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Pela Trilha Transcarioca
18 Novembro 2014 | Por Sandra Machado
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TT florPor causa de tanta beleza, um dos maiores gostos do carioca é ficar ao ar livre. E, no caminho, ir descobrindo os detalhes de plantas e de bichos. Ou, então, subir até um ponto elevado, de onde se enxerga os contornos de praias e montanhas, até onde a vista alcança. Momentos de pura conexão com a natureza, que fazem bem à alma, estão ao alcance de qualquer pessoa disposta a fazer uma trilha na Cidade Maravilhosa. Se possível, com um deslumbramento semelhante ao dos primeiros desbravadores que ocuparam a terra e foram abrindo veredas no meio da mata, algumas preservadas até hoje, justamente pela distância das áreas mais urbanizadas.

Agora, quando o Rio está prestes a completar 450 anos de fundação, uma iniciativa coordenada pelo Mosaico Carioca promete presentear moradores e visitantes com uma oportunidade inédita no país: a possibilidade de cruzar o município a pé, no trajeto total de 180 quilômetros. Assim que os últimos trechos estiverem interligados, a Trilha Transcarioca vai unir dezenas de trilhas localizadas em oito unidades de conservação que já existem. Caso seja realizada de uma única tacada, a travessia pode levar de 17 a 25 dias.

O trajeto começa na Barra de Guaratiba, na Zona Oeste, junto à Restinga da Marambaia, atravessando o Parque Natural Municipal de Grumari, o Parque Estadual da Pedra Branca, o Parque Nacional da Tijuca, o Parque Natural Municipal da Catacumba e o Parque Natural Municipal da Paisagem Carioca (antigo Parque da Gávea), até chegar ao Monumento Natural Municipal dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca, onde a aventura acaba. “A trilha termina, exatamente, no lugar onde a cidade foi fundada: entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar”, explica Pedro Menezes, diplomata e idealizador do projeto. Sua próxima estratégia é fazer um evento começando quatro dias antes do 450º aniversário da cidade, a ser comemorado no dia 1º de março de 2015: uma caminhada no último trecho da trilha, entre a Estrada Velha de Jacarepaguá e o Morro da Babilônia, com chegada prevista na Urca bem a tempo de comer o bolo.

Três esferas do poder público e esforço conjunto

TT LogoO planejamento para a implantação da Trilha Transcarioca contou com a cooperação dos gestores das unidades de conservação envolvidas e, também, de técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Prefeitura do Rio, que trabalharam com base nas cartas topográficas do Instituto Pereira Passos. O mapa do traçado determina o local de acesso a cada trecho, rotas de escape, pontos críticos de segurança, linhas de ônibus, hospitais, postos policiais e de bombeiros, atrações históricas, postos de venda de artesanato, e facilidades de alimentação e de pernoite, além de indicação da potabilidade da água, para beber e para banho.

A previsão é de que tudo fique pronto antes dos Jogos Olímpicos de 2016. Mas, para isso, faltam mais apoiadores e parceiros dispostos a injetar os recursos necessários. “Ainda estamos caminhando a passos lentos, na base do voluntariado. A gente ficou até um pouco assustado com o último mutirão, organizado pela nossa página no Facebook, porque a demanda é muito maior do que a nossa capacidade”, ressalta Pedro, se referindo aos cerca de 800 inscritos pela rede social, muitos dos quais vindos de outros estados. Se por um lado o interesse está sendo acima do esperado, por outro, o impasse é saber se o projeto da Transcarioca já atingiu o limite de crescimento nesta primeira fase. “Tivemos dificuldade, por exemplo, de conseguir dar uma camiseta com a logo para cada participante, como combinado.”

Trilha de longo curso: recreação como ferramenta de conservação

O novo circuito, que percorre os principais atrativos da cidade, inaugura uma nova modalidade de ecoturismo no Brasil: o das trilhas de longo curso. Comum em países como a Nova Zelândia e a África do Sul há mais de um século, a trilha de longo curso equivale a um catalisador, capaz de gerar emprego e renda por onde passa, justamente por demandar a criação de uma estrutura de serviços de alimentação, hospedagem e venda de souvenires.

TT CachoeiraNo caso da trilha carioca, a iniciativa tem um caráter bastante ligado à história de vida de Pedro Menezes. “Eu era comissário de bordo da Varig e fazia a Ponte Aérea. Quando o avião se aproximava do Rio, eu via a cidade de cima e fui ligando, mentalmente, as trilhas que já conhecia das minhas próprias caminhadas”, explica. Está nos seus planos uma conversa com o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, porque o trajeto da Transcarioca corta muitas comunidades, como Tabajaras, Mato Alto e Cabritos, só para citar algumas. Bem como uma consulta ao Sebrae, para estudar a implantação de um projeto-piloto, numa comunidade com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), de estímulo à criação de uma pousada e, também, com preparação de pessoal para fazer a manutenção da trilha.

Ex-diretor do Parque Nacional da Tijuca (PNT) e integrante da associação Amigos do PNT, Pedro publicou, em 2000, o livro Transcarioca: Todos os Passos de um Sonho, recheado de exemplos de trilhas de longo curso, como a Appalachian Trail (EUA) e a Huella Andina (Argentina). Além do desenvolvimento sustentável como uma alternativa de vida para a população local, a obra aponta os benefícios do modelo de conservação para diversos ecossistemas – como áreas de restinga, manguezal, praia, costão rochoso e floresta – além do estímulo à educação ambiental, em si, junto aos visitantes.

Em maio de 2013, foi realizado o Primeiro Seminário Internacional sobre Trilhas de Longo Curso na cidade, como parte de uma estratégia conjunta que inclui a criação de um banco de dados e a organização de reuniões, oficinas e ações de manejo (mouse over para modelo que permite explorar racionalmente a natureza, com ações que causem o mínimo impacto ambiental). Graças aos voluntários, que se prepararam para a empreitada lendo o Manual de Sinalização da Transcarioca, enviado por correio eletrônico, mais de cem quilômetros de sinalização já foram instalados. A chamada sinalização rústica inclui tabuletas com o nome da próxima parada e a logomarca, pintada em árvores e rochas.

O que esperar da aventura

TT MapaAlém de se deparar com ângulos inusitados da cidade e poder ir além dos pontos turísticos tradicionais, trilheiros e montanhistas terão a chance de visitar antigas fazendas de café, engenhos de açúcar, fortalezas militares, represas e mirantes que integram a história do desenvolvimento carioca. Moradores acostumados a passear pelas atrações naturais do Rio de forma avulsa vão poder, agora, dar vazão ao seu lado aventureiro. Para isso, o corredor ecológico está sendo interligado, como num gigantesco jogo de tabuleiro.

TT HomeUm bom exemplo é um dos trechos especialmente implantado para ligar a Praça Afonso Viseu, no Alto da Boa Vista, à Vista Chinesa. Em aproximadamente quatro horas e meia de caminhada, é possível passar pelos morros da Boa Vista, do Queimado e da Freira, além de conhecer a Mesa do Imperador, local privilegiado onde d. Pedro II fazia refeições durante suas excursões à região da Floresta da Tijuca.

Quem não tiver disponibilidade ou aptidão para enfrentar a Trilha Transcarioca semanas a fio, pode optar por ir cumprindo os trechos um fim de semana por mês, por exemplo, ao longo de um ano inteiro. E esse desejo de realizar o trajeto completo acaba criando a fidelização do turista. As interrupções topográficas da trilha devem ser dribladas por meio da tecnologia, como acontece num trecho de Jacarepaguá. Lá, os grupos de trabalho sugeriram a construção de um viaduto florestado sobre a Rua Cândido Benício, a exemplo de estruturas em trilhas no Canadá, Alemanha, Bélgica e Holanda.

 
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