05 Abril 2019
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Em busca de uma oportunidade de estágio, ainda na época da graduação, Bruno Rossato foi a uma escola da rede privada. Pelo interfone mesmo, veio a resposta: “A Educação Infantil não trabalha com homens. Passar bem!”. A cena remonta aos desafios enfrentados por professores do sexo masculino na Educação Infantil, segmento marcado pela presença feminina. Preconceitos baseados em estereótipos de gênero e a falta de conhecimento sobre a rotina das turmas estão presentes em comentários que partem de pais, responsáveis e até mesmo de colegas de profissão.  

Bruno Rossato, atualmente na Gerência de Educação Infantil da SME-Rio (Foto: Arquivo pessoal do professor)

“Já ouvi que as meninas (professoras) são mais organizadas e que eu, como homem, deveria me impor mais; que as professoras são mais caprichosas e que eu deveria ‘pegar o jeitinho’ com elas e, em pouco tempo, estaria ‘craque’; já me perguntaram até ‘o que um homem de quase 1,90 metros foi fazer na creche’”, conta Bruno Rossato, 31 anos, atualmente lotado na Gerência de Educação Infantil, no Núcleo Central da Secretaria Municipal de Educação. 

Para Wallace Benjamim, 26 anos, professor do Maternal II no EDI Medalhista Olímpico Éder Francis Carbonera, na Maré (4ª CRE), o machismo que historicamente colocou as mulheres em situação de desfavorecimento social, atribuindo unicamente a elas a responsabilidade de cuidar e de educar crianças, é o mesmo que cria desafios no trabalho dos professores homens na EI.

“No entanto, já iniciamos um novo momento. As mulheres se uniram, lutam por igualdade de gênero e têm provocado na sociedade um movimento de reflexão acerca dos privilégios e do papel do homem nos lares, na divisão dos afazeres domésticos, na educação e no cuidado das crianças. E eu acredito que nós, agentes e professores homens da Educação Infantil, também representamos bem esse momento. Mostramos, com presença atuante e competente, que o dever de cuidar e educar está nas mãos de quem tem crianças sob sua responsabilidade”, enfatiza Wallace.

Ele reforça, ainda, a importância de promover reflexões e incentivar a presença e a participação masculina dos responsáveis nas reuniões, nos momentos de encontro entre famílias com suas crianças e nas culminâncias dos projetos, entendendo sempre que isso significa muito mais para as crianças do que para o próprio educador.

“Tenho tido o privilégio e a linda experiência de amar e ser amado por alunos e responsáveis depois dos momentos iniciais de acolhimento e de receber visitas de alunos e responsáveis que mudaram para outras unidades. Ainda que com tensões e preocupações iniciais, juntos, temos superado os preconceitos de gênero e construído no EDI um espaço de parcerias e afetos.” 

A relação com pais e responsáveis 

Wallace Benjamin com turma do EDI Medalhista Olímpico Éder Francis Carbonera, na Maré (Foto: Arquivo pessoal do professor)

A relação com os responsáveis, porém, nem sempre é tão tranquila. Roberto Carlos da Silva Belgoni, 33 anos, professor da pré-escola II no EDI Fundação Leão XIII, no Estácio (1ª CRE), conta que já sofreu com questionamentos e atitudes de familiares dos alunos. 

“Assim que entrei na Rede, alguns retiraram as crianças da escola quando souberam que elas teriam aula com um homem. Fiquei profundamente chateado e triste, porque não tive chance de mostrar o profissional que sou”, lamenta. “Queriam saber se eu dava banho nos alunos, se eu os acompanhava. Alguns não queriam que isso acontecesse e eu tive que explicar como era o banho no EDI”, diz Roberto, que já chegou a ser orientado pela direção de uma escola a não ajudar no banho das crianças, porque os responsáveis não queriam.

Rodrigo Merat, 30 anos, é professor do Maternal I, na Creche Municipal Elizabeth Tavares de Souza – Betinha, em Campo Grande (9ª CRE), e também atua na Gerência de Educação da 9ª CRE. Ele conta que, no início de sua carreira, foi discriminado por ser homem, o que acabou levando-o a abordar o tema em sua monografia da pós-graduação. “Certa vez, a direção de uma escola me proibiu de levar qualquer criança ao banheiro ou deixar que sentassem no meu colo. Essa foi uma fase muito ruim da minha trajetória, pois eu ficava impossibilitado de fazer meu trabalho da maneira adequada, na qual eu acreditava, além de sobrecarregar as outras pessoas que trabalhavam comigo”, relembra Rodrigo, que acabou pedindo para sair da unidade. 

Rodrigo Merat durante atividade com os alunos (Foto: Arquivo pessoal do professor)

“Por ser uma profissão majoritariamente feminina, o saber pedagógico também é questionado. Outro desafio é o midiático, com as notícias de pedofilia e abuso – o que, muitas vezes, recai sobre a figura masculina”, destaca Rodrigo, que é mestre em Educação e especialista em Educação Infantil. 

“A cultura do estupro, a persistente imagem do homem como uma figura que representa um risco em potencial às crianças – principalmente às meninas – e a construção social e histórica de que a mulher é mais competente ou deve ser a única responsável por cuidar e educar crianças ainda influenciam muito no pensamento, na insegurança e no estranhamento da presença do homem na Educação Infantil, pela comunidade escolar”, pontua Wallace Benjamin.

Ele diz ter consciência de que todas as vezes em que assumir uma nova turma, precisará ser compreensivo com os responsáveis inseguros – sobretudo os homens – com sua presença na sala de aula de crianças tão pequenas.

“Um dos desafios é o acolhimento dos responsáveis que chegam com esse imaginário e que, na maioria das vezes, exteriorizam de forma sutil sua insegurança. Penso em estratégias para me aproximar, tranquilizar e conquistar a confiança deles, inclusive falando sobre como se dá a rotina da turma, como se organizam as ações pedagógicas na Educação Infantil, buscando estreitar a relação com eles. Isso me fez criar o hábito, inclusive, de saber e chamar pelo nome cada um dos responsáveis das minhas crianças.”

O olhar das colegas de profissão

Os responsáveis pelos alunos não são os únicos que questionam o trabalho dos homens na Educação Infantil. Segundo Roberto Belgoni, até mesmo colegas de profissão já contestaram isso. 

Roberto Carlos da Silva Belgoni, professor do EDI Fundação Leão XIII, no Estácio (Foto: Arquivo pessoal do professor)

“Em todos os EDIs que atuei, as direções sempre me visitavam mais em sala, perguntando: ‘Você sabe fazer isso?’, ‘Por que está fazendo dessa forma?’. Ou, ainda, comentando: ‘Nossa, você é carinhoso!’, ou ‘Você canta sempre com eles, não tem vergonha!’. É desagradável ver sua competência questionada unicamente por ser um homem”, lamenta. 

Wallace Benjamin relata que também já foi inquirido por outros docentes. “Tive um aluno que gostava muito de brincar com objetos ‘tradicionalmente femininos’. Essa é uma liberdade que, a meu ver, todas as crianças devem ter: de interagir com qualquer brinquedo, já que isso não define quem ela é ou vai se tornar. Porém, fui orientado por uma colega a ter cautela com ‘essas liberdades’, pois as pessoas pensariam que eu estaria induzindo a criança a ser homossexual. Tenho dúvidas de que as palavras ditas seriam as mesmas se eu fosse heterossexual ou mesmo mulher, na Educação Infantil”, conta o professor, que segue permitindo que seus alunos divirtam-se com os brinquedos que quiserem.

Entretanto, Wallace aposta na troca de experiências e conta com o apoio de professoras da Educação Infantil. “Além das questões relacionadas a gênero e sexualidade, minha pouca experiência e a atuação em uma unidade de turno único também me impulsionaram a pesquisar, a estudar e a ter a humildade de buscar ajuda. Precisei, em alguns momentos, conversar com a direção e com minhas colegas de trabalho mais próximas e experientes para saber e ter segurança para lidar com possíveis dúvidas de responsáveis e sobre os processos do cuidar”, admite o professor.

A convivência com as crianças 

Roberto Carlos Belgoni relata que, mesmo entre as crianças, muitas vezes há surpresa ao ver que um homem é o professor. “Parece que algumas têm uma ideia pré-concebida sobre o que seria tarefa ou papel de um homem, então ficam surpresas ao perceberem que faço tudo que uma mulher, como a mãe delas, por exemplo, faz. Quando demonstro saber prender o cabelo das meninas, fazer tranças, brincar, os alunos começam a ficar mais à vontade comigo”, comenta Roberto, que se interessou em trabalhar na Educação Infantil por acreditar que o trabalho fosse “menos engessado” do que no Ensino Fundamental, explorasse mais o lúdico nas atividades e não levasse pressão e cobrança aos alunos na avaliação.  

Wallace Benjamin vê no EDI Medalhista Olímpico Éder Francis Carbonera um espaço de parcerias e afetos (Foto: Arquivo pessoal do professor)

Wallace Benjamin conta que não passa despercebido pelas crianças na escola. “Noto que elas me observam. Muitas me cumprimentam pelos corredores, me abraçam, me olham. Talvez esse seja um sinal de que minha presença é ‘estranha’ ou ‘incomum’ naquele espaço, por parte delas.” 

Sobre o fato de ser visto como referência masculina por algumas crianças, sobretudo aquelas que sofrem com a ausência de uma figura paterna, Rodrigo Merat diz que leva com naturalidade e tenta não se ater a esse aspecto. “Não sou o pai e nem o tio delas. Sou o Rodrigo, amigo, professor com quem podem contar. Que vai ser amoroso, mas também vai saber chamar atenção nos momentos e nas horas certas. Tento não trazer esse contexto e a personificação familiar, pois acredito que ser professor é ir muito além disso: é formação, experiência, olhar, escuta, autoria, curiosidade.”

O mercado de trabalho para homens na Educação Infantil  

“É o famoso ‘você não tem o perfil que procuramos’”, comenta o professor Roberto Belgoni, que acredita nunca ter conseguido trabalhar na rede privada pelo fato de ser homem. “Acredito que o concurso público seja o melhor caminho para lecionar na Educação Infantil. Para mim, foi o único possível”, diz.

Na opinião de Rodrigo Merat, o concurso público não é o caminho mais fácil, mas é por onde muitos homens conseguem um trabalho na EI, ainda que vivam a discriminação e o preconceito no interior das instituições.

“Quando vejo professores homens que atuaram e atuam na Educação Infantil progredindo, mostrando seus trabalhos, sinto que a vitória deles também é minha. É a vitória de uma classe, de uma minoria em vez e voz, que hoje consegue quebrar diferentes paradigmas e mostrar um trabalho de qualidade”, declara Rodrigo.

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