Processo Seletivo DAF 2021 12


Da série
Material de Complementação Escolar (MCE)
29 Maio 2020
 
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Ariele Mendes da Silva, aluna do 6º ano da E.M. Álvaro Alvim, em atividade remota proposta pela professora Juliana Cardoso. Acervo da professora, FB

O setor educacional se vê, neste momento, diante de intensos debates sobre as práticas de ensino, as relações entre pedagogia e tecnologia, os rumos da Educação... A Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro tem feito vários esforços para que alunos e professores permaneçam em contato, durante o período de isolamento social, mas os desafios são muitos – afinal, a prática histórica da maioria das redes de educação sempre foi a do ensino presencial. Apesar disso, vários resultados começam a aparecer. E não só aqueles que dizem respeito à relação professor-aluno, mas também os que se referem às trocas de experiência e à apropriação de novas formas e ferramentas de ensino.

Várias lives vêm sendo feitas por professores da Rede Municipal para discutir essas e outras questões, a exemplo de Diálogos entre educadores, comandada pelos professores Mário Mangabeira e Soraya Aline de Castro Assis, ele assistente da Gerência de Educação da 8ª CRE e ela professora da C.M. Meriluce de Oliveira Müller (10ª CRE). Uma das questões que emergem é o uso das tecnologias, já que é preciso manter o contato com os alunos e utilizar ferramentas não presenciais para orientar, explicar e dirimir dúvidas.

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Mário Mangabeira, da Gerência de Educação da 8ª CRE e um dos comandantes da série de lives Diálogos com educadores. Acervo pessoal

Para otimizar o uso das tecnologias digitais pelos profissionais da Rede, a SME fez uma parceria com a Microsoft envolvendo a formação deles para o uso da plataforma Teams e de outras ferramentas digitais úteis à realização de atividades e à comunicação com alunos e parceiros de trabalho. “A ideia é que o curso e o uso das tecnologias sirvam não só a este momento de pandemia, mas que também sejam incorporados à prática profissional após o fim do isolamento social”, diz Rejane Farias, subsecretária de Ensino da SME.

A pandemia da covid-19, na opinião de Mário Mangabeira, está impondo que as práticas pedagógicas sejam repensadas e novas respostas sejam dadas. Segundo ele, a partir de sua experiência com os docentes, muitos dos atuais professores consolidaram a prática pedagógica numa época em que as pessoas ainda não usavam computador, mas vários desses já estão se descobrindo videomakers e produtores de atividades on-line.

Outra discussão que anda fervilhando entre os professores da Rede Pública é a questão das desigualdades sociais e da equidade na Educação. Parte expressiva dos alunos não tem acesso à internet. Às vezes, até estão conectados, mas a família possui apenas um celular antigo e uma conexão precária para atender às demandas de todos da casa.

A SME tem tentado diversificar as maneiras como as atividades podem chegar aos estudantes. A subsecretária de Ensino informa que a SME já mandou imprimir as várias versões do Material de Complementação Escolar (MCE), como alternativa para aqueles que têm dificuldade de acessar a internet. O MCE já foi enviado às 11 CREs da Rede Municipal, mas, segundo ela, a operação de distribuição não é fácil:

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A subsecretária de Ensino Rejane Farias. Alberto Jacob Filho, MultiRio

“Somos a maior rede de ensino da América Latina e não podemos, simplesmente, pedir que responsáveis e alunos peguem o material na escola, porque isso poderia gerar concentração de pessoas. Em primeiro lugar, a saúde. Além disso, os Correios não chegam a inúmeras comunidades, exatamente aquelas em que, de forma geral, o material impresso mais se faz necessário”, diz.

Rejane Farias explica que cada CRE está construindo, junto às escolas, a melhor estratégia de distribuição do MCE impresso, já que conhecem melhor a realidade dos alunos e de cada comunidade. A subsecretária de Ensino também lembra que o Material de Complementação Escolar está disponível on-line – no app SME Carioca 2020 e na área MCE do Portal MultiRio, que possui conteúdos elaborados pela SME e uma seleção de produções da MultiRio. Também há uma faixa especial da MultiRio na TV, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 9h às 11h, pelo canal 526 e 26 da NET-Rio, com programação selecionada e alinhada ao Material de Complementação Escolar. As CREs, por meio de redes sociais e blogs, também oferecem acesso ao MCE a professores, alunos e responsáveis.

Práticas remotas

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Frame de vídeo postado no YouTube. O professor Esdras Pereira propõe que seu alunos resolvam o desafio da pizza das somas

Da mesma maneira que Mangabeira, o professor de Matemática Esdras Pereira, da E.M. Padre Leonel Franca (8ª CRE), em Realengo, acredita que as práticas pedagógicas e as culturas educacionais precisam ser melhor repensadas para envolver os alunos de maneira não apenas quantitativa, mas também qualitativa: "Várias escolas e professores estão reproduzindo o modelo de aula tradicional na internet. Tenho visto vários pais reclamando de sua ineficácia, pois não conseguem manter a atenção do filho durante a videoaula”.

Joana Milliet, doutoranda em Educação na PUC-Rio e integrante do Grupo de Pesquisa em Educação e Mídia, observa que as práticas remotas, durante a quarentena, costumam estar afinadas com a filosofia pedagógica da unidade escolar. “Há relatos em que alunos passam horas assistindo a aulas expositivas, por meio de videoconferência, em uma tentativa de a escola transpor, de forma direta, a experiência presencial, sem considerar que o tempo de atenção, quando estamos diante da tela, é muito menor”, diz. Para ela, que está fazendo uma pesquisa sobre letramento midiático e educação remota durante a pandemia do coronavírus, as experiências que parecem mais profícuas são aquelas que dão autonomia aos professores para criarem, selecionarem e proporem atividades adequadas à sua turma (que só eles conhecem).

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A professora Juliana Cardoso em frame de vídeo postado no Instagram, em que passa instruções da escola para os alunos

A professora do 6º ano carioca Juliana Cardoso de Almeida, da E.M. Álvaro Alvim (8ª CRE) acredita que as escolas e os profissionais com mais dificuldade, neste momento de ensino remoto, são aqueles que não usavam as tecnologias e as estratégias participativas que visam o maior protagonismo do aluno:

“Na primeira semana de aula, eu já dou o meu perfil profissional no Facebook e peço para os alunos me seguirem. Então, não está sendo tão difícil desenvolver atividades remotas, porque eu já tinha contato virtual com eles. A escola em que ensino pediu para cada professor criar um grupo, no WhatsApp, para orientar e tirar as dúvidas de seus alunos. No meu caso, são os pais que mais estão em contato, neste aplicativo, para saber o que os filhos têm que fazer. Tenho passado atividades simples e divertidas, como fazer um vulcão. Peço que todos os exercícios sejam registrados por foto ou vídeo e, depois, publicados no perfil do aluno, no Facebook, junto com hashtags que criei e que me permitem ver, a qualquer momento, o que eles fizeram. Um dos pontos interessantes dessa experiência é que as imagens também trazem várias informações sobre a realidade das famílias”, relata Juliana.

Mesmo para os professores que costumam fazer uso de atividades que interagem com os alunos em sala de aula, a experiência de ensino remoto tem sido repleta de desafios e novas aprendizagens. O professor de Geografia Gustavo Xavier, da E.M. Presidente Antônio Carlos (9ª CRE), em Cosmos, se aflige com a falta do contato presencial: “Tenho feito vários vídeos, alguns, inclusive, em parceria com a 8ª CRE. Mas, no ensino presencial, a gente vê a reação de cada um da turma, podendo mudar, ou não, a estratégia da aula. Já no vídeo, a gente fica sem saber ao certo se está agradando ou não. Tenho tentado me aperfeiçoar nas técnicas audiovisuais”.

Legados da pandemia

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O professor Gustavo Xavier. Frame de vídeo postado em que explica para os alunos as atividades de Geografia do MCE

Conforme Gustavo Xavier, o período tem sido de muita apreensão para os professores, já que eles não sabem o que acontecerá, depois que tudo terminar. Para Esdras Pereira, a pandemia está escancarando as desigualdades sociais e a necessidade de se abraçar um novo modelo de ensino: “Espero que professores e gestores façam uma reflexão profunda sobre o que é e não é necessário à escola do século XXI. Torço muito para que tudo isso resulte em novas utopias”.

Ao contrário de muitos professores, que temem que a pandemia desvalorize a profissão e os troque por robôs, a pesquisadora Joana Miliet acredita que a quarentena está promovendo o contrário, a valorização do papel da escola: “Observo que a população está percebendo, de fato, o papel fundamental que a escola exerce na sociedade e o tanto que perderíamos sem ela. E, como toda crise, o momento oferece grandes oportunidades para novos aprendizados. Uma das grandes perguntas que as escolas e as redes de ensino estão se fazendo é: o que, realmente, é necessário ensinar? Isso é um bom ensejo para se repensar o currículo”.

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A doutoranda Joana Miliet, que pesquisa letramento midiático e ensino remoto durante a pandemia da Covid-19. Acervo pessoal

A professora Juliana Cardoso de Almeida também não crê na desvalorização da escola, mas em sua renovação. Como sua prática pedagógica, anterior à pandemia, favoreceu a permanência do contato com a maioria de seus alunos, ela acredita que as redes sociais e as ferramentas da internet potencializam o aprendizado e contribuem para estreitar a relação com alunos e responsáveis: “Meus laços com as famílias aumentaram ainda mais durante essa quarentena. É interessante perceber como, às vezes, estamos tão próximos, mas desconectados uns com os outros. E como, em outras ocasiões, estamos tão distantes, mas profundamente conectados”.

Mário Mangabeira acredita que o período pós-covid-19 pode ser, sim, bastante profícuo e de uma grande revisão crítica, já que muitos professores têm se
perguntado acerca de suas rotinas escolares, em especial aquelas relacionadas às situações de aprendizagem. Isso porque o momento está exigindo que os alunos sejam mais autônomos e tenham mais iniciativa. “Aquela escola onde o professor dá tudo e o aluno só recebe está sendo colocada em xeque”, opina. Outro possível legado da pandemia, na visão de Mangabeira, é o maior incremento de políticas públicas voltadas à renovação do ensino, à formação de um professor mais conectado com o século XXI e ao uso de ferramentas tecnológicas como potencializadoras da relação ensino-aprendizagem.

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