07 Junho 2013
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ARYBARROSO-LACERDA2Mal tinha terminado a guerra, em 1946, o Brasil foi escolhido pela Fifa como sede da Copa do Mundo de 1950. O compositor Ary Barroso, então vereador no Rio de Janeiro e amigo pessoal de Mario Filho, apresentou um projeto para que um estádio fosse construído no bairro do Maracanã, no terreno do antigo Derby Club, onde se realizavam corridas de cavalo. A proposta enfrentou a reação do então deputado federal Carlos Lacerda, que criticava o custo de construção e o local, e pretendia que um projeto mais modesto, com 60 mil lugares, fosse desenvolvido para Jacarepaguá. Por isso, Mario Filho iniciou a publicação de uma série de artigos na imprensa que defendiam a construção do Estádio Municipal, com pelo menos 150 mil lugares, e que deveria ser o maior do mundo.

O movimento ganhou a adesão popular, que culminou com a aprovação da proposta na Câmara dos Vereadores e o apoio do prefeito Ângelo Mendes de Morais. Ainda bem: quem sentiu a vibração do estádio lotado num Fla-Flu de antigamente sabe que não há emoção que se compare. Apesar do atraso, as obras foram concluídas em 12 de junho de 1950, 12 dias antes do início da Copa do Mundo. No dia 16 de julho, um público de 199.854 pessoas assistiu, incrédulo, na final, à perda do jogo e do título para o Uruguai, que venceu a partida por 2 x 0.

Com a derrota, manifestações de racismo surgiram contra alguns jogadores da seleção brasileira. Mario Filho, então, declarou: “Quando o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo”. Entre 1955 e 1959, produziu com o irmão Nelson Rodrigues a revista Manchete Esportiva, editada pela Bloch Editores. Mas até a paixão pelo futebol tinha lá os seus limites. Quando o filho Mario Júlio anunciou que tinha sido aprovado para jogar no time do Botafogo, Mario Filho foi contra. Para ele, ninguém podia romper com a tradição da família, na qual os homens, sem exceção, até hoje são todos jornalistas.

Mario Filho morreu de ataque cardíaco em 17 de setembro de 1966, aos 58 anos, pouco depois de retornar da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Um mês depois, em sua homenagem, o antigo Estádio Municipal do Maracanã passou a se chamar Estádio Jornalista Mario Rodrigues Filho. Até o ano seguinte, quando morreu, a viúva Célia Rodrigues assumiu o controle do Jornal dos Sports. Na sequência, a publicação ficou a cargo de Mario Júlio Rodrigues. Inspirado nas mudanças de vanguarda realizadas pelo Jornal do Brasil, nos anos 1960, o jornalista também promoveu uma reformulação editorial completa no Jornal dos Sports: entre os colaboradores estavam nomes como Zuenir Ventura, Ana Arruda Callado, Ziraldo, Jaguar e Henfil – que criou mascotes para as torcidas, como o Urubu, que substituiu o marinheiro Popeye como símbolo do Flamengo, e o Bacalhau, no lugar do almirante português do Vasco da Gama. Mario Júlio também apoiava os movimentos de torcidas jovens que surgiam na cidade.

O ambiente da contracultura inspirou a criação do suplemento O Sol, a princípio um caderno cultural do Jornal dos Sports, feito por jovens e para os jovens. Em breve, ele ganharia força e se tornaria também um jornal, que foi duramente combatido pelo regime militar. Mario Júlio Rodrigues morreu em 1972 e deixou a direção do jornal para sua segunda esposa, Cacilda Fernandes de Souza. Houve uma mudança radical na linha editorial da publicação quando a chefia de redação foi assumida pelo coronel Geraldo Magalhães. Muitos jornalistas da casa se transferiram para outros veículos, como a revista Placar.

MARACANA-OBRA-1949Apesar do fim do Jornal dos Sports em 2010, Mario Filho continua, de certa forma, presente no jornalismo brasileiro. Quem explica é o jornalista e escritor João Máximo, autor do livro Maracanã: meio século de paixão e coautor de Maracanã, 60 Anos:  “Crescemos todos lendo suas matérias e seus livros. A ‘mitologia do futebol’, que ele criou ou, ao menos, cultuou, colaborou para aumentar nossa paixão. Como? Alimentando-a com suas histórias (ou lendas) e seus personagens (ou heróis). Quanto ao estádio, foi primeiro o local de meus sonhos; depois, o altar de minha paixão: por fim, meu local de trabalho”. Seja monumento, templo ou relíquia, cabe ao Maracanã de hoje ser uma lembrança viva de Mario Filho.

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