29 Outubro 2020
0
0
0
s2sdefault
 
Imagem: iconicbestiary/ br.freepik.com

A 5ª edição da Retratos da Leitura no Brasil  realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em setembro deste ano, apontou redução no percentual de leitores em todos os segmentos.

A redução mais expressiva foi observada na faixa entre 14 e 18 anos, de 75% para 67%. Já a boa notícia foi a ampliação de 67% para 71% no percentual de leitores entre 5 e 10 anos. Mas o que isso pode indicar? 

“A revelação de que houve elevação no percentual de leitores entre 5 e 10 anos e que quase a metade das crianças gostam muito de ler traz esperança e inquietação: por que a partir dos 18 anos o percentual de quem não gosta de ler aumenta de forma acentuada, passando de 3% a 20%? O que estamos deixando de fazer ou onde estamos errando, em especial quando esses jovens concluem o Fundamental II e chegam ao Ensino Médio?”, questiona Zoara Failla, coordenadora da pesquisa.

“Seriam os livros infantis mais atraentes e identificados como leituras prazerosas, ao mesmo tempo em que as leituras indicadas pela escola não conseguem despertar esse prazer ou gosto pela leitura? As famílias percebem a importância de estimular a leitura enquanto crianças, mas têm mais dificuldades para atuarem como mediadores ou influenciadores com os filhos adolescentes?”, continua.

Segundo ela, as respostas para essas perguntas devem ser buscadas no cenário do ensino básico. Um caminho, seguido por muitos estudos, é analisar os principais desafios para a formação leitora ou o letramento literário nas escolas do ensino básico, entre eles, o perfil leitor do professor.

“Promover a leitura, em especial entre jovens, exige do professor, como um mediador, o gosto pela leitura e um grande repertório para identificar, indicar e compartilhar suas experiências e emoções. Tendo esse repertório, o professor pode atrair e conquistar esses novos leitores, em especial quando identificamos que o uso do tempo livre está sendo atraído pelas redes sociais”, destaca.

A pesquisa revela que entre os livros lidos pelos 736 professores e trabalhadores da área de Educação entrevistados (8% da amostra), as preferências são muito semelhantes às da população em geral. A Bíblia aparece em primeiro lugar, com quase cinco vezes mais citações do que o segundo colocado.

Ao serem analisados os autores do último livro lido, entre os cinco mais citados, somente um clássico, Machado de Assis.

“Outros religiosos ou autoajuda aparecem com mais frequência entre os mais citados. Apesar de a amostra ser pequena, esse perfil nos mostra o tamanho do desafio.”

Sugestões de livros: professores indicam obras que marcaram suas trajetórias

Professores são quem mais influencia o gosto pela leitura em crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, segundo a Retratos da Leitura no Brasil. Pensando nisso, o PORTAL MULTIRIO pediu para que dez professores da Rede Pública Municipal de Ensino, de diferentes segmentos e disciplinas, indicassem, livremente, uma obra.

Confira quais foram os livros sugeridos e porque eles foram considerados interessantes, relevantes e/ou um marco na trajetória de cada docente.

1) Quarto de despejo – Diário de uma favelada
Autora: Carolina Maria de Jesus 

Simone Ricco

“Nas 191 páginas do livro, Carolina Maria retrata a rotina de uma mulher negra, favelada, catadora de lixo, que vivia com os filhos, sem um marido, em condições de precariedade. E que, mesmo com escolaridade muito pequena, mostrou sensibilidade, criatividade e força em sua criação literária.

No livro, em formato de diário, a autora mostra o lado mais rude da existência na favela. A primeira anotação foi feita em 15 de julho de 1955 e a última no dia 1º de janeiro de 1960. O relato traz uma carga de humanidade, uma forma bonita de ler coisas que são trágicas e tristes de serem vividas. A fome é uma delas – e ela fala muito disso. Carolina Maria diz, por exemplo, que o Brasil, para ‘ter jeito”, deveria ser governado por alguém que já experimentou o que é a fome.

Durante a leitura, vamos reconhecendo um Brasil que, infelizmente, nos é muito familiar, marcado por desigualdade sociais e pela fragilidade na escolarização, que gera pessoas com uma escrita menos normativa, como a de Carolina, mas que também podem ocupar o lugar de autoras. Carolina o faz pelo domínio da linguagem e pela criatividade, e não pela perfeição nas regras da Língua Portuguesa.

É uma experiência de leitura muito sensível. Tem humor, poesia, momentos de reflexão e nos ajuda a perceber como vem sendo a vida de boa parte da população negra ao longo da História do Brasil.

Para Carolina, a escrita e o lançamento desse e de outros livros foram transformadores para que ela experimentasse, pelo menos por um curto tempo, uma outra uma outra posição nessa sociedade que coloca a população negra num lugar muito cruel, marcado pela exclusão. Ela subverteu essa situação de privação com abundância de criatividade, de sagacidade, de percepção, de ironia.

Os livros nos trazem material para transformar a realidade.”

Simone Ricco, professora de Língua Portuguesa na E.M. Nações Unidas (8ª CRE), em Bangu.

 

2) Ideias para adiar o fim do mundo
Autor: Ailton Krenak 

Valeria Poubell

“Essa leitura suscitou em meu pensamento muitas reflexões acerca do contexto atual pandêmico em que vivemos, no qual as forças da natureza se manifestam nos fazendo repensar as diferentes relações entre o Homem e a natureza. É uma obra muito especial para mim. Tive contato com ela no final de 2019. 

No livro, o escritor indígena Ailton Krenak nos lembra que os indígenas lutam pela sobrevivência há mais de 500 anos – e seguem firme nessa luta, ainda que muitas vidas indígenas tenham sido sacrificadas.

A obra nos dá uma lição. Levei muitos ‘socos no estômago’ com a leitura desse livro, mas que me fizeram acordar, sair da bolha e perceber que, por vezes, nos acomodamos. A leitura é simples em termos de língua escrita e muito prazerosa também. É uma adaptação de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal, entre 2017 e 2019.”

Valeria Rosa Poubell, professora da Sala de Leitura do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja).

 

3) O mundo no black power de Tayó
Autora: Kiusam de Oliveira
Ilustrações: Taisa Borges 

Adriana Magdaleno

“É uma obra-prima da literatura brasileira, que desperta muita emoção em nós, professores, e nas crianças também. Percebemos que a criança se sente representada nessa história, por meio da beleza de Tayó, personagem que tem 6 anos de idade.

O livro aborda a temática da valorização da estética e da cultura da menina, descendente de ancestrais africanos que chegaram ao Brasil. Vemos um discurso sobre ancestralidade, sobre a importância da valorização dos ancestrais e da história da família de Tayó.

O diálogo acontece enquanto a mãe prepara e enfeita com flores o cabelo da filha. No final da história, a conclusão é que todas as meninas são princesas e que seus penteados são coroas reais. Que elas precisam valorizar e mostrar ao mundo a beleza que elas têm.

É de uma sensibilidade e delicadeza incríveis! Além de a história ser linda, a ilustração de Taisa Borges é maravilhosa! O livro mescla a delicadeza, a força e a importância da representatividade étnico-cultural em nossas histórias. Amo ler e reler Kiusam de Oliveira.”

Adriana Soares Magdaleno, da Gerência de Educação da 2ª CRE, professora de Sala de Leitura na E.M. Sergio Vieira de Mello, no Leblon.

 

4) Mapas literários: o Rio em histórias
Autora: Ninfa Parreiras (org.) 

Vera Bastos

“O livro foi publicado em 2015, quando a cidade do Rio de Janeiro completou 450 anos. É lindo, tanto pelo projeto gráfico, quanto pelos 22 contos que o compõem. Cada conto homenageia um bairro da cidade e uma personalidade daquele bairro. É um verdadeiro diálogo entre a vida de um lugar com a nossa vida.

Nele, podemos ler o Rio: natureza, histórias, contrastes sociais, abandonos, arquitetura, amores... Histórias ficcionais ou baseadas em fatos reais eternizam a memória dos escribas e dos apaixonados pela cidade, cariocas de nascença ou não.

A reunião de autores consagrados, como Machado de Assis, Marina Colasanti, Lygia Bojunga e Nei Lopes, com escritores novos traz uma mistura de olhares e de estilo bem interessante.

A leitura de cada conto possibilita a viagem por sentimentos, por sensações e por histórias. Cada conto nos é apresentado com uma foto antiga do espaço que será cenário da narrativa. E ao final, temos, ainda, belíssimas pinturas de Agostinho Ornellas, que ilustram de forma peculiar o Rio.

Há presença do lirismo, do fantástico, do saudosismo pelo Rio Antigo, da primeira paixão, do riso, de personagens famosos ou não, em narrativas que desenham a cidade, tão múltipla e encantadora.”

Vera Bastos, professora de Língua Portuguesa na EMOC Nelson Prudêncio (11ª CRE), na Ilha do Governador.

 

5) Casa das Estrelas – O Universo contado pelas crianças
Autor: Javier Naranjo
Ilustrações: Lara Sabatier 

Wallace Benjamim

“É um livro belíssimo! O Javier foi professor de Espanhol do Ensino Fundamental na Colômbia, e reuniu palavras e significados dados pelas crianças. São definições que nos emocionam, nos espantam, nos colocam para refletir. 

Essas falas foram o que mais me marcou na leitura da obra. Nós, adultos, sempre achamos que as crianças são neutras, que são ‘esponjas’ absorventes e reprodutoras de tudo. Mas esse livro nos leva a desfazer essas ideias e aceitar que as crianças leem de forma crítica tudo em volta.
As crianças pensam, as crianças filosofam, as crianças colocam à prova tudo o que chega a elas, ressignificam.

Conheci a obra em uma formação sobre infância. Tivemos a oportunidade de conversar sobre filosofar com crianças e o livro entrou na roda.
Esse livro me deu de presente uma sensibilidade maior sobre o que pensam as crianças sobre o universo, a Casa das Estrelas.”

Wallace Benjamim, professor da Educação Infantil no EDI Medalhista Olímpico Éder Francis Carbonera (4 ª CRE), na Maré.

 

6) Meus heróis não viraram estátua
Autores: Luiz Bolognesi e Pedro Puntoni 

Daniele Rodrigues

“Minha curiosidade pelo livro foi despertada em 2012, na sessão especial para educadores do filme de animação Uma História de Amor e Fúria, do mesmo autor do livro, Luiz Bolognesi – que lançou simultaneamente as duas obras. O filme, que participou da pré-seleção do Oscar de melhor animação, propõe o desafio de repensarmos criticamente como aprendemos a História do Brasil.

Meus Heróis não Viraram Estátua mantém o viés de provocação, mas com roteiro e cenário diferentes. Trata-se de uma literatura juvenil, que tem como pano de fundo a história de um casal de adolescentes que passa por uma crise no namoro e resolve analisar o que provocou a crise. Eles descobrem que um acontecimento pode ter mais de uma versão e diversos pontos de vista sobre uma mesma situação.

Os autores narram que assim acontece, também, na História: há vários pontos de vista, versões e interesses em jogo, apesar de, geralmente, só um lado da história prevalecer – o lado dos mais poderosos e influentes. E assim é a escolha dos ‘heróis’ que compõem os diversos monumentos.

Os supostos heróis são eternizados na forma de estátuas colocadas em locais públicos, para serem vistos e internalizados na memória das pessoas como eternos e verdadeiros merecedores de todas as honrarias. O livro questiona por que quase não existem estátuas de líderes de movimentos populares. E, quando existem, muitas vezes são depredadas, como o caso do monumento de Zumbi dos Palmares, na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio. A estátua sofreu diversos ataques ao ponto de precisar de vigia da guarda.

A minha história com esse livro vai mais além. Em 2014, ao cobrir a licença médica de uma professora do 5º ano, desenvolvi uma aula com o livro. Li com os alunos, realizamos um debate e assistimos ao DVD Lutas.doc, que acompanha o livro. Por fim, cantamos o funk Tá Tudo Errado, da dupla Mc Júnior e Léo. Toda a aula foi filmada e eu enviei o registro para o autor Luiz Bolognesi. Ele e sua esposa, a diretora de cinema Laís Bodanski, elogiaram a minha aula e o interesse e participação dos alunos.”

Daniele Rodrigues, coordenadora pedagógica no Ciep Poeta Cruz e Sousa (8ª CRE), em Padre Miguel.

 

7) Maria-vai-com-as-outras (1) e Contos e lendas de um vale encantado (2)

Sandra Vieira da Costa

Autores: Sylvia Orthof (1) e Ricardo Azevedo (2) 

“O primeiro livro narra de forma leve e divertida a história de Maria, uma ovelha que segue as outras ovelhas. A autora usa o humor para falar de um assunto sério. Embora apresente uma linguagem simples, a obra pode ser indicada para crianças de várias idades.

Em Contos e lendas de um vale encantado, o autor faz um passeio pelo Brasil, registrando contos maravilhosos e divertidos, que fazem parte da tradição oral. Excelente para apresentar a riqueza da nossa cultura.”

Sandra Vieira da Costa, professora da Sala de Leitura Polo da E.M. Bahia (4ª CRE), em Bonsucesso.



8) 1822
Autor: Laurentino Gomes 

Juliana Couto

“Todo brasileiro deveria conhecer melhor a História do seu país, sem rótulos e ideias românticas sobre o tema. 1822 é uma viagem no tempo, com o diferencial de um realismo no qual o leitor se sente envolvido na obra. É possível se sentir inserido no contexto histórico e perceber os protagonistas, não somente como figuras centrais e imponentes, mas como pessoas, como qualquer leitor, com virtudes e com defeitos. 

É possível identificar, ao longo da obra, que o Brasil tem as suas mazelas sociais e políticas desde longa data. E que essas, ainda presentes na atualidade, necessitam de mentes pensantes e desinteressadas, para que de fato o país seja verdadeiramente independente.

A atmosfera retratada em 1822, o Brasil do Primeiro Reinado, é envolvente: a monarquia e os seus dissabores. E o legado histórico e artístico-cultural de valor inestimável que constitui a identidade brasileira. A História explica a Arte e vice-versa. Ambas se complementam.”

Juliana Couto, professora de Artes na E.M. Magdalena Tagliaferro e da E.M. Sun-Yat-Sem (11 ª CRE), na Ilha do Governador.

 

9) On the Road
Autor: Jack Kerouac 

Maurício Chaves

“O clássico é um marco da literatura do pós-guerra, tendo se tornado célebre pela capacidade de sintetizar o espírito de uma geração. Em ritmo narrativo frenético e estonteante, as personagens Dean Moriaty e Sal Paradise nos conduzem pela lendária Rota 66, numa viagem de costa a costa, em busca de liberdade especial, muito bem definida e distante das liberdades civis do sonho americano.

O virar das páginas é o virar de um movimento cultural, nascem nas páginas do livro, a geração beat, a essência da contracultura, culminando de forma derradeira numa ruptura do status quo. Em sua ode à liberdade, toda a ideologia da segunda metade do século XX se clarifica, bem como as sonoridades do bebop e do rock.

Em lugar central, é na estrada que as personagens se revelam. A sabedoria de personagens marginais entrega as verdadeiras experiências do viver. Um viver para além dos espaços herméticos e domestificados dos lares tradicionais.”

Maurício Oliveira Chaves, professor de Geografia, atualmente na Coordenadoria de Ensino Fundamental, no Nível Central.

 

10) Deus
Autor: Bia Bedran
Ilustração: Thais Linhares 

Michelle Moreira

“O livro me deixa muito emocionada e marcou bastante alguns momentos da minha vida. Ele conta a história de um menino que queria ver Deus, mas não podia. Então, ele começou a perceber a existência de Deus em várias situações: no pôr do Sol, na viagem da baleia – de um canto a outro do planeta –, dentro da cabeça dos cientistas, dos artistas e dos escritores.

Ele fala sobre os sinais de Deus nos olhos de um amigo, na paciência da professora, na coragem de enfrentar um medo...Quando esse livro praticamente surgiu na minha frente, eu estava enfrentando um medo muito grande! A leitura dele foi tão profunda, tão especial, que eu comecei a acreditar que Deus também estava ali, naquele livro. Suas palavras foram como um abraço muito forte. Foi uma experiência incrível!

Por isso, eu indico esta leitura linda, de fácil entendimento, com ilustrações maravilhosas da Thais Linhares, para que todos se deleitem nesse texto envolvente e acolhedor, que encheu meu coração de esperança!”

Michelle Moreira, professora regente do 2º ano na E.M. Quintino do Valle (5ª CRE), na Vila da Penha.

 
Mídias Relacionadas
Relacionados
Mais Recentes