores podem estar a par dos cursos oferecidos pela SME-RJ, assim como publicar experiências bem sucedidas e buscar informações oficiais. Em tempos de isolamento social, o aplicativo SME Carioca 2020 está disponibilizando material de complementação escolar para o período sem aulas nas unidades escolares, orientando os professores sobre conteúdos a serem desenvolvidos virtualmente com suas turmas e também os responsáveis, que podem desenvolver atividades com suas crianças e adolescentes.
 
Marcos históricos

Segundo Monica Fantin, doutora em Educação pela UFSC, onde também é professora, a midiaeducação nasceu e se desenvolveu paralelamente à formação da indústria cultural ao longo das primeiras décadas do século XX. A partir dos anos 1960, ganhou força a concepção de midiaeducação como leitura crítica dos meios. Em 1973, surgiu a primeira definição oficial, dada pelo Conselho Internacional do Cinema e da Televisão, ligado à Unesco, que reconhecia a escola como lugar específico da midiaeducação.

Em janeiro de 1982, a UNESCO promoveu uma reunião, em Grünwald, na Alemanha, com representantes de 19 países. Essas nações fizeram uma declaração comum sobre a importância das mídias e a obrigação de os sistemas educacionais ajudarem os cidadãos a melhor compreenderem estes fenômenos. O termo midiaeducação foi consagrado e sua necessidade reafirmada como sendo fundamental na promoção da cultura contemporânea e tendo função instrumental na promoção da participação ativa do cidadão na sociedade. A Declaração de Grünwald enfatizou a responsabilidade dos sistemas nacionais de promoverem nos cidadãos uma compreensão crítica dos fenômenos de comunicação.

A declaração de Grünwald foi um marco, porque a noção de midiaeducação proposta neste documento foi além das anteriores, caracterizando-se como uma “alfabetização”(literacy) alargada, com uma abordagem mais integrada do ensino da linguagem e da comunicação e mais ampla, em termos de suportes técnicos, abrangendo todas as mídias modernas. O foco, a partir daí, não foi mais o uso pedagógico ou didático das mídias, mas as experiências midiáticas dos jovens fora da escola para, a partir delas, ensinar sobre as mídias.

Em 1999, houve a conferência Educando para as mídias e para a era digital, em Viena, na Áustria, também promovida pela Unesco. Nessa ocasião, foi reafirmada a convicção de que a midiaeducação e a participação das crianças e adolescentes são caminhos necessários e simultâneos para a realização efetiva da Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, especialmente os direitos relacionados à liberdade de expressão (artigo 13), à informação (artigo 17) e à participação em decisões sobre assuntos que lhes dizem respeito (artigo 12).

Os professores são fundamentais em qualquer Projeto Político Pedagógico (foto: Alberto Jacob Filho)

No Brasil, em 2004, aconteceu pela primeira vez na América Latina a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Era a quarta edição do evento. Regina de Assis, presidente da MultiRio na época, teve papel fundamental na vinda da cúpula para o Rio de Janeiro, que a Prefeitura do Rio viabilizou financeiramente. O encontro teve como objetivo analisar e propor formas de garantir a qualidade da produção, distribuição e divulgação de mídia para crianças e adolescentes, bem como assegurar mídia de qualidade que faça parte do intercâmbio cultural, educacional e comercial de todo o mundo.

Em 2007, a Agenda de Paris reafirmou a convicção de que a midiaeducação deve ser parte da formação para a cidadania, indispensável para que a sociedade “da informação seja plural, inclusiva e participativa (novos aspectos da democracia)”. O documento dá ênfase ao papel dos sistemas educacionais na promoção da midiaeducação e à importância de integrar a midiaeducação na formação inicial de professores. A conferência também afirmou que a midiaeducação é um direito fundamental da humanidade.

As multitelas do século XXI

Segundo Pier Cesare Rivoltella, especialista em midiaeducação da Universidade Católica de Milão, a sociedade atualmente se caracteriza por ser “multitela”, ou seja, os novos modos de ver, saber e habitar no mundo se dão pelas telas – as clássicas do cinema, da televisão e do computador, acrescidas das telas do celular, dos videojogos, dos smartphones e dos tablets. Para ele, essas novas formas de intermedialidade demandam novas pesquisas e reflexões sobre as possibilidades de pesquisa e de intervenção educativa na perspectiva de uma cidadania digital.

Um exemplo recentemente divulgado pela MultiRio desse tipo de intervenção proposto por Rivoltella é o do professor Diego Braga, cujo vídeo (produzido pelos alunos, sob a orientação do professor) venceu na categoria Alunos do 1º ao 5º ano do Festival MultiRioFilme – Rio Contra o Corona. O festival é uma das iniciativas da MultiRio para fortalecer a midiaeducação nas escolas. Mas essa história já é o tema da próxima reportagem da série sobre midiaeducação. Não perca!


Fontes:

BNCC

BÉVORT, Evelyne e BELLONI, Maria Luiza. Mídia-educação: conceitos, história e perspectivas. In: Revista Educação & Sociedade, Unicamp, vol. 30, n. 109, p. 1081-1102, set./dez. 2009

DUARTE, Rosália et al. Projetos e práticas de mídia-educação nas escolas públicas municipais do Rio de Janeiro. ResearchGate. 2019

FANTIN, Monica. Mídia-educação: aspectos históricos e e teóricos metodológicos. ResearchGate. 2

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