09 Janeiro 2019
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A professora Mariana Maia (à esquerda) com seus alunos e Simone Ricco, que leciona Língua Portuguesa na E.M. Nações Unidas (Foto: Alberto Jacob Filho)

Afro Olhar é o nome do projeto desenvolvido pela professora de Arte Mariana Maia, na E.M. Nações Unidas, em Bangu (8ª CRE). Por meio da arte, sobretudo contemporânea, a docente busca valorizar a cultura afro-brasileira e trabalhar as relações étnico-raciais com alunos do 6º ao 9º ano, em oficinas do projeto de extensividade PET Presidente Médici – Centro de Arte e Esporte da 8ª CRE, oferecidas no contraturno. Estudantes das turmas regulares em que Mariana leciona (7º ao 9º ano) também participaram de algumas atividades.

“Aprendi a ser uma mulher negra, e isso é um processo pelo qual muitos dos meus alunos, negros, vindos de comunidades, passam. Temos que falar sobre os negros na arte. Infelizmente, isso ainda não é contemplado nos livros pedagógicos, mesmo com a Lei N.º 10.639”, diz a professora, mestre em Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), artista e pesquisadora do corpo da mulher negra, referindo-se à lei que torna obrigatório o ensino sobre história e cultura afro-brasileiras e africanas, promulgada em 9 de janeiro de 2003.

As oficinas oferecidas pela professora dividem-se em fotografia e vídeo, grafite e pintura, e artes visuais, e acontecem duas vezes por semana, com a duração de 1h20 cada aula.

Mariana conta que aprendeu a grafitar por perceber que essa era uma linguagem que atraia muito os alunos. “O grafite mostra a eles, por exemplo, que a arte contemporânea está também em Bangu. Nesse sentido, apresentá-los a artistas da região onde eles vivem e estudam é ótimo!”, diz a professora, que fez um curso sobre a técnica em uma organização não governamental (ONG).

Aluno do 8º ano, Paulo Cezar Varanda Tagliate, 13, é um dos que optaram pela oficina de grafite. “É estranho, é novo, mas quando você pega o jeito, é relaxante e o tempo passa rápido”, relata.  Sara Oliveira, 13, do 8º ano, relembra, sorrindo, da primeira aula, quando aprendeu a usar a tinta em spray. “Sempre gostei de desenhar e pintar, mas o grafite eu só conheci na escola. O dia em que aprendemos a usar o jet foi muito divertido!”.

No pátio da E.M. Nações Unidas, podem ser vistos muitos trabalhos de arte urbana, propostos por Mariana. Aliando grafite e performance, a professora e os artistas do grupo Amo Crew, do qual ela fazia parte, grafitaram um muro da escola, enquanto contavam para os alunos a história de mulheres negras como a pintora Maria Auxiliadora da Silva, a escritora Carolina Maria de Jesus e a ativista e acadêmica norte-americana Angela Davis.

Mariana Maia, alunos da oficina de Arte e a professora Simone Ricco (Foto: Alberto Jacob Filho)

Em outra ação do projeto, para debater a “ditadura dos cabelos lisos” e fazer com que seus alunos não vissem o crespo como algo pejorativo, valorizando seus próprios cabelos, Mariana Maia exibiu um vídeo da performance Bombril, da artista plástica Priscila Rezende. Nela, por um período de aproximadamente uma hora, a artista esfrega uma determinada quantidade de objetos de material metálico, usualmente de origem doméstica, com seus próprios cabelos.

Confira outros trabalhos propostos por Mariana Maia, apresentando artistas contemporâneos e personalidades negras:

1) Releitura do projeto Aceita?, de Moisés Patrício

Reprodução de alguns dos trabalhos feitos pelos alunos na oficina de fotografia (Fotos: Alberto Jacob Filho/ Edição: Emilia Teles)

Uma das propostas foi a releitura da série fotográfica Aceita?, em que, com fotos da própria mão em diferentes contextos, o artista plástico Moisés Patrício questiona o racismo e a intolerância religiosa no cotidiano. As fotos podem ser vistas na conta do artista no Instagram (@moisespatricio).

“Me propus a fazer uma foto da minha mão direita todos os dias, por dois anos, para tentar entender essa dificuldade das pessoas de aceitar a produção intelectual de um artista negro. Com o histórico escravagista que nós temos, há uma tentativa de reduzir a contribuição do negro à mão de obra”, explicou Moisés Patrício, em entrevista a BBC, publicada em 2015.

Assim, Mariana pediu que os alunos produzissem uma fotografia com o tema “onde deveria estar a africanidade/ negritude, na escola”, usando um ou mais búzios – elemento presente na pulseira usada por Moisés em todas as fotos.

2) Releitura da série Bastidores, de Rosana Paulino

A série Bastidores, da artista Rosana Paulino, traz imagens de mulheres negras sobrepostas por uma costura em suas bocas, olhos ou gargantas, como símbolo da violência, do silenciamento e da invisibilidade sofridas por elas na sociedade brasileira.

Partindo disso, Mariana ensinou os alunos a bordar e sugeriu que fizessem uma releitura, partindo da foto deles próprios. “O fato de eles se fotografarem, se verem e saberem que podem ser vistos como obra de arte é muito importante. A representatividade é muito importante!”, reforça Mariana.

3) Palestra e grafite com a artista J.Lo Borges

Grafite feito por J.Lo Borges em um dos muros da escola (Foto: Alberto Jacob Filho)

Mariana convidou à escola a grafiteira J.Lo Borges, moradora do subúrbio do Rio de Janeiro e integrante de uma ONG que usa as artes urbanas para promover o direito das mulheres (Rede Nami). J.Lo Borges conversou com os alunos sobre questões de gênero e, em seguida, fez um grafite em um dos muros da escola, com a ajuda dos estudantes, que também escolheram a frase que integrou a obra: “Qual foi? Só porque sou nega?”.

Para saber mais sobre a artista, é possível assistir a um dos vídeos do programa de formação #AfroGrafiteiras.


4) Pinturas a partir do livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, de Jarid Arraes

Depois de ler e debater o livro, que conta a história de mulheres negras brasileiras em forma de literatura de cordel, Mariana pediu que os estudantes fizessem pinturas, em tela e no papel, de personalidades presentes na obra.

Reprodução dos trabalhos realizados pelos estudantes na oficina de pintura (Fotos: Alberto Jacob Filho/ Edição: Emilia Teles)


Parcerias e resistência

Além das atividades das oficinas, Mariana Maia está sempre buscando parcerias. “Vou a centros culturais e museus para fazer contatos e tentar conseguir ônibus gratuitamente para levar os alunos a esses lugares. É muito bom que vejam a arte ao vivo, pessoalmente, para que saibam o que é e percebam esses espaços como deles: que eles podem e devem ocupar”.

Na E.M. Nações Unidas, ela conta com o apoio dos professores Simone Ricco, de Língua Portuguesa, e Nilton Filho, da Sala de Leitura. “Envolver o adolescente, hoje, é uma grande dificuldade. Se ele deixou o celular de lado para fazer arte, eu reconheço e quero aproveitar isso no meu trabalho com Língua Portuguesa. Afinal, todos os relatos são produção textual”, comenta Simone Ricco, destacando que professores podem buscar autores e artistas negros não contemplados nos livros pedagógicos – e durante todo o ano, não apenas no mês de novembro, quando é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra.

Grafite leva cor e representatividade à escola (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Essa temática não precisa estar apenas em disciplinas, mas em todos os espaços da escola. A criança negra tem que se ver, inclusive nos muros. A Literatura também promove isso ao não julgar linguagens, para todos se sentirem representados. A diversidade já faz parte do olhar dessa geração. Eles sabem que podem ser médicos, engenheiros ou o que quiserem, e isso passa a ser natural quando é trabalhado”, reforça a professora de Língua Portuguesa, mencionando que há dois anos a escola aderiu à campanha “21 Dias de Ativismo Contra o Racismo”, por meio da qual docentes trabalharam com textos e imagens, mostrando ícones e acontecimentos históricos “para naturalizar os olhares”. A campanha nasceu em 2017, no âmbito do estado do Rio de Janeiro e, em 2018, ganhou dimensão interestadual, tendo como objetivo convocar a sociedade a refletir, enfrentar e eliminar o racismo em todos os espaços da vida social.

A ideia de Mariana Maia é que o projeto Afro Olhar, assim como outros que abordam a temática das relações étnico-raciais nas escolas, possa ter continuidade. “Há sete anos me dedico a isso. É militância e enfrentamento diário, vivo situações conflituosas. Já ouvi até que deveria parar com trabalhos sobre negros, que os brancos também precisam ser representados”, conta a professora de Arte, que talvez não lecione mais na E.M. Nações Unidas em 2019.

Os alunos já sofrem e evitam tocar no assunto. “Vai deixar um vazio no coração...”, diz Paulo Tagliate, do 8º ano.

 

Para saber mais sobre a cultura do grafite na cidade do Rio de Janeiro, assista à série Traços Urbanos, da MultiRio.

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