Da série
Heróis e Heroínas do Rio
18 Novembro 2015
0
0
0
s2sdefault
 

patro1Poucas são as pessoas capazes de mudar a mentalidade de uma época. Primeiro porque elas precisam estar completamente convencidas da causa que abraçaram, o que não é uma tarefa das mais fáceis. Mas também porque, para influenciar a forma de pensar de toda uma sociedade, é necessário se ver como agente dentro de um determinado contexto histórico. José Carlos do Patrocínio, mais conhecido dos livros de História apenas como José do Patrocínio, foi um desses brasileiros raros e peça-chave naquele que pode ser considerado o ponto de mutação para o Brasil contemporâneo – a extinção da escravatura.

Com seus escritos contundentes e sua retórica inflamada, Patrocínio foi um dos jornalistas que mais contribuíram para preparar mentes e corações no sentido de aceitar o fim de um modelo econômico baseado na exploração da mão de obra dos negros cativos. Ele estendeu a militância também à sua produção literária, à qual incorporou a discussão de mais um tema social grave naquele momento, que eram os efeitos da expulsão dos nordestinos de sua terra natal por causa da seca, uma realidade então inédita com a qual o governo imperial não sabia lidar.

Desigualdade sentida na pele

José do Patrocínio nasceu na Fazenda do Imbé, em Campos dos Goytacazes, norte fluminense, em 1853. Seu pai era o sacerdote branco João Carlos Monteiro, de 54 anos, e sua mãe, a menina negra Justina do Espírito Santo, escrava, que contava apenas 13 anos. Por volta da mesma idade, o garoto decidiu tentar a sorte no Rio de Janeiro, onde começou trabalhando como servente de pedreiro na Santa Casa de Misericórdia. Ali mesmo deu continuação e custeou seus estudos, até concluir o curso superior em Farmácia, considerado menor dentro das atividades médicas e o máximo acessível aos mulatos e representantes de camadas mais pobres da população.

Somada ao seu drama de origem, a vivência do tratamento desigual característico do ambiente hospitalar fez crescer no rapaz um absoluto repúdio à estrutura social vigente. Mas a atuação no jornal satírico Os Ferrões e, com ela, a descoberta da vocação para o jornalismo inaugurariam o escoadouro dos discursos represados de uma vida inteira. O engajamento ganhou força a partir de 1877, quando seu novo empregador – a Gazeta de Notícias – o enviou à região Nordeste como correspondente, entre maio e setembro de 1878, com a missão de registrar os efeitos de uma seca que castigava a “província” do Ceará, que era como se chamavam os estados da Federação. Além de Fortaleza, esteve em Salvador, Maceió, Recife e João Pessoa.

Primeira grande cobertura do fotojornalismo no país

flageladaRealizado quase 20 anos antes da Guerra de Canudos (1896-1897) – outro marco do jornalismo verdade, de autoria de Euclides da Cunha –, o registro das imagens da seca de 1877-1890 foi conduzido por Patrocínio com precisão documental. Nem bem desembarcou do vapor Nacional Pará em Fortaleza, onde a população havia saltado de 25 mil para 114 mil habitantes em menos de um ano, contratou os serviços de um fotógrafo local, Joaquim Antônio Corrêa, e o instruiu na maneira de retratar os flagelados em estúdio – os corpos eram fotografados de frente, de costas, de perfil e até caídos no chão. Na busca pela sobrevivência, os flagelados se deslocavam para cidades fora do Ceará e chegavam até lugares distantes, como Belém do Pará e Rio de Janeiro.

A cobertura chocante foi publicada na Gazeta, com o título Viagem ao Norte, e também na revista O Besouro. As informações e impressões recolhidas por Patrocínio ganharam ainda mais visibilidade quando foram transformadas por ele no romance Os Retirantes. Esse gênero literário era a principal fonte de entretenimento da sociedade e chegava aos leitores em capítulos, distribuídos nos chamados folhetins, que eram publicados em seções específicas dos jornais, com o intuito de assegurar a fidelidade do consumidor, assim como acontece com as telenovelas na atualidade.

No Instituto Politécnico, o ambiente de debate científico reunia intelectuais na busca por soluções de curto prazo, que muitas vezes recorriam ao assistencialismo. André Rebouças propunha a construção de açudes públicos nas áreas mais atingidas. Enquanto isso, José do Patrocínio denunciava as consequências deletérias do deslocamento dos migrantes para os grandes centros urbanos, que, nas suas palavras, já haviam absorvido “todos os vícios do mundo”.

Literatura como arma política

Não foram poucos os escritores brasileiros que trataram do drama da escravidão: Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura, 1841), Gonçalves Dias (A Escrava, 1846), José de Alencar (O Demônio Familiar, 1856), Castro Alves (Os Escravos, 1883), Fagundes Varela (Mauro, o Escravo, 1864), Joaquim Manuel de Macedo (As Vítimas Algozes, 1869) e Aluísio Azevedo (O Mulato, 1881) deixaram obras que, se hoje são importantes, no seu lançamento tinham a valiosa missão de provocar a indignação social. E foi justamente a partir dessa temática que José do Patrocínio iniciou sua produção literária, com o romance Motta Coqueiro ou a Pena de Morte, que veio a público como folhetim em 1877 e como livro em 1878. Com isso, ele se tornou o primeiro brasileiro a publicar naquele formato, porque, até então, a Gazeta de Notícias só abria espaço para material traduzido de folhetinistas estrangeiros.

O enredo foi baseado em uma história real, ocorrida na cidade natal do autor um ano antes de seu nascimento, e que havia gerado uma forte comoção popular. Narra o fim trágico do protagonista, fazendeiro acusado de uma chacina contra uma família de agregados. Uma das escravas, chamada Balbina, aparece como figura de destaque no romance, e historiadores supõem que a personagem seja inspirada na mãe do escritor – ele chegou a fazer pesquisas no Arquivo Nacional para o levantamento de dados. Como resultado, o livro é recheado de crítica social, seja contra a discriminação racial, seja contra a concentração de renda nas mãos dos latifundiários.

A tese de que Patrocínio inseria memórias autobiográficas em seus trabalhos reaparece diante de seu segundo romance sobre o êxodo dos nordestinos, no qual o vilão da história é um padre, provavelmente uma representação da figura paterna. Particularmente, a condição das mulheres afligia o jornalista, como revela um trecho selecionado de Campanha Abolicionista: Coletânea de Artigos. “Sabe-se também que os senhores, querendo tirar todo o proveito do gado humano, ávidos de tirarem todo o lucro da pirataria à roda do berço (...), expunham as mulheres desde os treze e quatorze anos à procriação. Há muitos fatos de indivíduos, que começando a vida apenas com cinco ou seis escravas boçais, legaram aos filhos escravaturas de mais de cem pessoas provenientes daqueles troncos.” Nesse contexto, a palavra boçal significa escravo recém-chegado da África e que ainda não fala a língua portuguesa.

Combatividade até o fim da escravidão

Em 1881, se tornou proprietário da Gazeta da Tarde, que comandou por seis anos, e ao fim dos quais fundou outro jornal, chamado A Cidade do Rio, sempre utilizados para propaganda ideológica contra o comércio de seres humanos. Em maio de 1883, foi o articulador, junto com André Rebouças e com Aristides Lobo, de um manifesto que conseguiu reunir todos os grupos militantes numa única Confederação Abolicionista, que auxiliava os negros foragidos e promovia espetáculos para angariar fundos e custear alforrias. Em 1886, se elegeu vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com votação maciça.

Embora crítico contumaz do imperador D. Pedro II, José do Patrocínio foi pessoalmente beijar a mão da princesa regente Isabel na data de assinatura da Lei Áurea, ou Decreto no 3.353, em 13 de maio de 1888. Poesias circulavam no formato de panfletos ao redor do Senado, local onde aconteceu a promulgação. O protagonismo do chamado Tigre da Abolição, ou Apóstolo Negro, foi reconhecido, inclusive, numa coletânea de poemas intitulada Panfletos Abolicionistas: o 13 de Maio em Versos. A publicação, compilada por Renato Pinto Venâncio em 2007, traz 29 desses panfletos históricos assinados por vários autores anônimos ou com pseudônimos.

Acusado de estimular a formação da Guarda Negra – um bando de ex-escravos que agia com violência nos comícios republicanos para defender a Princesa Isabel –, Patrocínio se tornou uma figura mal vista pelo novo regime de governo que ascendeu ao poder em novembro de 1889. Durante o mandato do marechal Floriano Peixoto, foi formalmente acusado e deportado para o estado do Amazonas. A decisão provocou um protesto veemente por parte de Rui Barbosa: “Que sociedade é essa, cuja consciência moral mergulha em lama, ao menor capricho da força, as estrelas de sua admiração?”. De volta ao Rio no ano seguinte, teve o jornal fechado e caiu no ostracismo, indo morar em um barracão no subúrbio de Inhaúma.

José do Patrocínio morreu naquele endereço, de tuberculose, aos 51 anos, em 29 de janeiro de 1905, justamente quando escrevia um texto em defesa dos animais e no qual sugeria a criação de uma sociedade protetora. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de número 21 e onde Olavo Bilac lhe prestou uma homenagem póstuma, com as seguintes palavras: “O espírito do Redentor, ao despedir-se da existência, desenvolvia e apurava a sua capacidade de amar. Já não era somente o amor de uma faculdade. Já não era somente o amor de uma raça infeliz, que lhe enchia o coração, nem o amor somente de todos os homens: era o amor da vida, amor de tudo quanto vibra e sente, de tudo quanto rasteja e voa, de tudo quanto nasce e morre”.

O abolicionista é homenageado, também, no nome da E.M. José do Patrocínio (5ª CRE).

Fontes:

Anda – Agência de Notícias de Direitos Animais, Portal UOL Educação, Portal Geledés

BARBOSA, Marta Emisia Jacinto. Imprensa e fotografia: imagens de pobreza no Ceará entre final do século XIX e início do século XX. Projeto História, São Paulo, n. 24, jun. 2002.

NEVES, Frederico de Castro. A miséria na literatura: José do Patrocínio e a seca de 1878 no Ceará. Tempo (revista on-line), vol. 11, n. 22, 2007.

SOUZA, Marcos Teixeira. José do Patrocínio: um abolicionista na ficção e na vida. Revista de Letras, Curitiba, vol. 15, n. 17, 2013.

SOUZA, Marcos Teixeira; ROCHA, José Geraldo. José do Patrocínio: para além da memória de um abolicionista. Revista Magistro. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas – Unigranrio, vol. 2, n. 1, 2011.

Mídias Relacionadas
Heróis e Heroínas do Rio
Mais da Série
Relacionados
Mais Recentes