08 Maio 2017
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Ao centro, Pamela da Silva, professora de Artes, com quatro integrantes do coletivo Solta Esse Black

Nas aulas de Artes da professora Pamela Souza da Silva, as histórias de vida dos alunos são material de expressão para a produção artística nas mais diversas técnicas. “Representar o que vivem faz com que os estudantes sejam presentes na escola. E o que trazem como demanda é importante para mim e para o trabalho que realizo também.”

Em 2015, alunas do 9º ano da E.M. Levy Miranda (6ª CRE), na Pavuna, trouxeram questões sobre machismo e racismo para discussão em sala de aula. Pamela tentou abordar os temas, mas o resultado não foi positivo porque os meninos reagiram de forma agressiva, acuando a ala feminina da sala. Na concepção deles, só os garotos podem ter vários namoros e “manter a honra”. Outra opinião intimidadora foi com referência à estética dos cabelos – as meninas que optavam por cortar bem curto para ver como ficariam sem a química alisadora eram chamadas de feias, de carecas. A professora, então, negociou com a Direção para que houvesse encontros exclusivamente femininos no auditório da escola.

Nesses encontros, as alunas discutiam assuntos como a experiência de ser mulher favelada (a escola está situada no Complexo do Chapadão), autoestima (muitas queriam saber como era a textura original do fio do cabelo, alisado desde a primeira infância, e como cuidar dele), machismo (alguns meninos justificavam a violência doméstica) e como as mulheres podem se fortalecer. Dado o sucesso dos encontros, convidaram as colegas do 6º ao 8º ano para participar. O auditório de 60 lugares lotou.

Pamela pediu que o coletivo Solta Esse Black, como foi chamado pelas estudantes, criasse algo para o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Fizeram uma performance de dança ao som da música Sou Poderosa, de Lellêzinha, integrante do grupo Dream Team do Passinho. A preparação para o show foi surpreendente, porque havia apenas cinco meninas para arrumar todas as outras. Então, à medida que iam ficando prontas com seus turbantes e maquiagem, elas mesmas ajudavam as demais a se arrumarem. A atividade tornou-se um encontro amigável entre estudantes que eram rivais. “A gente notou como era importante deixar de lado a rivalidade feminina e uma ajudar a outra. Na Levy tinha muita briga de menina na porta da escola e, depois do Solta Esse Black, não tem mais”, conta Lydianne Ribeiro Santos, 16 anos, uma das integrantes do grupo.


Criativos da Escola

Solta Esse Black já reuniu 60 adolescentes no auditório da E.M. Levy Miranda

Solta Esse Black foi um dos 11 vencedores do prêmio Criativos da Escola, que destaca iniciativas de protagonismo juvenil. Em dezembro de 2016, quatro estudantes do coletivo e a professora Pamela passaram três dias em um hotel em Salvador, na Bahia, compartilhando sua experiência com as outras equipes vencedoras, de todo o país. “Estamos usando os R$ 3 mil que ganhamos para comprar material que custeie o projeto e passagens para levarmos o Solta Esse Black para outra escola da Rede Municipal – a E.M. Nações Unidas (8ª CRE), em Bangu”, conta a professora Pamela. “Quebramos o preconceito de que negra e favelada não tem chance. Foi uma conquista: o projeto se classificou entre tantos outros do estado do Rio de Janeiro. Morar em favela não é sina para não ter boas ideias e caminhos”, comemora Lydianne.

As alunas fundadoras do Solta Esse Black estão atualmente no Ensino Médio, mas costumam retornar à E.M. Levy Miranda para palestras e encontros com as turmas de lá. No dia 6 de maio, o coletivo promove um encontro na Praça do Village, na Pavuna, para divulgar suas ideias e oferecer uma opção diferente de lazer ao bairro, com direito a uma feira afro e venda de acessórios.

Pamela é professora municipal há cinco anos e, além da E.M. Levy Miranda, leciona também no Ciep Antonio Evaristo de Moraes (8ª CRE), em Senador Camará. No Ciep, para atrair a atenção das crianças do 4º e 5º anos, adota atualmente o jogo Minecraft, por meio do qual os meninos aprendem simetria e a utilizar papel quadriculado para aumentar e diminuir o tamanho dos desenhos. Eles também confeccionam os rostos dos personagens com caixas, que poderão ser manipuladas pelos colegas menores no pátio da escola. “Não adianta eu querer ensinar um tipo de arte que não tem a ver com eles”, diz a professora de 30 anos, que sempre estudou em instituições públicas, desde o Ensino Fundamental até o universitário, na Faculdade de História da Arte da Uerj.

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