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Heróis e Heroínas do Rio
03 Setembro 2015
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Cartola por Cynthia Brito“Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando”, disse o poeta Carlos Drummond de Andrade em crônica publicada no Jornal do Brasil em 27 de novembro de 1980, três dias antes de o sambista falecer. Cantor e autor de composições que marcaram a música popular brasileira, como As Rosas Não Falam e O Mundo É um Moinho, Angenor de Oliveira, popularmente conhecido como Cartola, foi um apaixonado pelo samba – e fez deste seu mensageiro em composições poéticas e refinadas. No Morro da Mangueira, onde sua obra tomou forma, ele participou da fundação da Estação Primeira de Mangueira, uma paixão que pintou seu coração de verde e rosa.

Filho de Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, ele nasceu em 11 de outubro de 1908. Apesar de ter recebido o nome de Agenor, foi registrado como Angenor – o que veio a descobrir só na década de 1960, ao tratar dos documentos para seu casamento com Dona Zica. Só depois disso é que passou a assinar seu nome como Angenor de Oliveira.

Até os oito anos de idade, viveu no bairro do Catete (na Rua Ferreira Vianna). Depois, mudou-se para Laranjeiras, onde viu ser erguido o estádio do Fluminense – que se tornou seu time do coração – e teve contato com dois ranchos carnavalescos, o União da Aliança e o Arrepiados, criados pelos operários da Fábrica de Tecidos Aliança, onde seu pai trabalhava. Neste último, Cartola tocou seus primeiros acordes no cavaquinho, instrumento que ganhou do pai ainda criança. O entusiasmo com o rancho fez Angenor sugerir, anos mais tarde, suas cores para a escola de samba que ajudaria a fundar.

Por dificuldades financeiras, em 1919 a família foi morar no Morro da Mangueira, onde Angenor terminou o curso primário. Com a morte de dona Aída, o menino abandonou os estudos para trabalhar, ao mesmo tempo que era introduzido ao samba e se inclinava à vida boêmia – razão pela qual foi expulso de casa pelo pai, que desaprovava seu comportamento, e acabou deixando o morro.

O jovem passou a trabalhar em uma tipografia e também como pedreiro. Dessa época veio o apelido pelo qual passou a ser reconhecido. Isso porque, para não sujar a cabeça com cimento, ele usava sempre um chapéu, que os colegas diziam parecer uma cartola.

Com aproximadamente 18 anos, Cartola conheceu Deolinda, vizinha que morava no barraco ao lado, e que o acolheu numa ocasião em que ele esteve doente. Deolinda era casada e tinha uma filha pequena, mas os dois acabaram se envolvendo. Ela deixou o marido e foi viver ao lado de Angenor, que criou a criança como se fosse sua filha.

Nessa época, 1925, Cartola participou da formação do Bloco dos Arengueiros (que significa pessoas que fazem arengaria, farra, bagunça), que viria a ser o embrião da Mangueira, fundada três anos depois. Ao seu lado estava, entre outros, o amigo Carlos Cachaça, que se tornou um de seus parceiros mais frequentes, em composições como Não Quero Mais (com Zé da Zilda) e Alvorada (com Hermínio Bello de Carvalho).

cartola acervo MIS colecao almiranteA carreira musical e o Zicartola

Francisco Alves foi o primeiro a gravar Cartola, em 1929, com o samba Que Infeliz Sorte!, seguido por outros intérpretes como Carmen Miranda (Tenho um Novo Amor), Silvio Caldas (Na Floresta) e Aracy de Almeida (Não Quero Mais – composição que, anos depois, foi gravada por outros artistas com o título Não Quero Mais Amar a Ninguém). Nessa época, Cartola conheceu Noel Rosa, ao lado de quem compôs Não Faz Amor e Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?. Em 1940, apresentou com Paulo da Portela, na rádio Cruzeiro do Sul, o programa A Voz do Morro, em que os ouvintes davam nome a sambas ainda sem título que eram lançados.

No fim dos anos 1940, o sambista contraiu meningite e ficou impossibilitado de trabalhar por um tempo. Mais adiante, com a morte de Deolinda, ele deixou o Morro da Mangueira e se afastou do mundo da música. Sua carreira foi retomada apenas em 1956, pelas mãos do jornalista e escritor Sérgio Porto, que o encontrou em Ipanema, trabalhando como lavador de carro. Naquela época, conhecidos e admiradores achavam que o sambista estava desaparecido ou mesmo morto.

Em 1961, já vivendo com Eusébia Silva do Nascimento, a Zica, sua casa tornou-se ponto de encontro de sambistas. E, com o apoio financeiro de empreendedores considerados “mangueirenses de coração”, o casal abriu, poucos anos depois, o restaurante Zicartola, em um casarão localizado na Rua da Carioca, no centro do Rio.

Lá, Zica comandava a cozinha, enquanto ele promovia o encontro entre sambistas do morro e músicos da classe média. Foi no local, frequentado, inclusive, por cantores da Bossa Nova (como Carlos Lyra e Nara Leão), que Paulinho da Viola começou a se apresentar em público. Também no Zicartola, Angenor compôs com Elton Medeiros, em cerca de 30 minutos, o samba O Sol Nascerá (A sorrir/ Eu pretendo levar a vida/ Pois chorando/ Eu vi a mocidade/ Perdida), que se tornou um sucesso.

Esse reduto do samba, porém, não durou muito tempo. Por problemas gerenciais, fechou as portas após cerca de dois anos de funcionamento.

Composições e ideais atravessam décadas

Cartola gravou seu primeiro LP, reverenciado pelo público e pela crítica, apenas em 1974, aos 65 anos. A partir daí, lançou outros quatro e passou a fazer shows em diversas capitais do país. Em busca de mais tranquilidade, foi morar no bairro de Jacarepaguá, em 1978, mas sempre voltava para visitar os amigos em Mangueira.

Pouco tempo depois, adoeceu, vindo a falecer em 1980, aos 72 anos de idade. Sua obra, no entanto, foi e ainda é lembrada por artistas como Clara Nunes, Cazuza, Beth Carvalho, Gal Costa, Ney Matogrosso, Marisa Monte, Chico Buarque, Paulinho da Viola (quem mais gravou Cartola desde os anos 1970) e outros cantores e grupos que se dedicam ao samba.

1cartola300px dentroO samba Pranto de Poeta, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, também interpretado por Cartola, traduz a relação do sambista com a comunidade onde viveu e se apaixonou pela música:

Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram

Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto, em Mangueira
É tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro ou de um tamborim

Em Mangueira, o músico buscava estimular o desenvolvimento de crianças e adolescentes e nutria o desejo de aproximar a juventude da vida cultural da cidade. Assim, seus ideais motivaram e serviram de base para a criação do Centro Cultural Cartola na comunidade, um espaço voltado para o desenvolvimento social, cultural e educacional dos jovens locais.

O Centro, idealizado por Pedro Paulo, neto de D. Zica e Cartola, ganhou sua sede em 2003, e oferece atividades de lazer, oficinas de arte e educação, cursos, biblioteca para pesquisa e exposições.

Já afirmara Drummond: “Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade. Servem de alimento constante”. E isso parece ser atemporal.

Fontes:
Centro Cultural Cartola
Museu Afro Brasil
Enciclopédia da Música Popular Brasileira (Itaú Cultural)
Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira

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