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As matrizes culturais e a linguagem plástica
19 Março 2012 | Por Márcia Pimentel
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dona_flor_cartazApesar da popularidade de Jorge Amado e de sua importância na construção da identidade cultural brasileira, o escritor ainda é relativamente pouco estudado pela academia, que, por um longo período, manteve a tônica de rejeitar sua obra. Do ponto de vista da linguagem, além do realismo socialista da primeira fase, os poucos estudos existentes apontam o cordel, o folhetim e o romance popular como as matrizes culturais que mais influenciaram o escritor. Alguns também falam da plasticidade de seu estilo literário, marca que facilitaria a transposição de sua obra para outras linguagens, como a audiovisual.

A influência do cordel na obra de Jorge Amado é bastante visível em alguns livros da primeira fase, como Terras do sem fim. O estilo, porém, segundo o escritor José Paulo Paes, atravessa outras obras através das redondilhas – métrica característica dos versos dos violeiros e cantadores – encontradas em sua prosa: “ficava sem jeito, vestida de seda, sapato doendo, em dura cadeira”, descreve Amado sobre a personagem Gabriela. A presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, ainda percebe outros vestígios do cordel na obra de Amado, como os títulos de vários capítulos de livros, como este: “Aventuras e desventuras de um bom brasileiro (nascido na Síria) na cidade de Ilhéus, em 1925, quando florescia o cacau e imperava o progresso...”.

Vestígios folhetinescos e linguagem visual

Como o próprio título já sugere, o ABC de Castro Alves é outro livro de Amado com nítida influência do cordel. A obra, aliás, também tem um pé no folhetim. Começou a ser publicada em capítulos pela revista Diretrizes, em 1940, mas foi suspensa no terceiro número por ordem da polícia.  Outros sucessos, como A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, também foram publicados primeiramente em revistas. As características folhetinescas da obra amadiana, contudo, não estão relacionadas apenas à maneira como algumas delas foram inicialmente publicadas, mas também à forma como foram escritas.

O antropólogo Roberto Da Matta é incisivo ao falar da cumplicidade folhetinesca que os livros da segunda fase de Amado estabelecem entre autor, personagem e leitor, na busca de uma reflexão que traduza a ambiguidade da alma humana. Segundo Da Matta, técnicas narrativas, como a sátira, seriam utilizadas por Amado, como um modo não acadêmico, sem explicações elaboradas, de ele falar com seu público “sem pompas e filosofias, na Cmelhor tradição do folhetim”.

Os vestígios desse gênero literário na obra amadiana, não raras vezes, foram criticados como artifício barato para atingir o sucesso e aumentar a amado_camafeu_de-oxossi_1vendagem de livros.  Ana Maria Machado, porém, considera injusta a crítica a Amado e ao folhetim.  No artigo Jorge Amado: uma releitura, ela fala da nobreza do gênero literário com o qual autores consagrados – como Victor Hugo, Charles Dickens e Machado de Assis – mantiveram laços estreitos.  Também lembra que, historicamente, o folhetim foi um grande aliado dos ideais românticos de liberdade, com sua busca por atrair novos leitores para o universo da escrita, com o objetivo de mudar a história.

“Não deixa de ser natural que o folhetim e o romance popular se constituíssem em fontes para um autor com essas preocupações políticas e uma história militante, desejoso de fazer romance de massa”, avalia a presidente da ABL, ressaltando que, no caso em questão, a palavra “massa” se refere ao conceito marxista (de povo, proletariado) e não à indústria da comunicação.  Essa vontade de atingir milhões de leitores permitiu, ainda segundo ela, que Amado também desenvolvesse estreita proximidade com outras linguagens, especialmente as visuais. Desde seus primeiros livros, buscou ilustrar seus romances, fazendo parcerias com desenhistas e artistas plásticos como Carybé, Di Cavalcanti, Aldemir Martins, Iberê Camargo, Santa Rosa, Mário Cravo, Carlos Scliar, Clóvis Graciano e muitos outros.gabriela-poster0-2

A plasticidade da narrativa amadiana é comentada pelo cineasta Glauber Rocha em um artigo publicado no Diário de Notícias, de Salvador, em 1960. “O metteur-en-scène (diretor de cena) que existe em Jorge Amado assegura um futuro eterno para Gabriela”, escreveu ele. Percepção não muito diferente teve o escritor paraibano Juarez da Gama Batista que, em 1961, publicou um artigo que dizia: “Gabriela é mais uma expressão plástica do que romanesca. Mais elemento visual do que representação de atos, vontades, situações ou formas de viver. É pura imagem. É cor, forma, iluminação. Vale como estampa em movimento”.

As características plásticas e os elementos populares e folhetinescos da linguagem amadiana,  segundo vários estudiosos de sua obra, facilitaram as adaptações de seus livros para outras mídias. Amado é, seguramente, o escritor brasileiro com mais livros adaptados para o cinema e a televisão, fato que o coloca numa posição distintiva quando o assunto é a construção da imagem e identidade do Brasil do século XX.

 
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